“Trilogia do autarca (I): A força”, por José Rafael Nascimento

“A liberdade morre com um estrondoso aplauso.”

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– Padmé Amidala (Guerra das Estrelas)

Que a Força esteja consigo!” (May the Force be with you!) é uma célebre frase – a oitava mais famosa da história do cinema (2005) – da épica saga Guerra das Estrelas (Star Wars), usada para desejar boa sorte aos companheiros da Aliança Rebelde que partem para missões de combate contra a Nova Ordem opressora do Imperador Palpatine, expressando o anseio de que a Força esteja do seu lado e os ajude. A perversidade dos poderes totalitários ou caciquistas que condicionam as liberdades e manipulam as mentes e os comportamentos das populações, está bem patente na Declaração da Nova Ordem, a qual nos soa assustadoramente familiar. A Força é a energia existente na pouco fictícia República Galáctica (transformada em Império do Mal após o derrube da Ordem Jedi), a qual pode ser usada por todos os membros dotados de capacidade sensitiva. Esta energia envolve os seres vivos da galáxia, permeia-os e mantem-nos unidos, ampliando as suas características e permitindo-lhes realizar feitos sobrenaturais. Os Jedi usam-na para o Bem, mas existe nela também um lado sombrio que é aproveitado pelos Sith (mestre, discípulo e seguidores) para o ódio, a maldade e a agressão, a fim de manter o domínio da galáxia.

A expressão vocal da frase constitui também um trocadilho na língua inglesa (May, 4th, be with you!), tendo o 4 de Maio, Dia da Guerra das Estrelas, sido assinalado pelos fãs há exactamente uma semana. Nesta série cinematográfica de space-opera e pop-culture, a ficção e a fantasia confundem-se com a realidade do nosso planeta, nomeadamente com os processos essenciais que ocorrem nos territórios, grandes e pequenos, onde existem sociedades humanas. A Guerra das Estrelas constitui, assim, uma metáfora da nossa realidade, à luz da qual podem e devem ser interpretados tanto os grandes eventos que ocorrem na galáxia (ex.: a luta da Aliança Rebelde contra a tirania do Império Galáctico) como os pequenos episódios pessoais (ex.: o empenho de Luke em se tornar cavaleiro Jedi e lutar contra o seu pai Darth Vader, o ex-Jedi que sucumbiu ao lado sombrio da Força e ao Imperador Sith). A saga de George Lucas baseia-se em factos históricos reais, de natureza social, política e militar, utilizando arquétipos comuns e intemporais da mitologia, misticismo e teologia: a luta entre o Bem e o Mal, os fortes que sucumbem e os fracos que se fortalecem, a volatilidade das alianças, o amor que prevalece face às adversidades, as tensões e dilemas familiares, a força divina, etc.

“Nós somos um Império governado pela maioria, um Império dedicado à preservação de uma sociedade segura e justa. Nós somos um Império que vai durar dez mil anos!” – Imperador Palpatine (Darth Sidious).

Vá-se lá saber porquê, lembrei-me da Guerra das Estrelas e do espírito da “Força” quando, há cerca de três meses, o novo edil de Abrantes (vereador há década e meia) tomou posse do cargo deixado vago pela sua antecessora, atribuindo (ou desejando) na altura a si próprio a qualidade de “Forte” (e, também, de “Inteligente” e “Gentil”). Cumprindo-se no final deste mês os primeiros 100 dias do seu mandato e conhecendo-se alguns factos relevantes entretanto ocorridos, parece-me oportuno tecer algumas considerações genéricas sobre a importância da “força” no exercício da liderança e do que significa uma liderança forte. Para nos entendermos, à partida, sobre o conceito de liderança, assumamos a proposta de House et al (2004): “Capacidade de um indivíduo (ou grupo de indivíduos) para influenciar, motivar e habilitar outros indivíduos a contribuírem para aumentar a eficácia e o sucesso das organizações a que pertencem”. E, como em Democracia a dimensão ética não pode ser ignorada na definição de liderança, importa clarificar que os valores humanos mais nobres devem estar presentes no modo como é exercida a dita capacidade, bem como na avaliação do referido sucesso organizacional.

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Dito de outro modo, a liderança em contexto democrático não pode servir “para qualquer coisa”, nem pode ser exercida “de qualquer maneira”. Esta é uma clarificação essencial para se perceber de que força se fala quando se fala num líder forte, ou seja, como deve o líder exercer a sua influência. Entendamos, então, a “força” como a autoridade do líder, como ele exerce o poder, dizendo-nos a teoria que são cinco as bases ou tipos de poder (French e Raven, 1959) – legítimo, de referência, de especialista, de recompensa e de coerção – devendo todos eles ser exercidos de forma adequada e de acordo com as situações concretas. Assim, o poder legítimo ou formal é aquele de que o líder é investido pelas normas em vigor (nos seus termos e limites), representado pela designação do cargo e outros símbolos hierárquicos (ex: tomada de posse como presidente da Câmara Municipal). O poder de referência é o poder informal do respeito, da admiração ou da eventual identificação dos seguidores com o líder (ex: traços do líder ou afinidades – de semelhança, proximidade ou familiaridade – com ele).

