Tramagal | Os empreendedores irmãos Lemos com estatuto PME Excelência em dois anos consecutivos

José, Joaquim e Luís Lemos proprietários das empresas Mtil e Ilmet, em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

O prémio PME Excelência, para as pequenas e médias empresas que se distinguem no panorama nacional, é um importante galardão de desempenho económico que qualquer empresa gosta de receber. Os três irmãos Lemos, naturais de Tramagal, Abrantes, contam pelo segundo ano consecutivo com essa distinção nas suas empresas: a Mtil (em 2017) e a Ilmet (em 2018). Desde 2010 que as empresas dos irmãos Lemos recebem a distinção de PME Líder, do IAPMEI.

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Num mundo laboral cada vez mais complexo, nomeadamente no interior de Portugal onde a baixa densidade populacional complica a vida dos que resistem, fazer parte de uma empresa premiada por cumprir requisitos que confirmam a sua saúde financeira e a capacidade de progressão no mercado global, talvez seja o sonho de qualquer trabalhador.

Em Portugal, no total foram 2378 empresas, representativas dos vários setores de atividade, distinguidas com o estatuto PME Excelência 2018, do IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação. Em conjunto, estas empresas, são responsáveis por 86.606 postos de trabalho, uma lista onde se inclui a abrantina Ilmet, Lda. uma empresa de metalomecânica, criada em 2001, a laborar em Tramagal.

Na verdade, são duas as empresas de José, Luís e Joaquim Lemos que conquistam com regularidade o reconhecimento de PME Líder, sendo que em 2017 a Mtil – a segunda empresa dos irmãos, esta de cedência de trabalhadores, de trabalho temporário – mereceu o estatuto de PME Excelência e em 2018 o galardão de PME Líder, reconhecimento que a Ilmet conquistara em 2017. Prémios que trazem mais valias para a empresa, assegura José Lemos de 63 anos e o mais velho dos irmãos.

José, Joaquim e Luís Lemos proprietários das empresas Mtil e Ilmet, em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

“Um prémio obriga a cumprir todos os requisitos. Por exemplo, ter trabalho, o requisito mais importante”, considera Fábio Patrício, responsável pela gestão das empresas. E também “cumprir com alguns parâmetros em termos financeiros e de qualidade de trabalho porque é essa qualidade de trabalho que depois traz a possibilidade de ganhar dinheiro, a avaliação que é feita para alcançar estatuto de PME Líder e de PME Excelência”, explica o gestor.

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Esse trabalho classifica-o como “árduo” que obriga a algum critério, “quando se seleciona pessoas, quando se processa salários, quando se elaboram projetos para trabalhos, tudo isso vai influenciar a possibilidade de ganhar os prémios que são extremamente importantes, não só pelo reconhecimento mas pelas possibilidades de crédito e de investimento”, nota. Na área financeira, a Ilmet ou a Mtil apresentam-se atualmente “com condições que uma empresa que não seja PME Líder ou Excelência não consegue”, garante.

A Mtill conquistou ainda o estatuto de empresa Gazela em 2016 e 2017. Tratam-se de “empresas com um nível de crescimento exponencial e obviamente têm sido uns anos gratificantes até pelas dificuldades que houve entre 2009 e 2013 quando a economia atravessou uma fase difícil. Conseguimos ultrapassar essa fase e com este destaque”, salienta Fábio Patrício.

A distinção entre Líder e Excelência prende-se com rácios financeiros. “Existem vários critérios que são avaliados e dentro desses há parâmetros balizados e dentro deles há parâmetros para PME Líder e depois há um grupo restrito de pouco mais de duas mil empresas que conseguem chegar à PME Excelência e isso tem a ver com níveis de empregabilidade, rentabilidade, rendimentos de capitais, etc. Mas para chegarmos aos rácios, primeiro temos de ter trabalho, ou seja produção”, dá conta.

E a história destas duas empresas com sede em Tramagal, no concelho de Abrantes, nasceu do empreendedorismo dos três irmãos. “Começamos novos nas oficinas a aprender a serralheiros. Emigramos depois para Israel, de lá para a África do Sul, depois para a Nigéria, sempre os três, por fim a Europa: Finlândia, Suécia”, até que em 1982 regressaram a Portugal para trabalhar na Caima, no concelho vizinho de Constância, como serralheiros mecânicos na indústria de celulose de eucalipto para a produção de papel onde Luís e Joaquim ainda permanecem, conta ao mediotejo.net José, já reformado.

