Tramagal | Da aventura de dois irmãos aos queijos Brejo da Gaia feitos com “sacrifício e amor”

Exploração de cabras murciana-granadina na Quinta da Beata em Tramagal, onde nasceu o queijo Brejo da Gaia. A engenheira Susana Carrolo.

Ambos com formação zootécnica, Susana e Pedro embarcaram na aventura de produzir leite de cabra. Depois de muitas pedras no caminho, consolidaram o projeto, localizado em Tramagal, e atualmente contam com um rebanho de 600 animais, produzem cerca de 600 litros de leite por dia e arrecadam prémios de ouro, prata e bronze, dentro e fora de portas, com os seus queijos artesanais. Somam anos de persistência e sofrimento. Mas o reconhecimento chegou e com ele a vontade de fazer melhor. O mediotejo.net esteve na Quinta da Beata, para falar com Susana Carrolo e conhecer as cabras onde assenta o sucesso do projeto empresarial.

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Pelo menos, quanto à vida rural, as noites de inverno estão associadas a um tempo diferente onde se contavam histórias sobre tradições hoje perdidas. Mas a história foi menos encantada para Pedro e Susana Carrolo, na vontade e insistência de fazer renascer a tradição.

Há 16 anos iniciaram uma aventura com cabras murciana-granadina, um primeiro rebanho com 120 animais. “Começámos a ordenhar à mão. Eu segurava o animal e o Pedro ordenhava. Passávamos 7 ou 8 horas da noite a ordenhar. O pior era no inverno, vestidos com um blusão de penas, os dois debaixo de uma zona de telha, com um pavilhão de chapa onde tínhamos as cabritas”, lembrou Susana ao mediotejo.net.

E foi de forma árdua, que os dois irmãos plantaram a semente de onde brotaram, em Tramagal, Abrantes, os premiados queijos Brejo da Gaia. É por isso que, na receita do sucesso, Susana inclui como ingredientes principais “sacrifício e amor”. Um projeto de produção de leite de qualidade consolidado no decorrer dos anos.

Exploração de cabras murciana-granadina na Quinta da Beata em Tramagal, onde nasceu o queijo Brejo da Gaia

“Muito sacrifício durante 16 anos. Sujeitar-nos a oscilações nos preços do leite, cabritos e alimentação dos animais. Mas superámos sempre tudo. Somos teimosos. Conseguimos criar uma das maiores explorações de cabras a nível nacional. O pouco que ganhamos investimos na exploração, pensamos sempre em melhorar as condições de trabalho e dos animais” e o grande objetivo, frisa Susana, passa pela queijaria “ser uma das melhores” em Portugal.

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As cabras “são uma paixão”, apesar de Susana Carrolo ter sido educada longe do meio agrícola e da produção de gado. Mas Pedro chegou dos Açores, onde concluiu o curso de Zootecnia, com as cabras de leite na ideia. No centro desta ideia estava a convicção e Susana concordou.

Isto porque, ambos tinham o “bichinho do amor” aos animais. Também Susana estudou Produção Animal em Santarém e depois Zootecnia em Castelo Branco e conhecia a ACRIMUR – Associación de Creadores de Cabras Murcianas, em Murcia, por trabalhar em Espanha numa empresa de genética de suínos, na área da inseminação artificial. Susana e um veterinário eram os únicos portugueses a representar a empresa em Portugal.

“Foi interessante!”, observou. A partir daí conheceu o país vizinho por inteiro pelos centros espalhados por todas as províncias. “Deram-me muita formação e uma grande escola de vida. Ainda tirei alguns cursos em Espanha para montarmos um centro de inseminação artificial em Portugal” mas as cabras baliram mais alto, notou.

Exploração de cabras murciana-granadina na Quinta da Beata em Tramagal, onde nasceu o queijo Brejo da Gaia. A engenheira Susana Carrolo.

Contactou com a ACRIMUR e “arranjaram-me um rebanho bom, 120 fêmeas dos melhores criadores” para iniciar a exploração. Pensou muitas vezes se era esse o seu caminho, o ter que abdicar de muita coisa na vida e se estaria preparada. “Quando não vivemos nesse meio, da produção animal, temos de abdicar de alguns hábitos na vida em prol dos animais. Eles necessitam da nossa presença todos os dias, incluindo feriados e fins de semana. Hoje é a minha vida, os meus filhos – que não tenho – o meu dia-a-dia”, explica.

