“Trilogia do autarca (III): A gentileza”, por José Rafael Nascimento

Homenagem ao "Senhor do Adeus", em Lisboa. Foto: DR

“Se não estás comigo, és meu inimigo.”
– Darth Vader (Guerra das Estrelas)

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A cantora brasideira Marisa Monte compôs esta canção em homenagem ao Profeta Gentileza, à qual deu o nome por que ficou conhecido José Datrino, um popular e muito acarinhado “pregador urbano brasileiro”, que se tornou conhecido por vestir uma túnica branca e usar uma longa barba, fazendo inscrições peculiares nos pilares do Viaduto do Caju, no Rio de Janeiro:

GENTILEZA (de Marisa Monte)

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca

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Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de gentileza

Por isso eu pergunto
A você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola
A vida é o circo
“Amor: palavra que liberta”
Já dizia o profeta

O Profeta Gentileza na década de noventa, nos últimos anos da sua vida de pregação no Rio de Janeiro. Foto: O Globo

José Datrino (1917-1996) sempre demonstrou um comportamento atípico mas, após o incêndio que destruiu o Gran Circus Norte-Americano em Dezembro de 1961, desastre em que morreram mais de 500 pessoas, a maioria delas crianças, o Profeta Gentileza foi para o local do incêndio e dedicou-se a confortar os familiares das vítimas da tragédia e todos com quem se cruzasse, com palavras de amor, bondade e respeito para com o próximo e a natureza.

Aos que o chamavam de louco, ele respondia: “Sou maluco para te amar e louco para te salvar” e, gentilmente, oferecia-lhes flores. A sua frase mais conhecida era “Gentileza gera gentileza”, mas as inscrições em verde-amarelo que fez em 56 pilares ao longo de quilómetro e meio, durante vinte anos, “convidava todos a serem gentis e agradecidos, propunha uma crítica do mundo e uma alternativa ao mal-estar da civilização, anunciando um antídoto para a brutalidade do sistema de relações, Usando uma linguagem popular e religiosa, defendia um novo paradigma civilizacional urgente para toda a humanidade”.

Após a sua morte, estas inscrições foram vandalizadas e, depois, apagadas pelo município do Rio de Janeiro, tendo posteriormente sido restauradas e valorizadas, com importantes projectos académicos (designadamente do Prof. Leonardo Guelman) e autárquicos, de que se destacam o “Rio com Gentileza”, “Brasil: Tempo de Gentileza”, “Universo Gentileza: a génese de um mito contemporâneo” e “Caminho das Índias”, entre outras obras e homenagens (e até merchandising).

A palavra “Gentileza” tem diversos significados, uns mais semelhantes do que outros. O Dicionário Priberam da Porto Editora atribui-lhe os sinónimos de “graça, elegância, galantaria, donaire, formosura, amabilidade, acção nobre ou distinta” e, com ironia, “maroteira”. No plural, pode assumir o significado de “favores”.

Temos, portanto, um conjunto de significações que, quando aplicadas à pessoa dos autarcas – como fez o edil abrantino no discurso de tomada de posse, ao sugerir uma reflexão sobre o “fantástico slogan” “Forte, Inteligente e Gentil” –, carece de selecção prévia e imprescindível clarificação. Neste sentido, começo logo por eliminar a “maroteira” e os “favores”, estes por não se imaginar que um servidor público possa usar o poder que lhe está temporariamente confiado para distribuir benesses ou privilégios seja por quem for, e aquela por ser manifestamente descabido que um autarca se dedique, no exercício do seu honorável mandato, a praticar (e cito o dicionário) “poucas-vergonhas” ou “patifarias”.

Como julgo que as acepções de “graça, elegância, galantaria, donaire, formosura” primam pela acessoriedade ou mesmo futilidade – não deixando de dar um certo salero ao personagem – vou concentrar-me nos sinónimos que restam, ou seja, na “amabilidade e acções nobres ou distintas”.

