“Um iogurte não faz a Primavera”, por Hália Santos

As figuras públicas têm responsabilidades acrescidas quando fazem declarações públicas. Seja um político, seja um juiz, seja um cientista, seja um empresário de sucesso, seja um jornalista, seja um artista, seja um jogador de futebol. Seja o que for. Quando alguém assume protagonismo num determinado contexto tem que perceber que não deve dizer o que lhe vem à cabeça. Porque o que lhe vem à cabeça, se for um enorme disparate, vai ser lido e ouvido por uma quantidade indeterminada de pessoas, que vão ser influenciadas. Ou que se vão indignar. Ou que simplesmente se vão surpreender pela negativa.

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Tal como os pais e as mães sabem que, quando estão no meio de um processo de educação e formação dos filhos, tudo o que disserem e fizerem vai influenciar esse processo, direta ou indiretamente, uma figura pública tem a obrigação de ter consciência do impacto que tem tudo aquilo que faz e que diz. Sabemos que em campos como o da política vale quase tudo. A ironia e o cinismo são armas usadas por quase todos, os excessos de linguagem são tolerados porque ‘faz parte’ e os ataques verbais aos adversários são ‘o pão nosso de cada dia’. Como são as expressões populares que, supostamente, ajudam a explicar posições.

Quando o senhor presidente do Tribunal da Relação do Porto disse, em entrevista à Lusa, que “não é um caso que faz o sistema, não é uma andorinha que faz a Primavera”, naturalmente que sabia que esta seria a frase a ser destacada. Porque cumpre os critérios jornalísticos da curiosidade, da novidade, do inesperado, do insólito. O senhor, de nome Ataíde das Neves, fez estas declarações a propósito da decisão tomada sobre a violação de uma jovem numa discoteca de Vila Nova de Gaia que desresponsabilizou os violadores.

Como se a jovem violada fosse uma ‘coisa’ insignificante como será uma andorinha no meio das milhares de andorinhas que surgem na Primavera. Sabemos que é tudo figurado, que se trata de uma expressão. Mas é um comentário muito infeliz que não poderia nunca ter sido feito por alguém com tamanha responsabilidade, muito menos em contexto de entrevista a um órgão de Comunicação Social que, naturalmente, vai ser citado por todos os outros. Se o bom senso não prevalece e se a opção passa por usar expressões que as pessoas compreendam, certamente que se poderia fazer um trocadilho com o nome deste senhor e atribuir-lhe o cognome de Abominável Juiz das Neves.

Há comentários infelizes e há reações tontas. Falar de prazo de validade de iogurtes para reiterar a confiança num político que é suspeito de falsificar presenças em reuniões na Assembleia da República chega a ser anedótico. Só que o assunto é demasiado sério para ser tratado desta forma. Uma coisa é reafirmar posições e opiniões sublinhando uma coerência de discurso. Outra coisa é tentar ser engraçado com a situação, acusando outros políticos de serem como os iogurtes porque fazem declarações que um mês depois deixam de ser válidas e afirmar que a validade das suas declarações não é como a dos iogurtes.

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Não fica bem ao líder do PSD reagir a uma polémica séria recorrendo a este tipo de comparações intelectualmente nada elevadas, como não é recomendável tentar reduzir o assunto a ‘questiúnculas’. É certo que não se está a discutir o futuro do país. É certo que esta ‘andorinha’ não faz a Primavera. Mas uma ‘andorinha’ que foi escolhida para fazer parte de uma elite não pode comportar-se como um ‘pato bravo que anda lá em cima’… e mais não se diz, para as reações não azedarem, como os iogurtes fora do prazo.

 

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