Tramagal | Ir às vindimas no Casal da Coelheira e perceber que sem boa uva, não há bom vinho

Vindimas na Quinta do Casal da Coelheira, Tramagal. Foto de arquivo. Créditos: mediotejo.net

A vindima na Quinta do Casal da Coelheira antecipou-se ligeiramente devido ao calor. Começou a 19 de agosto e está prestes a lavar os cestos. Na adega de Tramagal as perspetivas são boas quanto à qualidade do vinho tendo em conta a qualidade da uva, fruto de um ano seco como 2019. Nuno Falcão Rodrigues, o enólogo, recebeu um grupo de visitantes numa iniciativa da Câmara Municipal de Abrantes visando promover os produtos endógenos. O jornal mediotejo.net acompanhou a visita à Quinta e à adega, no dia 13, para perceber um pouco mais de como chegam à nossa mesa estes vinhos premiados do Tejo.

Antigamente é que era, com cestos e mais cestos que passavam de mão em mão e de cabeça em cabeça na apanha da uva. Nem homens nem mulheres se negavam ao trabalho duro das vindimas, de carregar ao ombro cestos com mais de 30 quilos de uvas durante um dia inteiro sob um sol que poderia ser escaldante. Hoje a colheita pode passar mais pela máquina do que pelos ombros. Não foi o caso do Casal da Coelheira que conseguiu trabalhadores para que a vindima de 2019 fosse toda feita à mão.

Contudo, o enólogo Nuno Falcão Rodrigues reconhece as dificuldades. Atualmente é complicado conseguir trabalhadores para vindimar, o preferencial na Quinta do Casal da Coelheira, pela escolha da uva que o trabalho manual permite. Com a máquina vai tudo a eito, esteja o bago mirrado pela seca ou com a podridão da uva madura.

Mesmo assim, este ano não correu mal e são 32 os trabalhadores que vindimam na Quinta, em Tramagal, uma terra com mais tradição operária do que rural. Pela primeira vez o Casal da Coelheira recorreu a trabalhadores estrangeiros e conta com um grupo de nove indianos na apanha da uva.

Casal da Coelheira, Tramagal. O enólogo Nuno Falcão Rodrigues. Créditos: mediotejo.net

Os pais de Nuno Falcão Rodrigues compraram a Quinta do Casal da Coelheira, começando a aventura vitivinícola em 1989. “Um momento um bocadinho difícil para o meu pai que estava habituado a uma cultura muito mais extensiva onde tínhamos cortiça, gado, uma vida agrícola com as suas limitações mas mais tranquila, uma gestão que fazia até em part time”, recorda.

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No Casal da Coelheira “confrontou-se com uma exploração de culturas intensivas, nomeadamente o milho que é a principal área de cultivo que temos aqui, embora a vinha seja a mais visível. Felizmente teve ajuda das pessoas que já cá estavam a trabalhar. Nessa altura a Quinta tinha uma pequena área de vinha”, lembra o enólogo.

Uma época em que as vinhas estavam plantadas em terrenos férteis, muito ricos, com altas produções mas em que “a qualidade não era a mais interessante”.

A decisão de “virar aos vinhos” surgiu em 1989 aquando da “oportunidade de comprar umas vinhas que confinavam com o Casal da Coelheira e por arrasto a adega”, lembra. Nesse momento, Nuno Rodrigues, que “nunca tinha sonhado com vinhos”, iniciou o seu contacto com a uva e o acompanhamento das vindimas.

“Foi um amor à primeira vista. Percebi que era esta a atividade que queria desenvolver e fui a tempo de reencaminhar a minha formação para a parte da enologia. Fazer vinho é aquilo que eu gosto!”, afirmou.

E assim cresceu uma paixão familiar a entrar na terceira geração, que cresce nas margens do rio Tejo, junto à vila de Tramagal, no concelho de Abrantes, e que se estende por uma área com cerca de 300 hectares, distribuídos entre vinhas e diversas culturas arvenses protegidas por uma pequena área de pinhal.

Quinta do Casal da Coelheira, Tramagal. Casta Fernão Pires. Créditos. mediotejo.net

Todas as vinhas existentes, hoje, na Quinta do Casal da Coelheira foram plantadas por Nuno e pela sua família em terrenos mais pobres, arenosos, semelhantes a areia da praia. A estratégia passou por “apostar na qualidade, escolhendo castas que poderiam ser mais interessantes para nós”, refere.

E as vinhas distribuem-se no paralelo 39 Norte, num clima mediterrâneo temperado e de baixa altitude, numa área de 55 hectares, nem todas em produção. As temperaturas oscilam ao longo de verões secos e invernos rigorosos, oferecendo condições de solo e clima únicas para a produção de uva de elevada qualidade.

As maturações são normalmente atingidas na segunda metade de agosto, permitindo o início de uma vindima escalonada, mas ao mesmo tempo precoce, durante um mês e meio, evitando desta forma os períodos das primeiras chuvas outonais.

