“Um século de futebol em Abrantes”, por José Martinho Gaspar

Sporting Clube de Abrantes nos anos 20. Foto: DR

Ao longo deste último ano, o tempo que tenho podido dispensar para alguma pesquisa tem-se direcionado para a área do desporto. O ponto de partida foi o livro estruturado no âmbito do recente centenário do Sport Abrantes e Benfica, a que se seguiu, já que andava com a mão na massa, o artigo sobre 100 anos de desporto em Abrantes, recentemente publicado na revista Zahara. Em início de mais uma edição das festas da cidade, a opção para o mediotejo.net recaiu agora na elaboração de uma síntese sobre 100 anos de futebol no concelho de Abrantes. Vamos a isso!

Uma semana antes de Abrantes ser oficializada como cidade, a 10 de junho de 1916, o Sport Lisboa e Benfica admitiu como sua segunda filial o Sport Lisboa e Abrantes. Este clube, que chegou aos nossos dias com a designação Sport Abrantes e Benfica, foi o primeiro a disputar oficialmente um jogo de futebol na nova cidade, a 23 de julho do mesmo ano, na inauguração do Campo de Vale de Roubam, frente à União dos Caixeiros de Tomar, um encontro que terminou sem golos.

Ao longo dos anos 20, surgiram no concelho vários clubes vocacionados para a prática do futebol, que se vieram juntar ao pioneiro Sport Lisboa e Abrantes. Em 1922, em resultado da fusão do Grupo Desportivo Tramagalense com o Tramagal Futebol, constituiu-se o Tramagal Sport União (TSU); ainda no mesmo ano, nasceu o Tubuciano Futebol Clube; fundado em 1923, o Grupo de Futebol Clube Operário Abrantino, também denominado Grupo Recreativo Operário Abrantino constituiu-se como 7.ª delegação do Sporting Clube de Portugal, passando a denominar-se Sporting Clube de Abrantes; ainda em 1923, foram constituídos o Clube Desportivo Tramagalense, o Sport Estrela Riomoinhense, o 25 Operário Sport Abrantino e o Futebol Dragões de Alferrarede, cujo campo foi inaugurado no mês de outubro; em 1924, nasceu o Sport Clube de Mouriscas. Se é certo que todas estas novas associações desportivas surgiram envoltas em grande entusiasmo, também é verdade que muitos destes emblemas cedo desapareceram.

TSU, equipa de1970-71, na 2.ª Divisão Nacional. Foto: DR
TSU, equipa de1970-71, na 2.ª Divisão Nacional. Foto: DR

Nos primeiros anos da década de 20 vulgarizaram-se os jogos no Campo de Vale de Roubam e muitos desafios, de caráter amigável, deixaram a cidade para serem jogados nas freguesias envolventes, como o Rossio ao Sul do Tejo, Rio de Moinhos, Tramagal ou Alferrarede.

Desde cedo tivemos visitas a Abrantes dos dois clubes de Lisboa em que os principais emblemas da cidade se filiaram, com resultados claramente desfavoráveis para os locais, pelo que era urgente criar competições regionais. A fundação da Associação de Futebol de Abrantes, em janeiro de 1924, presidida por Luís Guerreiro Padilha de Castro, anterior à Associação de Futebol de Santarém (19 de novembro do mesmo ano), criou condições para que se desenhassem campeonatos concelhios.

A Taça Avelar Machado, que surgiu em 1924, era disputada em duas voltas e o número de equipas participantes raramente ultrapassava as quatro. Na primeira edição, a vitória sorriu ao Sporting Clube de Abrantes, a que sucedeu o Sport Lisboa e Abrantes na época seguinte. Para além do campeonato, organizava-se outra competição futebolística designada Taça Sacadura Cabral, em que podiam participar todas as equipas do concelho e que decorria num sistema de eliminatórias.

Nos anos seguintes, o futebol continuou a suscitar muito entusiasmo, pelo que surgiram novos clubes e foram construídos vários campos destinados à prática da modalidade. O Sport Clube Mouriscas fez a sua aparição em 1926, já em 1930 foi a vez do Clube dos Patos Bravos vir a público, no Rossio ao Sul do Tejo. Em 1933 foi inaugurado o campo de jogos do Atlético Clube Rossiense (filial de Os Belenenses) e, na mesma localidade e ano, construiu-se o Campo Desportivo Dr. António Martins, onde, em jogo inaugural, se defrontaram o Sporting Clube Rossiense e o Sporting Clube de Portugal. Ainda no mesmo ano, foi edificado o Campo do Brejo, em Alferrarede.

Em 1934 continuavam a ser criados clubes e campos para estes praticarem futebol, como foi o caso do Clube Crucifixiense. Em 1935, por seu turno, nascia o Clube Desportivo e Recreativo de Alferrarede, que muitos anos depois (1987) passaria a denominar-se Clube Desportivo e Recreativo de Alferrarede – “Os Dragões”, apesar desta designação já ser vulgar em meados do século XX. Em Abrantes, em 1936, começou a construir-se o Campo do Barro Vermelho, que substituiu o Campo de Vale de Roubam.