José Lemos proprietário das empresas Mtil e Ilmet, em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

A Ilmet nasceu então em 2001 das camionetas de um dos irmãos que paralelamente ao trabalho na Caima “fazia uns transportes e daí pensámos na metalomecânica. Conseguimos conciliar isto, fazendo a gestão antes de ir para Caima e continuando o trabalho após o horário laboral, e ao reunir pessoas capazes para gerir a empresa. Em 2009, apareceu Fábio Patrício, como gestor, e em 2016 o engenheiro mecânico Filipe Pereira, ambos bons elementos”, que ajudaram no crescimento do projeto, frisou José Lemos.

O irmão mais velho trabalhava na sua empresa na área de preparação, “mais na área interna de produção, ligado aos papéis, ao sistema burocrático e a partir daí começamos a evoluir bastante. Tivemos de reunir pessoas que entendessem do negócio mais que nós”, explica.

Atualmente, a Mtil e a Ilmet contam com uma média anual de 100 trabalhadores, “ mas há alturas em que temos 130/140 trabalhadores. Avançamos os três com capital próprio, não recebíamos salários e íamos acumulando, investindo”, até alcançarem o estado atual de uma empresa robusta com projetos ambiciosos de crescimento.

As empresas encontram-se a laborar na Zona Industrial de Tramagal, mas não iniciaram naquele local. O primeiro local ficou-se por uns pavilhões velhos da antiga Metalúrgica Duarte Ferreira.

“Alugámos aquele espaço sem condições, sem água e luz, e trabalhámos ali um bocado à força, sem empilhadores, sem nada. Até que um parceiro nos encorajou a ir mais além, tínhamos trabalho, deu-nos alguma liberdade e investimos. Tivemos ajuda, continuamos ligados à Caixa de Crédito Agrícola e neste momento é uma mais-valia”, afiança José. E esse investimento, ao longo destes anos, contabiliza atualmente milhão e meio de euros, em instalações e maquinaria.

Dos pavilhões da Metalúrgica Duarte Ferreira, o negócio dos irmãos passou por uma pequena oficina até que decidiram construir na Zona Industrial de Tramagal. Esse opção teve em consideração as raízes à terra.

José Lemos proprietário das empresas Mtil e Ilmet, o gestor Fábio Patrício e o engenheiro Filipe Pereira, em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

Em 2005 “tivemos muitas dificuldades em instalar-nos aqui porque o presidente da câmara, Nelson de Carvalho, queria que fossemos para o Parque Industrial de Abrantes, na época em construção. Muitas vezes fui a reuniões mas insisti em Tramagal”, recorda José Lemos, indicando que a empresa adquiriu, entretanto, o lote anexo com a ideia de “alargar o espaço e as instalações para maior capacidade produtiva”.

José lamenta que, de todos os lotes adquiridos na Zona Industrial de Tramagal, apenas os Lemos tenham construído. “Foi pena porque tínhamos algumas empresas em Tramagal e na altura todos ficaram interessados. Mas nem eu nem os meus irmãos nos arrependemos da escolha. Sentimos algumas dificuldades na parte burocrática. Queríamos as licenças para começar, depois havia problemas com os esgotos… esgotos pluviais não temos… houve alguma resistência”, lembra.

Apesar das dificuldades, o sucesso do projeto é visível, o qual José atribui ao “empenho” e à “dedicação” dos três irmãos Lemos que apostaram numa empresa familiar. Reconhecendo a aposta numa “área difícil” muito pelas “dificuldades na aprendizagem” e “na contratação de mão de obra qualificada”, o objetivo passa pela insistência e a vontade pela persistência.

“Neste momento temos de controlar bem os trabalhos porque falta mão de obra qualificada, mas é a aposta no investimento que tem feito a empresa crescer”, reconhece o empresário. Contudo, “o crescimento da empresa poderia ser muito maior caso o mercado oferecesse a mão de obra que precisamos”.

Oficina da empresa Ilmet, em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

Atualmente trabalhar na metalomecânica apresenta dois níveis de dificuldade, segundo Fábio Patrício: “a nível do mercado, pela qualificação dos trabalhadores e também pela concorrência que muitas vezes não nos permite ganhar alguns trabalhos porque há empresas a trabalhar com preços completamente inaceitáveis, abaixo do preço de custo. Não faz sentido estar a fazer um trabalho e a perder dinheiro!”, observa Fábio, por isso a política da empresa, que parece ser garante do êxito, passa por “conseguir a maior rentabilidade possível” valorizando os “bons profissionais”.

Na Ilmet produzem algumas máquinas transportadoras e distribuidoras, equipamentos para instalar em fábricas, tudo o que são estruturas metálicas, manutenção mecânica, não descurando o negócio dos transportes rodoviários.