Além das novas plantas, a idade da vinha está compreendida entre meses – vinha plantada em 2019 – e 35 anos de idade, coexistindo desta forma vinhas velhas de elevada qualidade, com plantas mais jovens de grande potencial. Predominantemente em solos arenosos, o encepamento é diversificado, com especial destaque para as castas nacionais de maior potencial qualitativo, mas sem esquecer as referências internacionais.

Adega do Casal da Coelheira, Tramagal. Créditos. mediotejo.net

“Hoje conhecemos o potencial das castas portugueses. A nível comercial, sendo Portugal um país tão pequeno e o Casal da Coelheira ainda mais pequeno, não faz sentido ir para os mercados internacionais – a nossa grande ambição –  competir com Chile, França, Espanha que fazem os chardonnay e os cabernet tão bem como nós e conseguem ter custos de produção significativamente mais baratos. Conseguem chegar ao mercado com preços muito mais competitivos, portanto a nossa aposta é a diversidade”, notou.

Entre as castas portuguesas – Fernão Pires, Arinto, Verdelho, Touriga Nacional, Touriga Franca, Aragonês e Periquita – as castas estrangeiras permanecem na Quinta, designadamente o alicante bouschet, uma uva preta que tem o pigmento na casca e também na polpa, o que dá “vinhos muito ricos em termos de cor e estruturados, com uma acidez muito elegante”, refere o enólogo.

E as castas estrangeiras ajudam em termos comerciais, “facilitam na China, na Rússia, na Polónia. Temos estas duas estratégias”, refere. Além disso, “o cabernet sauvignon tem um papel importante no Mythos”, um dos vinhos “topo de gama” do Casal da Coelheira.

Tramagal situa-se na província do Ribatejo mas os vinhos são Tejo, “uma revolução que aconteceu há uma dúzia de anos como estratégia comercial. A região Ribatejo não tinha uma imagem muito positiva no mercado. Cometeram-se erros, práticas que não eram as mais adequadas nomeadamente na seleção das uvas e das parcelas, e a imagem não era a mais favorável, um problema com o qual continuamos a lutar. Ainda há algum estigma!”, deu conta.

Felizmente para os produtores, os vinhos Tejo estão a conquistar mercado tornando-se “das regiões que tem crescido mais a nível de mercado nacional e isso reflete a descoberta do consumidor e as relação fantástica qualidade/preço”.

Sala das barricas. Casal da Coelheira, Tramagal. Créditos: mediotejo.net

A colheita escalonada

A vindima não é mais do que a colheita da uva no ponto ideal, muito dependente das alterações climatéricas que criam cada vez mais dificuldades na previsão da meteorologia. Contudo, 2019 apresenta-se com possibilidades de excelente ano para os vinhos de Tramagal.

“Numa fase inicial, em meados de julho, começamos a fazer uma visita semanal às vinhas, a colher amostras e a verificar a evolução da vinha e quando se aproximar a data mais provável de arranque encurtamos o espaço e pelo menos duas vezes por semana vamos à vinha. A diversidade de castas permite-nos fazer essa gestão” de vindima escalonada.

“Estamos a completar um mês de vindima, estamos quase na reta final. Privilegiamos a colheita manual mas há 10 anos fomos forçados a adquirir uma máquina de vindimar. A mão de obras escasseava, era muito difícil encontrar pessoas disponíveis para vindimar. Ainda me lembro dos estudantes que vinham vindimar para ganhar uns tostões, as vindimas eram um bocadinho mais tarde, mas as aulas começaram a iniciar mais cedo e deixámos de ter essa ajuda. Por outro lado, estamos inseridos numa comunidade que não tem tradições agrícolas muito grandes, mais tradição industrial. A máquina vai dando uma ajuda embora tenha de tomar algumas precauções e reconheço ainda algum estigma em relação à vindima mecânica”, deu conta Nuno Rodrigues.

Casal da Coelheira, engaço. Créditos: mediotejo.net

Mas há razões para privilegiar a vindima manual. “Permite a seleção das uvas. A uva está mais protegida, o mosto também está mais protegido. Este ano as maturações espaçaram-se um bocadinho mais e conseguimos ter uma vindima mais tranquila, e por outro lado conseguimos encontrar mão de obra para conseguir fazer a vindima toda manual”, disse Nuno Falcão Rodrigues, dando conta de três grupos diferentes, num total de 32 pessoas.

Anualmente o Casal da Coelheira produz “cerca de 300 mil litros de vinho. Embora o nosso objetivo seja aumentar” em função das respostas do mercado. Conseguir uma uva de qualidade implica, para Nuno Falcão Rodrigues, “o sofrimento da planta. Tem de ter algum stress hídrico e de nutrientes, por isso as plantamos em terrenos pobres, mas tem de ser um stress controlado, porque se for exagerado a planta vai desfolhar, a uva não amadurece nas melhores condições e não teremos um fruto equilibrado para fazer um vinho equilibrado”.

Longe dos anos em que regar a vinha “era proibido”, as novas vinhas já têm sistema de rega instalado “para dar uma estrutura física à planta que a vai tornar mais saudável e por si só produz mais efetivamente mas sem comprometer a qualidade”, acrescenta o enólogo.

