“Trilogia do autarca (II): A inteligência”, por José Rafael Nascimento

Foto: Wallpaper Cave

“A habilidade de falar não o torna inteligente.”
– Qui-Gon Jinn (Guerra das Estrelas)

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“Inteligente” é a segunda qualidade que o novo edil de Abrantes adoptou como lema para si próprio e para os que o rodeiam. Na intimista e apressada cerimónia em que tomou posse, marcada pelo épico sumiço da sua antecessora, convidou os presentes a “pensarem” no “fantástico slogan” – “Forte, Inteligente e Gentil” – que um dia observou algures numa escola. O paradoxo do convite não me passou, na altura, despercebido: sendo a inteligência, para o senso comum, uma qualidade eminentemente cognitiva (i.e. pensante), como é possível “pensar em ser inteligente”? Ou “se é” inteligente e, então, não é necessário “pensar em sê-lo”, ou “não se é” e, nesse caso, é impossível “pensar em sê-lo”. “Pensar em ser inteligente” constitui, pois, ou uma redundância ou uma impossibilidade. Por outro lado, convidar alguém a adoptar determinada qualidade tem igualmente o óbvio inconveniente de pressupor ou assumir (se quisermos ser semanticamente rigorosos) que não se possui essa mesma qualidade, o que também não se afigura brilhante. E, para baralhar e dar de novo, o que dizer da afirmação do escritor russo Fyodor DostoyevskyÉ preciso algo mais do que inteligência para agir inteligentemente”?

Subtilezas à parte, o que considerei verdadeiramente inapropriado, naquele momento, foi a cerimónia de posse ter decorrido no acanhado Salão Nobre dos Paços do Concelho. Dir-me-ão que é usual, mas eu preferia que ela tivesse decorrido na sala de sessões da Assembleia Municipal – a casa da democracia local – ou num amplo centro cultural e de congressos, com as devidas honras e perante todos os deputados municipais e cidadãos interessados. Questionei-me, então: onde se situa, afinal, o centro (ou a cabeça) do poder municipal? Quem presta contas a quem? Que importância é dada à componente simbólica do poder? Que publicitação prévia foi feita desta cerimónia? Que dignidade lhe foi atribuída? Esta estranheza colava-se à reflexão que havia feito anteriormente, sobre as particularidades e circunstâncias associadas ao mandato da anterior autarca, bem como ao modo como ocorreu a renúncia e a sucessão no cargo. Em opinião que expressei atempada e publicamente, sugeri a realização de eleições autárquicas intercalares, das quais emergisse um edil com legitimidade política reforçada pelo voto (e não apenas a decorrente da lei). Do ponto de vista estratégico (na óptica do incumbente), essa teria sido a opção mais inteligente.

Nos concelhos de Sardoal (em cima) e Castelo Branco (em baixo), por exemplo, os respectivos executivos municipais tomaram posse em magníficos centros culturais e de congressos, perante centenas de autarcas e munícipes.

A “Inteligência” é definida pelo Dicionário Collins como a “capacidade de pensar, raciocinar e compreender, em vez de fazer as coisas automaticamente ou por instinto”. Por sua vez, o Dicionário Macmillan define-a como a “capacidade de entender e pensar sobre as coisas, bem como de adquirir e usar o conhecimento”. Robert Sternberg, com a sua teoria triádica, sugere a existência de três tipos de inteligência humana, a analítica-componencial, a criativa-experiencial e a prática-contextual. A primeira refere-se à capacidade de dissecar problemas e descobrir soluções lógicas, usando o pensamento linear (ou convergente). A segunda, à capacidade intuitiva de criar novas ideias e resolver problemas, usando o pensamento lateral (ou divergente, “fora da caixa”). E a terceira, à capacidade de lidar com os objectos e situações do meio envolvente, transformando-os. Estas perspectivas são, como se constata, de natureza fundamentalmente cognitiva e humana, havendo no entanto entendimentos mais abrangentes do conceito de inteligência, que a aproximam da noção de habilidade, incluindo as de natureza não-cognitiva (afectiva, motora, etc.). Neste sentido, o conceito de inteligência pode abarcar outras capacidades, como adaptar-se ao meio envolvente e e alterá-lo, aprender com a experiência, resolver problemas, reconhecer padrões ou usar a linguagem para comunicar. Howard Gardner propõe, nesta óptica, nove tipos de inteligência – lógico-matemática, verbal-linguística. visual-espacial, rítmica-musical, corporal-cinestésica, naturalista, intrapessoal, interpessoal e existencial – podendo ser-se muito inteligente nalguma(s) destas dimensões e pouco noutra(s).