“Eu tenho o poder de vida e de morte sobre você. Um dia, você terá esse poder sobre outro. É a honra dos Sith, você se devotará à ideia de dominação.” – Imperador Palpatine (Darth Sidious)

O poder de especialista (incluindo aqui o de informação) é o que deriva dos seus conhecimentos e competências, da sua capacidade para angariar recursos ou resolver problemas (ex: autarca que possui know-how e contactos relevantes). Finalmente, os poderes de recompensa e de coerção estão normalmente associados ao poder legítimo e referem-se, respectivamente, à capacidade de premiar ou de punir os comportamentos considerados positivos (favoráveis) ou negativos (desfavoráveis), designadamente à organização (embora, frequentemente, à pessoa do próprio líder, abusando do poder legítimo). Um líder forte é, pois, aquele que possui, valoriza, desenvolve e aplica correctamente todos estes poderes, de forma justificada e na justa medida. Não sendo perfeito (ninguém o é), o líder eficaz é aquele que reconhece os seus pontos fracos e procura superá-los, bem como compensá-los com os seus pontos fortes, exercendo um estilo de liderança com pendor desejavelmente democrático, mas por vezes lamentavelmente paternalista, autoritário ou permissivo, consoante seja mais ou menos orientado para as pessoas e as tarefas.

Poderá ainda o líder, noutra perspectiva, basear fortemente a sua acção no carisma pessoal, nomeadamente quando enceta uma abordagem mais transformacional (mudanças radicais) do que transaccional (gestão corrente). Todavia, qualquer que seja o estilo de liderança e as motivações do líder – realização, afiliação ou poder –, importa que tenha um forte sentido de serviço à organização e seus públicos (ex: à autarquia e aos munícipes), cumprindo a sua missão com empenhado rigor ético e legal. Ainda em relação ao carisma, este existe de forma inata ou adquirida nalguns indivíduos, mas não na maioria, interessando mais falar na credibilidade dos líderes do que no seu carisma. Neste domínio, Kouzes e Posner (1993) apontam quatro qualidades que sustentam a credibilidade dos líderes nas organizações: honestidade, visão, capacidade de inspirar e competência. Em estudos académicos que realizei nesta matéria, apurei que, na realidade portuguesa, se valoriza também o sentido de responsabilidade e a dedicação, bem como o respeito e a educação.

Conselhos de Yoda, o sábio Mestre Jedi

Temos aqui, portanto, o conjunto de atributos e competências que tornam um líder forte e dão força à liderança. E é importante, de facto, ser forte, já dizendo Luís de Camões nos Lusíadas que “Um fraco Rei faz fraca a forte gente”, deduzindo-se que um Rei forte torna ainda mais forte a mesma gente. Esta deve ser a principal força e missão do líder: formar novos líderes, tornando-se dispensável (desapegado do poder). Mas não se é forte porque se auto-atribui essa qualidade ou se expressa esse mero desejo. Não se é forte quando se pretende sê-lo enfraquecendo os outros. Não se é forte confundindo força com autoritarismo, falta de respeito, ameaça ou imposição do medo. Não se é forte quando se promove o sectarismo e o culto da personalidade e da imagem. Não se é forte quando se usa o poder para recompensar quem presta favores ou de quem se gosta, e penalizar os outros. Não se é forte quando se vê o poder como um privilégio que se teme perder e precisa de ser defendido a todo o custo. Ao contrário, é-se forte quando se ama a terra e a comunidade, envolvendo e empoderando os outros, quando se procura ter razão e praticar valores democráticos de justiça, isenção e equidade, quando se possui competências técnicas, emocionais e relacionais, e quando se demonstra uma inquestionável honestidade moral e intelectual.

Para se manter forte, o líder tem de saber preservar e ampliar a sua base de seguidores, reforçando o respeito e a admiração destes, jamais esquecendo o aviso do filósofo alemão Georg Lichtenberg “Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito” ou o alerta do historiador inglês John Acton “O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Finalmente, o líder deve ter a noção dos impactos e dos custos das suas acções – imediatos e a prazo, directos e indirectos, reversíveis e irreversíveis – conduzindo com equilíbrio as suas decisões, para que as vitórias alcançadas sejam vitórias de todos (integrativas) e não de apenas alguns ou até “de Pirro” (Rei do Epiro e da Macedónia que, após a tão vitoriosa quanto custosa Batalha de Ásculo, declarou: “Mais uma vitória como esta e estou perdido”). Resta desejar ao autarca de Abrantes “Que a Força esteja consigo!”, pois vai precisar muito dela para aprender a lidar com idosos que se indignam com a privação de serviços médicos de proximidade, com vereadores que se atrevem a exercer o livre direito de opinião e expressão, ou com munícipes que se escandalizam com a tonta decisão de demolição do seu histórico Mercado.

Luke: “Como é que eu vou diferenciar o Bem do Mal?”  |   Yoda: “Você saberá, quando estiver calmo. Em paz, tranquilo.”
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