Cubas de inox do Casal da Coelheira. Créditos: mediotejo.net

Na adega centenária com refrigeradas cubas de inox

Sara Santos acompanhou o grupo na adega, uma estrutura com mais de 100 anos, na linha de engarrafamento, no armazém, na sala das barricas e por fim na sala de provas onde explicou que toda a produção do Casal da Coelheira, “cerca de 70%, é para exportação”.

Atualmente o projeto tem presença em mais de 20 países. Por exemplo, na América, o Casal da Coelheira está presente de norte a sul, no Canadá, nos Estados Unidos, Equador, Brasil e brevemente no México. Na Europa tem presença na Holanda, Bélgica, Suíça, Polónia, Rússia, Letónia, Alemanha, Hungria e República Checa. Na Ásia podemos encontrá-lo na China, Taiwan e Macau.

Falando sobre o mecanismo da adega referiu que a equipa, durante o ano, passa “mais tempo na zona de engarrafamento, embalamento e produção do vinho. Há vinhos que ficam nos depósitos de inox durante algum tempo, outros nas barricas [de carvalho francês e americano] cerca de 6 a 12 meses. Os brancos ficam menos tempo. Os tintos ficam até 12 meses, como é o caso do Mythos”.

Sala do engarrafamento do vinho Casal da Coelheira, Tramagal. Sara Santos. Créditos. mediotejo.net

É na sala de engarrafamento que se dá “o primeiro passo após trazer o vinho dos depósitos de inox, depois de pisado e filtrado”. Começa por uma máquina circular com a função de lavar todas as garrafas que chegam da vidreira, a garrafa é então colocada na linha para encher com a capacidade certa e colocar a rolha. Um processo todo mecanizado incluindo a estufa que serve para limpar a garrafa ainda com resíduos de água do primeiro passo, para que a rotulagem seja mais fácil. Esta é efetuada após o pedido do cliente.

“Temos várias garrafas sem rótulo e sem contra rótulo esperando as encomendas dos diversos países que podem pedir um rótulo diferente, o cliente pode escolher o que quiser. Tem a ver com a cultura de cada país, por exemplo na China, um país mais exuberante, gostam muito do florescente, do rosa choque, das garrafas de cinco litros, dos fundos mais profundos. Na China, a profundidade do fundo da garrafa está relacionada com a qualidade do vinho”, explica. Por exemplo, os rótulos com os coelhos por norma vão para o Brasil e Bélgica, para dar mais simbologia ao vinho.

Rótulos dos vinhos do Casal da Coelheira. Créditos: mediotejo.net

Na parte da pisa da uva, que no Casal da Coelheira é mecânica, o fruto chega diretamente da vinha para uma máquina que separa a folha, a grainha, a película, de onde resulta para um lado o engaço, este levado para uma destilaria em Riachos com o objetivo de produzir aguardente, e para outro lado o sumo colocado em cubas de inox, com capacidade de refrigeração.

“O vinho tem de ser vigiado diariamente. O frio vai fazer com que conserve o que está lá dentro mas temos umas pás para mexer e é aqui se dá a fermentação do açúcar para o álcool. Nos anos mais quentes a uva chega mais doce resultando num vinho mais graduado”, afirma Sara.

No armazém, de construção recente, as caixas estão separadas por branco e tinto, para facilitar o trabalho da logística. “Além de ser mais fácil de higienizar tem ventoinhas com a temperatura adequada aos vinhos que estão mais tempo em armazém”.

Na sala das barricas [utilizadas uma única vez], onde a temperatura é muito controlada, repousam os vinhos “topo de gama” brancos e tintos.

“Nos tintos, em cada barrica temos diferentes tipos de uva. O vinho ainda não está pronto na sala das barricas. Em cada uma, todas numeradas, separamos as castas para conseguirmos ver a evolução de cada uma, sabermos se estão com a qualidade ideal e só depois fazer o blend, ou seja, a mistura das castas”.

Prova de vinhos na adega do Casal da Coelheira, Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Um dos pontos mais interessantes da profissão de enólogo é a liberdade criativa, para desenhar o perfil do vinho, experimentar, produzir novidades, com os naturais riscos intrínsecos ao negócio. Por isso, o Casal da Coelheira possui um pequeno laboratório “básico para o controle de qualidade diário”, explica Nuno. No entanto, uma coisa é certa: sem boas uvas não se faz bom vinho.

Sendo certo também que “todas as adegas são obrigadas as levar os seus vinhos a um laboratório externo. No caso do Ribatejo é a Comissão Vitivinícola do Tejo, que controla a qualidade dos vinhos. O nosso laboratório serve para verificarmos a evolução dos nossos vinhos”, conclui Sara.

Até ao momento, o Casal da Coelheira, com diversos vinhos premiados nacional e internacionalmente, incluindo ‘o melhor rosé do mundo’ em 2010, conseguiu sempre escoar a totalidade da sua produção.

Vinhos Casal da Coelheira, Tramagal. Créditos: mediotejo.net

 

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