Dragões de Alferrarede na 3.ª Divisão. Foto: DR
Dragões de Alferrarede na 3.ª Divisão. Foto: DR

No que concerne a resultados com alguma expressão distrital, apenas nos anos 40 deparamos com os primeiros sucessos, no Rossio ao Sul do Tejo. Em 1946, na sequência extinção do Grupo Desportivo da Casa do Povo, nasceu a União Desportiva Rossiense, que conseguiu o título distrital da 1.ª divisão em 1947/48 e 1948/49, tendo igualmente excelente participação na Taça de Portugal. A U. D. Rossiense participou igualmente no Campeonato Nacional da 2.ª Divisão, que tinha uma estrutura diferente da atual.

Com uma relação muito estreita com a Metalúrgica Duarte Ferreira, o TSU acabou por se tornar o clube mais poderoso do concelho entre as décadas de 50 e 70. Com infraestruturas renovadas em meados do século XX, os tramagalenses conseguiram atingir a 3.ª Divisão Nacional em 1955. Entre as épocas 1959/60 e 1966/67, o TSU apenas por uma vez não venceu o campeonato distrital da 1.ª divisão, consolidando o seu lugar na 2.ª Divisão Nacional. Estreou-se neste patamar nacional em 1967/68, onde se manteve sete épocas consecutivas, alcançando duas vezes a 5.ª posição.

Quanto aos clubes da cidade, nem o Sporting nem o Sport Lisboa, denominado Sport Abrantes e Benfica a partir dos anos 50, alcançaram especial sucesso em termos futebolísticos até meados do século XX.

Sport Lisboa e Abrantes (Anos 40)
Sport Lisboa e Abrantes (Anos 40). Foto: DR

A modéstia de resultados dos dois clubes abrantinos fez com que, em 1951, tenha sido criada uma comissão que se propunha fundi-los. Após uma reunião promissora na sede do Orfeão e da votação favorável da assembleia geral sportinguista, a reunião magna benfiquista votou desfavoravelmente tal junção.

O corporativismo do Estado Novo procurava enquadrar e controlar as atividades culturais e desportivas, em particular aquelas que eram desenvolvidas por parte dos trabalhadores. Em 1935 foi instituída a FNAT – Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho. Na região de Abrantes, o futebol foi a modalidade que proporcionou a participação de mais atletas em campeonatos corporativos, ganhando os mesmos alguma expressão a partir dos anos 50, num quadro competitivo que incluía equipas como o Pego, S. Facundo, Os Esparteiros (Mouriscas), S. Miguel do Rio Torto e Rio de Moinhos. Em 1957, a formação de S. Miguel do Rio Torto conquistou o campeonato distrital corporativo, enquanto a equipa d’Os Esparteiros alcançou igual feito em 1959.

Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, a nova dinâmica associativa foi especialmente sentida na área do desporto. Se as associações se afirmavam culturais, recreativas e desportivas, foi ao nível do desporto que muitas delas começaram a desenvolver as suas atividades. Numa fase inicial, assistiu-se a um duplo fenómeno: aqueles que se encontravam ligados à dinâmica desportiva procuraram distanciar-se da FNAT, agora INATEL, que controlara grande parte das atividades e dos quadros competitivos no Estado Novo; ao mesmo tempo, nas freguesias rurais construíram-se equipamentos diversos. Foram vários os clubes que se constituíram nos primeiros anos a seguir ao 25 de Abril de 1974 e que edificaram novas infraestruturas.

No futebol sénior, se o TSU vivia o fim de um ciclo, no qual atingiu o patamar mais elevado que alguma vez o futebol abrantino alcançou, os “Dragões” de Alferrarede viveram um período de glória com a conquista do Distrital da 1.ª Divisão em 1979/80, ascendendo à 3.ª Divisão Nacional.

Nos anos 80, os quadros competitivos ao nível do futebol foram-se alargando, o número de praticantes aumentou, a ponto de ter havido a necessidade de criar uma 3.ª Divisão Distrital. O Grupo Desportivo do Pego viveu um período de forte investimento, ainda assim, em termos de títulos, o clube ficou-se pela conquista da Taça do Ribatejo, na época 1987/1988.

Em termos de futebol de formação, desde os anos 80 que “Dragões”, TSU, Sporting Clube de Abrantes e Sport Abrantes e Benfica começaram a apresentar equipas de bastante qualidade, atingindo algumas vezes os campeonatos nacionais, apesar dos constrangimentos causados pelos pelados em que treinavam e competiam.

No início do novo milénio, a construção da Cidade Desportiva, com estádio com relva natural e campo sintético, proporcionaram renovadas condições para o treino e a competição para um conjunto muito mais alargado de praticantes. Pelo estádio municipal passou o fenómeno Abrantes Futebol Clube, com um percurso ascensional fabuloso, atingindo a 2.ª Divisão B, mas com vida curta.

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Jogo no Campo do Barro Vermelho, em Abrantes. Foto: DR

Esta é uma resenha, necessariamente incompleta, de 100 anos de futebol no concelho de Abrantes. Este texto é, primeiro que tudo, uma homenagem a todos os dirigentes e treinadores que, de forma desinteressada, na defesa do futebol e das suas terras, proporcionaram a tantos jovens a oportunidade da prática desportiva.

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