Referindo falta de trabalhadores qualificados como serralheiros mecânicos, soldadores, mecânicos – “há uma vasta área de categorias profissionais cada vez mais difíceis de encontrar” -, Fábio Patrício afirma que a perspetiva da empresa “é sempre de crescimento sustentado”.

“Apesar da queda na área da metalomecânica nos últimos 20 anos, trabalhando na manutenção, dá garantia de trabalho permanente. Também temos crescido porque os nossos clientes investem no crescimento das suas próprias instalações, e o nosso trabalho é de qualidade”, vinca Fábio.

Por seu lado, o engenheiro Filipe Pereira reconhece ser um “problema” impeditivo do desenvolvimento de produção em série a não produção de um produto especifico.

“Fazemos tudo o que o cliente pede, ou seja, todos os dias estamos a fazer um produto diferente, ou como o cliente solicita, ou podemos ser nós a desenvolver, mas quase sempre com o carácter de único, daí a dificuldade da produção seriada”, nota.

Contudo, a internacionalização da empresa é hoje uma realidade. “Já fizemos alguns trabalhos em Espanha, Itália e temos um parceiro importante na Alemanha. Pensamos em alargar os nossos horizontes”, conta José, indicando a existência de “muito trabalho no exterior, sendo certo que obriga a outro tipo de estrutura, e as próprias leis da União Europeia obrigam-nos a pensar de uma forma diferente”.

Por isso, pretendem continuar a apostar “fora do País, na Europa. Vamos ver o futuro!”.

Oficina da empresa Ilmet, em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

Fábio Patrício ilustra o pensamento de José com um exemplo: “Para termos um trabalho contínuo na Alemanha teremos de ter lá um estabelecimento, não podemos estar a trabalhar em Portugal a parte burocrática e de preparação e manter lá trabalhadores por um tempo muito alargado. Obriga a algumas alterações em termos de contratação, segurança social, fiscal, é limitador no que diz respeito à empresa se estabelecer. Mas na Alemanha temos seis a sete trabalhadores em permanência, há cerca de dois anos”.

Outro projeto em mente é construção de uma escola profissional. “Ter uma vertente de formação é o caminho. Daí a ideia do terreno anexo para nascer ali uma escola de formação, fazer cursos. Seria até um futuro risonho para este área porque os jovens hoje fogem para áreas que gostam mais e vejo o pessoal qualificado a ficar com uma idade avançada, a querer reformar-se”, observa José Lemos.

A ideia dos irmãos Lemos, no que toca à vertente formativa, passa por conseguirem “estabelecer a ponte entre os alunos de cursos profissionais quando acabam o 12º ano e aquilo que é a área de trabalho porque não vêm preparados para o mundo do trabalho”, assegura.

“Conseguindo ter na oficina 4/5 alunos por ano, ter um ano de estágio curricular remunerado a aprenderem com os nossos profissionais, será uma mais-valia para os trabalhos futuros, e temos abertura para integrar esses profissionais na empresa”, que, apesar de lidar com materiais pesados, não estranha o digital e as novas tecnologias, garante José.

Os prémios das empresas Mtil e Ilmet, em Tramagal. Créditos: Jorge Santiago

A pensar no futuro, os filhos dos Lemos mostram vontade de pegar no negócio. Os irmãos, que apenas têm três anos a distanciar a idade entre si, sabem que o legado que construíram a pulso passará para as mãos dos herdeiros. José é cauteloso e defende “algum cuidado nas decisões”.

Os dois sobrinhos trabalham nas empresas, no escritório e na oficina. O seu filho fez outra escolha, mas conhece bem o negócio. “Uma empresa familiar que tem tudo para assim continuar, embora tenhamos de andar aqui mais alguns anos a perceber o que se pode fazer. Não queria que a empresa depois de ter crescido, decrescesse. Será uma integração longa e calma, pensada e estudada”, defende.

Com presença diária na empresa, José apoia assim os funcionários, nomeadamente nas decisões, mas também na oficina, como motorista, na verdade, no que for necessário. Dos três irmãos diz ser o que mais percebe de informática até pelo trabalho que desenvolveu na Caima. “Fui encarregado geral da manutenção na parte mecânica, durante 30 anos, o chefe dos meus irmãos”.

Além do trabalho, os três partilham outros gostos como as motas e os ralis. “Andamos muito de mota”, confessa. Ligeiros, tal como José sonha o futuro das empresas, em frente, a crescer. “Vamos nisso porque temos uma boa equipa e estamos motivados”.

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