Curta-metragem de celebração do Dia Mundial da Gentileza (“Kindness”), a 13 de novembro.

Concordando, como já reconheci em crónica anterior, com o referido slogan (sugerindo apenas que cada qualidade seja precedida do advérbio “Mais”), considero que um autarca deve ser amável para com todos aqueles com quem, por inerência do cargo, se relaciona: munícipes, funcionários, jornalistas, pares, governantes, investidores, visitantes, autoridades diversas, etc.

Mas, o que significa exactamente esta amabilidade? Pode ela ser entendida como brandura ou frouxidão? Deve ela implicar necessariamente uma atitude carinhosa e ternurenta? Julgo que não, dependendo a amabilidade mais da genuína maneira de ser de cada pessoa do que do perfil do cargo que desempenha, nos limites da moral e dos costumes, e sem pôr em causa a imprescindível autoridade do autarca.

A amabilidade refere-se, então, ao respeito e boa-educação (urbanidade) para com os outros, à suavidade de modos – no olhar, falar, acenar, gesticular, abordar –, à delicadeza e cortesia, e, não menos importante, à bondade e empatia. Por outras palavras, um autarca gentil deve revelar um comportamento calmo e moderado, civilizado e pacífico, sensível e interessado em [e capaz de] compreender as ideias e os sentimentos dos outros.

Por outro lado, um autarca gentil deve praticar actos nobres e distintos, isto é, acções que honrem a sua pessoa e o executivo que dirige, bem como a autarquia e o município que representa. Neste sentido, o autarca gentil deve procurar a excelência e oferecer o exemplo, seja no plano da liderança individual e colectiva, seja no domínio das políticas e dos actos de gestão que propõe, aprova ou executa.

Recorrendo uma vez mais ao Dicionário Priberam, somos alertados para algumas qualidades que estes actos nobres, logo gentis, devem respeitar. Assim, importa que o autarca assegure a transparência e a fácil compreensão dos actos que pratica, diligenciando também para que estes sejam singulares, notáveis e primorosos.

Por oposição, ficam excluídas todas as acções que contrariem esta noção dual de “Gentileza”, sejam elas ásperas, rudes, grosseiras, violentas, insensíveis, vulgares, maldosas, falsas, indecorosas, desprezíveis ou infames. E importa, igualmente, que a referida gentileza seja verdadeira, sincera, genuína, jamais sendo usada como capa para esconder a desonestidade ou a incompetência.

Lamentavelmente, a gentileza é amiúde utilizada para explorar a vulnerabilidade afectiva dos outros, na tentativa de esconder fraquezas ou más intenções, e de obter a aceitação e aprovação daqueles com quem, sem essa simpatia, seria difícil interagir.

Da proclamação à infirmação do “fantástico slogan”, não passaram mais do que escassas semanas. Imagem superior: Boletim Municipal de Abrantes. Imagem inferior: O Mirante

O espaço mediático dá, naturalmente, vasta atenção à “Gentileza”, sendo muitas as fontes onde podem ser conhecidas as virtudes, bem como as boas práticas do comportamento gentil. Das muitas recomendações que li, seleccionei uma vintena delas:

1.      Agir com lealdade e comunicar com assertividade

2.      Agradecer a quem foi prestável ou generoso

3.      Ajudar, a título particular, pessoas necessitadas

4.      Aprender a escutar mais os outros

5.      Ceder o lugar a quem precisa de se sentar

6.      Convidar desconhecidos para conversar

7.      Doar roupa, livros, brinquedos, comida, etc.

8.      Elogiar o trabalho e a iniciativa dos outros

9.      Enviar mensagens aos amigos e familiares distantes

10.  Escrever e partilhar pensamentos, poemas, frases inspiradoras, etc.

11.  Oferecer ajuda a quem esteja a precisar

12.  Oferecer flores, bebidas ou petiscos

13.  Procurar conhecer pontos de vista diferentes e até antagónicos

14.  Procurar saber da saúde dos familiares de colegas e amigos

15.  Recolher lixo ao caminhar

16.  Rejeitar liminarmente boatos e intrigas

17.  Saudar e conversar com os adversários

18.  Segurar a porta e dar passagem a desconhecidos

19.  Sorrir e cumprimentar fisicamente pessoas desconhecidas

20.  Superar o orgulho e pedir desculpas com sinceridade

A prática do comportamento gentil retira espaço à ira (ou fúria), sentimento associado ao mau-humor e impaciência, ou mesmo ao ódio, rancor e perseguição. Não raras vezes, os indivíduos compensam na ira o que lhes falta na razão, ignorando, como lembrou o imperador-filósofo Marco Aurélio, que “mais penosas são as consequências da ira do que as suas causas”. Quando a ira se associa à vingança, perde a justiça.

Séneca, pensador estóico romano, conta que o cônsul Pisão condenou à morte um soldado por acreditar que este havia abandonado um camarada. Quando a sentença estava prestes a ser cumprida, este apareceu. Foram, então, informar Pisão, julgando que este ficaria satisfeito por não cometer uma terrível injustiça. Irado, o cônsul condenou os três à morte: o sentenciado, por já ter sido condenado; o que apareceu, por ser a causa da condenação; e o carrasco, por não ter executado a sentença.

Os textos orientais ensinam que “não é forte quem derruba os outros; forte é quem domina a sua ira”, alertando para o facto de os fortes acabarem amiúde por ser derrubados pelo seu sentimento negativo. Também no plano argumentativo, a ira prejudica a comunicação e a compreensão mútua, atribuindo o dramaturgo William Shakespeare as seguintes palavras a Desdémona, na peça Otelo: “Que importa o seu discurso? Eu entendo a fúria nas suas palavras, mas não as palavras”.

Imagens da TVI sobre o caso do construtor civil Jorge Ferreira Dias.

Como dizia o Profeta brasileiro, com menos exagero do que parece, “a gentileza é o remédio para todos os males”. Por isso, Marisa Monte canta “Nós que passamos apressados / Pelas ruas da cidade / Merecemos ler as letras / E as palavras de gentileza”. Na crónica passada, o tema tratado foi o da “Inteligência” e espero ter deixado clara a sua importância para o perfil e a acção do autarca.

Mas a cantora brasileira introduz aqui uma nova dimensão, a da “Sabedoria”, associando-a exactamente à “Gentileza”: “Por isso eu pergunto / A você no mundo / Se é mais inteligente / O livro ou a sabedoria”. José Datrino era por muitos considerado um “louco”, i.e. alguém sofrendo de uma doença mental, de uma anormalidade. Mas, quantas obras sublimes da humanidade, por nós hoje contempladas, não foram realizadas por personagens dotadas de mentes diferentes e, por isso, consideradas “loucas”?

O importante na vida e no legado do Profeta Gentileza foi a sua mensagem e o seu exemplo, alertando o Mundo para a a inteligência e a força da gentileza. Marco Orsini, realizador do documentário “A Mensagem do Profeta”, centrado na presença de Gentileza em Brasília aquando das comemorações do 18º aniversário da capital brasileira (1978), nota que, “em plena ditadura militar, ele trazia uma mensagem subversiva: gentileza gera amor e paz! Ele tinha uma consciência muito clara de que queria atingir o núcleo do poder”.

“Gentileza tinha uma consciência muito lúcida da relevância da comunicação para transmitir as mensagens de tolerância, de amor e de paz. Complementava a presença com os cartazes, os santinhos e as roupas. Ele escrevia com incorreções gramaticais, mas com uma identidade visual própria. Ele criou uma marca muito singular”, afirmou Marco Orsini, para acrescentar que “ele não era louco, ele tinha o que a antropologia define como comportamento desviante, um comportamento divergente do da maioria”.