De qualquer modo, é sempre possível melhorar o desempenho em qualquer delas, sendo o potencial inato apenas facilitador. Destas inteligências múltiplas, uma palavra para as duas que mais tarde viriam a integrar o famoso conceito de “inteligência emocional” de Daniel Goleman: a intrapessoal (ou apenas “pessoal”) e a interpessoal (ou social). A primeira diz respeito à capacidade de lidar consigo próprio, exigindo autoconhecimento e autoconsciência de saberes e emoções, capacidade de regulação e adaptação das mesmas às situações, e automotivação e sentimento de auto-eficácia orientada para o desenvolvimennto pessoal. A segunda está relacionada com a capacidade de lidar com os outros, compreendendo-os, valorizando-os e relacionando-se positivamente com eles. Finalmente, uma referência à inteligência verbal-linguística, muito valorizada no domínio político, mas frequentemente usada para esconder a falta de outras capacidades essenciais para o desempenho dos respectivos cargos. Se é certo que a habilidade de falar não torna os deputados, ministros ou autarcas inteligentes noutras dimensões, também é verdade que a inabilidade para comunicar não os torna menos inteligentes noutros domínios, faltando saber se aquela capacidade é ou não indispensável para o exercício de determinado cargo.

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A Inteligência é uma capacidade multidimensional. É normal um indivíduo ser mais inteligente numa dimensão do que noutra, podendo desenvolver todas elas (em alguma medida).

Regressando às circunstâncias políticas concretas que rodearam a eleição e o desempenho da anterior autarca abrantina, bem como a sua renúncia e sucessão no cargo, julgo que teria sido estrategicamente inteligente – e politicamente ético, do ponto de vista dos mais nobres princípios democráticos – que o nº 2 da lista e o seu partido tivessem escolhido ir a votos, defendendo a realização de eleições autárquicas antecipadas (ou intercalares), não estando em causa, evidentemente, a prerrogativa jurídico-administrativa da sucessão automática, realizada nos termos da lei. As razões para o fazer são diversas, mas todas convergiriam para um só objectivo: reforçar a legitimidade e autoridade do novo edil, dando-lhe um elã político que os primeiros 100 dias de mandato já demonstraram não lhe ser totalmente reconhecido. Entre essas razões, destaco a usual primazia eleitoral do cabeça de lista (candidato a presidente) nas eleições autárquicas, a governação personalista, autoritária e centralizadora da anterior presidente, a circunstância de ainda não ter sido cumprido metade do mandato, o facto bizarro de o nº 2 da lista vencedora não ser o vice-presidente da Câmara e, ademais, lhe serem apontadas algumas insuficiências com relevância política.

Além destas razões, não pode ser ignorado que o município enfrenta, a nível económico, social, educativo, turístico, urbano, etc, uma estagnação ou mesmo declínio sem precedentes, consequência da adopção de más políticas autárquicas. E que a participação cívica e política dos cidadãos, traduzida no confronto aberto e equilibrado de perspectivas plurais, é praticamente nula e até desincentivada, debilitando a imprescindível vitalidade democrática e desenvolvimentista do município. Ora, se o novo edil, a quem o poder por acaso caiu nas mãos, desejasse efectivamente assumir com inteligência as rédeas da governação autárquica – dignificando o seu mandato e acumulando os créditos eleitorais necessários à sua reeleição – teria de dar a volta a tudo isto, encetando uma transformação ciclópica da autarquia que fosse além de algumas mudanças cosméticas ou de políticas de “pão e circo”. Não se vislumbra, contudo, que exista tal disposição ou capacidade, estando antes amarrado a uma postura sectarista e autoritária, bem como a um passado de políticas erradas e nocivas que dificilmente quererá ou conseguirá renegar. É óbvia a dificuldade do autarca em rever estas políticas e em dialogar com quem se opõe a elas, sendo disso exemplo a hesitação que revela em reverter a disparatada e ultrajante decisão de demolir o antigo Mercado Municipal e aceitar reinstalá-lo neste mesmo edifício histórico, depois de renovado.

Sá Carneiro é considerado, por todos os quadrantes ideológicos, um exemplo de político inteligente, para quem a ética, o risco e a coragem sempre fizeram parte da acção política.