Mesmo na dedicação à queijaria Susana admite “a necessidade” de uma visita diária à exploração. Essa intimidade talvez justifique o “batismo” de algumas cabras com nomes como Rita, Alice, Mariola. “São as que se destacam em pequenas. Em todos os lotes há sempre uma que anda atrás de nós. Damos-lhe um nome e começa a associar o nome ao chamamento e assim ficam até à fase adulta”.

No terreno podemos comprovar que cada grupo aguarda à porta do respetivo parque para seguir para a ordenha, conhecem a sequência. “É espetacular!” afirma Susana.
“São muito inteligentes e é isso que cativa. A cabra é meiga, traquinas, tem de meter a boca em tudo, é muito curiosa”.

As raízes familiares da Beira Baixa a Lisboa

Na herança familiar, os dois irmãos não receberam conhecimento ou experiência nem qualquer ligação direta ao campo, com o pai advogado e a mãe assistente social.

Exploração de cabras murciana-granadina na Quinta da Beata em Tramagal, onde nasceu o queijo Brejo da Gaia. Momento da ordenha

A mãe, após o curso em Lisboa, de onde é natural, foi colocada em Bragança quando surgiu a oportunidade de trabalhar na Metalúrgica Duarte Ferreira. Desceu até ao Ribatejo pela proximidade da família e chegou a Tramagal ainda solteira. Entretanto, o pai acabou o curso em Coimbra, casaram, abriu escritório de advogado em Abrantes e estabeleceram raízes no concelho. Susana também nasceu em Lisboa, há 45 anos, Pedro já nasceu em Abrantes, cinco anos depois. Em Tramagal frequentaram a escola primária.

A Quinta da Beata, esverdeada por oliveiras e figueiras com o Tejo a seus pés e Rio de Moinhos do outro lado do rio, onde os irmãos montaram um enorme pavilhão que acolhe a exploração, é então pintalgada por cabras de pelo castanho bastante escuro, quase negro, dóceis, inteligentes e curiosas. Entre as raças produtoras de leite Susana considera “uma das melhores” no que toca à qualidade. Não sendo das mais produtoras têm uma vantagem que agrada aos irmãos: a adaptação às altas temperaturas que se fazem sentir em Tramagal durante o verão.

“Não sofre com o clima onde está inserida, a não ser que as temperaturas sejam muito baixas”, vinca Susana. As cabras suportam os mais de 40 graus do Ribatejo interior, procurando o sol, não sendo uma cabra de pastoreio, mas muito territorial que aprecia a quietude. “Adoram o calor! No inverno tentamos ter o curral quente, o espaço com camas secas”.

Passaram de um barracão de chapa para o tal pavilhão onde há 10 anos criam cabras. Aposta que financeiramente exigiu “um grande investimento”.

A sala de ordenha é “topo de gama”, com medidores eletrónicos para registar a quantidade de leite por cada animal e a velocidade do fluxo, que tem também como função a seleção dos animais. “Uma cabra que demore muito tempo a tirar leite não interessa a nível de produção”, explica Susana.

Exploração de cabras murciana-granadina na Quinta da Beata em Tramagal, onde nasceu o queijo Brejo da Gaia. A engenheira Susana Carrolo. Momento de aparar os cascos.

A produção conta atualmente com 600 animais divididos pela recria e produção com leite o ano todo. “Não queremos aumentar mais porque cada animal é diferente e temos de estar atentos como se fossem pessoas. Cada um tem a sua maneira de estar, se não come temos de estar com atenção… portanto, é trabalhoso e requer 24 horas por dia, sendo difícil encontrar pessoas que queiram trabalhar nisto, apesar do horário flexível. Mas existe todos os dias… domingos, feriados, e hoje as pessoas querem trabalho de secretária”, observa.

As crias nascem três vezes por ano na Quinta da Beata. Prática que permite a produção de leite durante todo o ano. “Cada cabra tem crias uma vez por ano, por isso temo-las diferenciadas. Três lotes para parir no Natal, outros três para a Páscoa e igual número para o verão. Assim temos a mesma quantidade de leite todo o ano. Um bode para 50 cabras, agora são 18 machos. Os parques têm à volta de 60 fêmeas e, na altura de acasalar, colocamos três machos para causarem stress e luta o que vai despoletar o cio. Entrando uma no cio, as outras entram por simpatia e funciona sem ser necessário uso de hormonas”, explica.