Na mesma figura conviviam o artista popular, o homem do interior inconformado com as injustiças sociais, o poeta, o pintor e o religioso, lembrou há dois anos Simone Cândida, aquando das comemorações do centenário do nascimento de José Datrino.

A jornalista de O Globo entrevistou na altura o Prof. Arq. Leonardo Guelman, para quem o Profeta Gentileza “foi o maior ícone popular do Rio de Janeiro, porque a sua obra tem uma dimensão política, estética e cultural. Ele fazia arte pública sem ter o domínio da arte, escrevia poesia, espécies de raps, sem ter estudado. Mas ele era, antes de tudo, um homem do campo, que consolava as pessoas que sofriam na selva de pedra.

Os murais do Caju funcionam como um livro urbano, em que as páginas são de concreto. Ali, ele narra os problemas das grandes cidades, como a indiferença, o individualismo, a miséria. Tudo ali tem um sentido e uma ordem de informação. É uma cartilha de ensinamentos para qualquer grande cidade. Está no Rio, mas ele fala para o Mundo”.

Por cá, em Lisboa, também tivemos um homem a distribuir gentileza no espaço público. João Manuel Serra (1931-2010), filho de um diplomata, começou a acenar aos condutores que passavam na zona do Saldanha depois da morte da mãe, o “amor da sua vida”, que o deixou numa profunda solidão. Para uns louco, para outros um homem que apenas procurava diminuir a solidão, ficou conhecido por “Senhor do Adeus”, tendo a sua memória sido perpetuada na imprensa, no cinema e na banda desenhada, entre outros meios.

Pedro Abrunhosa dedicou-lhe uma canção com o mesmo título: “Vem ver-me esta noite / Se a solidão deixar / Aponta-me os faróis / Depois vem devagar / Acena-me um Adeus / Um lençol de jasmim / Um Abraço intocado / Sê louco a meu lado / Olha p’ra dentro de mim”. Há alguns anos, foi colocada na zona uma placa em pedra, da autoria do escultor José Aurélio, prestando homenagem ao nosso “Gentileza”. Nela estão marcadas duas pegadas rodeadas de mãos abertas e a frase da sua autoria, ”Da minha solidão sei eu”.

Com o seu pequeno gesto, o “Senhor do Adeus” tornava a vida dos outros um pouco melhor, sendo muitos os que retribuíam o aceno dando pequenos toques de buzina e acenando também. Porque “gentileza gera gentileza”.

O Senhor do Adeus, numa das muitas noites em que foi visto no Saldanha, acenando aos condutores que por ali passavam. Foto Jornal i

E assim termino esta Trilogia do Autarca, em que comentei as três qualidades que o novo autarca de Abrantes adoptou como lema para si próprio e para os que o rodeiam: “Forte, Inteligente e Gentil”.

Procurei dissertar sobre as diversas perspectivas pelas quais podem ser encaradas estas qualidades, sem excluir a possibilidade de outras serem acrescentadas e defendidas. Tomei posição sobre as que me parecem ser mais ajustadas à missão de um autarca, a quem o povo confiou temporariamente o poder com a expectativa de melhorar as suas condições de vida.

O poder, notou John Acton, “tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente” e foi isso que aconteceu ao poderoso Jedi Anakin Skywalker, um homem bom e herói do episódio da Guerra dos Clones (Star Wars) que se afastou do Lado Luminoso e se converteu ao Lado Sombrio da Força. Também no universo dos autarcas e das autarquias a Força, a Inteligência e a Gentileza podem ser bem ou mal usadas.

O valor destas qualidades não reside, pois, nelas próprias, mas na forma como são assumidas e postas ao serviço da comunidade. Pegando uma vez mais nas palavras de Marisa Monte, “O mundo é uma escola / A vida é o circo”, desejo ao autarca de Abrantes e a todos os autarcas do meu país, por gentileza, que aprendam com o Mundo e não deixem arder o Circo. “Que a Força esteja convosco!”.

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