Tal como afirmei na minha crónica anterior sobre a “Força”, a trilogia do autarca – “Forte, Inteligente e Gentil” – faz todo o sentido (eu só faria preceder cada uma destas qualidades do advérbio “Mais”, para não se depreender que não se tem, ou não se é). Todavia, importa clarificar o sentido de cada uma destas três qualidades e, porventura, acrescentar alguma outra essencial: “De que maneira”, “para quê” e “para quem”, deve um líder ser inteligente, sabendo-se que esta qualidade é tantas vezes usada como mero bordão para impressionar, e que tanto pode servir o Bem como o Mal? Do mesmo modo que a “Força” do Império Galáctico tem um “lado sombrio”, também a “Inteligência” pode ser usada para manipular, instrumentalizar e enganar. Na Guerra das Estrelas (Star Wars), os Siths possuem uma elevada inteligência, mas usam-na para fins espúrios e egoístas, ao serviço de um poder totalitário ou caciquista que tudo controla, condiciona, limita e explora. Ninguém melhor do que o escitor inglês Aldous Huxley se referiu à “inteligência do mal”, nesta frase que lhe é atribuída: “A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga; um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”.

É, pois, imperativo associar ao conceito de “Inteligência” os mais nobres valores democráticos e a primazia do bem comum, devendo cada cidadão questionar se estes valores são suficientemente salvaguardados e incentivados na sua comunidade e que qualidade democrática e aceitação cidadã têm as práticas políticas e autárquicas no seu município. Mas não basta, importa também dar conteúdo à acção autárquica “Inteligente”, a qual vai muito além da participação numa qualquer “Smart Cities Summit”. Ser mais inteligente exige que se seja mais informado e conhecedor da realidade, analisando-a sistematicamente. Tem a autarquia um adequado sistema de informação municipal e autárquica? Os necessários observatórios e gabinetes de estudo? Os recomendáveis estudos de opinião? Os imprescindíveis instrumentos de alerta e apoio à decisão? Ser mais inteligente exige, também, que se seja mais criativo e arrojado, interagindo e incorporando as contribuições dos munícipes e das instituições municipais. Tem a autarquia uma visão para o futuro – uma ideia valorosa, um conceito diferenciador – do concelho, da cidade e de cada uma das freguesias? Tem a autarquia os planos necessários para levar a cabo as recuperações e transformações de que o município carece?

“Batemos tão fundo que a reafirmação do óbvio é agora o primeiro dever das pessoas inteligentes”, afirmou George Orwell, para quem a inteligência era sinónimo de virtude, liberdade de pensamento, controlo emocional e orientação para a tarefa.

Finalmente, ser mais inteligente exige que se tenha um sentido prático e realizador, cumprindo com eficiência as actividades planeadas e os prazos programados, resolvendo os problemas das populações e do concelho. Cumpre o poder autárquico as promessas com que venceu as eleições? Concretiza a autarquia, em tempo razoável, os planos municipais e os projectos aprovados no âmbito dos Orçamentos Participativos? Responde positivamente a autarquia, em prazo curto, aos problemas comunicados pelos munícipes ou identificados pelos serviços? Estas são algumas questões que os autarcas, no exercício do poder público que lhes foi temporariamente confiado, e os munícipes, no exercício do direito constitucional de escrutínio desse poder, têm a obrigação de colocar. Evidentemente que ninguém possui uma inteligência absoluta (seria aterrador…), embora existam inteligências superiores (o que não faz necessariamente dos seus possuidores pessoas boas e competentes). É, por isso, essencial (e inteligente) que os líderes saibam rodear-se e escutar quem possui outras capacidades e perspectivas, evitando acólitos acéfalos e seguidistas (os abjectos “yes men”). Como dizia um veterano autarca gaulês que em tempos conheci, “quando, à minha volta, alguém começa a concordar com tudo o que eu digo, fico preocupado, provavelmente um de nós está a mais”.

O maior préstimo da inteligência de um indivíduo – sobretudo de um líder – é reconhecer e valorizar a inteligência [de cada um] dos outros indivíduos, tirando proveito da inteligência colectiva. Só assim poderá haver progresso e desenvolvimento, e não apenas sobrevivência, capacidade esta revelada por gente pouco inteligente e assim explicada pelo astrofísico americano Neil deGrasse Tyson: “A inteligência não pode ser assim tão importante para a sobrevivência, pois há tantas espécies que não têm aquilo a que chamamos inteligência e elas sobrevivem muito bem”. Mas os paradoxos não ficam por aqui. No seu ensaio “O Triunfo da Estupidez” (1933), o filósofo inglês Bertrand Russell observou que “os estúpidos são convencidos, enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas”. Ser inteligente obriga, pois, a questionar com profundidade e a pôr em causa o status quo, não caindo na falácia de achar inteligentes apenas aqueles que pensam da mesma forma. Tal como o solo mais fértil não produz colheitas abundantes se não for bem cultivado, também a inteligência não tem grande utilidade se não for bem usada. Como bem interpela o escritor Vergílio Ferreira, “de que te serve a inteligência, se não tens inteligência para a usar com inteligência?”.

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