“Tremoços”, por Armando Fernandes

Foto: DR

O Entrudo da era do triunfo do digital também escorraçou o tremoço na qualidade de agressivo figurante dos desfiles, o qual na companhia da água, farinha, farelo e cinza eram atirados contra os espectadores provocando risos e ruínas nas farpelas desses amantes de ver as momices dos foliões, caso das matrafonas de Torres Vedras.

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Os tremoços secos agrediam a pele das pessoas, no entanto, os rapazotes procuravam encher os bolsos de tremoços apanhando-os do chão, e eles sabiam quão indesejáveis eram, caso os atrevidos ignorantes ousassem mordiscá-los a seco. Com efeito os tremoços contêm alcalóides indesejáveis no estômago e na mente dos seres humanos, já que os animais logo os repelem caso lhes apareçam pela frente sem estarem em condições de serem assimilados.

Não vou maçar os leitores referindo-lhe turbulências provenientes de impreparação dos mesmos, não evoco a Mitologia, muito menos a história, atenho-me, apenas, à circunstância de esta leguminosa fazer parte do cardápio alimentar do Homem que à sua custa percebeu a necessidade deste «marisco» precisar de prolongada demolha com sucessivas mudanças de água para posteriormente ser consumido.

Nalgumas cervejarias e tabernas ainda servem tremoços a acompanharem cerveja, normalmente salpicados de grãos de sal a fim de aumentarem o consumo da bebida. Mas há outras maneiras de serem apreciados: sopas de várias conjugações culinárias frias e quentes, purés de acompanhamento de pratos de peixe e carne, pastelões, tortas e tortilhas, sem esquecermos o seu contributo depois de moídos na confeitaria, pastelaria e geladaria. No tocante a licores também dá bom contributo provocando sabores gulosos e tentadores.

Nos tempos de agora os tremoços conservam-se durante alguns dias no frigorífico. Até chegar o progresso técnico movido a energia eléctrica recorria-se a sistemas artesanais onde a água corrente fria era elemento determinante, passando a ser determinante na sua conservação em potes e talhas de barro, celhas e bacias de madeira, ainda sacos de couro e vasilhas de metal.

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Leguminosa popular, amiga de suprir as carências alimentares de épocas recuadas, o tremoço, nos anos de boas colheitas, no dia de Entrudo ao almoço enriquecia arrozes de substância e doceiros, e à tarde ajudava os rapazes da terra a lembrarem às raparigas que os forasteiros não tinham tremoços de qualidade. Muitas entendiam a mensagem!

No Exército os tremoços eram empregues no adoçamento do «café» após a alvorada. O leitor faça o favor de perguntar como se preparava a mistela.

“Tremoços”, por Armando Fernandes
Foto: DR

COLETE VELHO

O leitor experimente colocar num pratinho tremoços bem temperados na companhia de pimenta da terra (vermelha) e uns torresmos pequenos, noutro prato tremoços e pasta de atum, ainda noutro tremoços esmagados em casamento com manteiga de alho e filetes de anchova. Dispostos os pratinhos sobre a mesa, pão de boa qualidade num cesto, hora mais praticável aquela que quem me lê lhe pareça apetecível e… o branco com uvas a partir da chancela TEJO – Colete Velho – elaborado a partir das conhecidas castas Arinto e Fernão Pires.

Brilhante no copo, exalando aromas cítricos e ao verde primaveril, no palato sobressai devido à frescura amanteigada e gulosa. Na minha opinião os tremoços e demais condimentos ganham alacridade acompanhados por este branco colheita de 2017, de 13.º a conceder-lhe corpo alentado.

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