A ordenha acontece diariamente, duas vezes por dia, de manhã e à noite, cerca de três horas cada uma. Para uma mulher urbana como Susana, habituada ao bulício da capital, o aprisionamento às tarefas, sem dias para o lazer, revelou-se uma dificuldade à qual entretanto já se habituou, embora a exigência seja atualmente menor com a ajuda de dois empregados.

Exploração de cabras murciana-granadina na Quinta da Beata em Tramagal, onde nasceu o queijo Brejo da Gaia

A recolha do leite, contabilizada normalmente por ano, prevendo a lactação de cada animal, conta entre 500 a 600 litros por dia, que pode chegar aos 800. Há cerca de cinco anos Susana começou a tirar uma parte da produção para a sua queijaria Brejo da Gaia.

Da criação e experimentação nasceram queijos premiados

“Precisava de mais qualquer coisa e dedicava-me às experiências. Estraguei muito queijo!” recorda. Afirma-se “uma pessoa muito criativa, dinâmica” embora tivesse muito trabalho – chega a ficar até às 5 da manhã a dar de mamar a bebés – queria dar um passo em frente e dar asas a imaginação. “Um trabalho mal recompensado porque no nosso País não dá para ter muitos funcionários, mesmo havendo quem queira, é difícil suportar salários”, desabafa.

Dessa necessidade, nasceu uma pequena queijaria, em 2012, pelas mãos da engenheira. E sob a marca Brejo da Gaia, os seus produtos já conquistaram medalhas de ouro, de prata, de bronze e muitos elogios.

Susana Carrolo quando o queijo kefir Brejo da Gaia venceu o concurso Internarché na categoria Inovação. Créditos: DR

“Sinto-me muito orgulhosa pelo esforço que eu e o meu irmão fizemos e vejo a queijaria como algo que vai marcar a região porque somos reconhecidos a nível mundial, uma queijaria pequenina que subiu mais alto que os gigantes”, refere.

O queijo Brejo da Gaia fresco atabafado recheado com massa malagueta mereceu medalha de bronze em novembro último no World Cheese Awards 2018 (concurso mundial de queijos) realizado em Bergen, na Noruega. Este evento contou com a participação de cerca de quatro mil queijos oriundos de todo o mundo que foram avaliados por um júri com 235 elementos.

Susana concorre para dar a conhecer os seus produtos, queijo feito de modo artesanal, à mão, que faz a diferença muito pela qualidade de seleção do leite. “Somos muito rigorosos nas ordenhas. O leite é de excelente qualidade, de baixo microrganismo, e não utilizamos multimoldes. O queijo tem de ser feito com as mãos e por mais que técnicos me digam que é muito mais viável para a queijaria ter um sistema de molde, de meter para lá a massa e o queijo fazer-se sozinho, não me entra na cabeça!”, afirma, recusando ter uma queijaria igual às outras. “Quero um produto distinto, de qualidade”.

Apesar dos prémios, insiste em dizer não saber fazer queijo. Começou por tentativa e erro há meia dúzia de anos, pesquisando, falando com pessoas dentro e fora do país, experimentando. “Um verdadeiro queijeiro tem conhecimentos que eu não tenho, sou uma aprendiz, mas tento fazer o mais tradicional possível e isso dá qualidade ao produto”, garante.

Queijos na câmara de cura na queijaria Brejo da Gaia

A marca Brejo da Gaia, casal onde se situa a queijaria quase ao lado da estação ferroviária de Tramagal, após um caminho “complicado” entrou para o mercado gourmet. Podemos encontrar os queijos de Susana no Bairro Alto, Marcado da Ribeira, El Corte Inglês e outras conceituadas casas gourmet de Lisboa. Atualmente um cheese bar em Madrid, que figura no guia Michelin trabalha com os queijos Brejo da Gaia.

“Era impossível competir com queijos que são feitos com leite em pó ou com leite de vaca e aroma de cabra no mercado a 90 cêntimos, o que não paga um litro de leite tendo em conta os custos de produção. Ora se tinha um queijo diferente o preço também teria de ser diferente para suportar os custos”. A solução passou por entrar para o mercado gourmet onde “o cliente aprecia um queijo de qualidade, genuíno e tem poder de compra”, refere Susana.

Uma tentativa que revelou nova prova de fogo. “Quatro anos difíceis para uma queijaria que começa do nada. Quando não temos raízes é muito complicado entrar com um produto novo duas vezes mais caro do que o presente no mercado. Fiz muito mercado no Príncipe Real, em Lisboa, onde estão as pessoas com poder de compra e onde aparecem chefes de cozinha, gente conhecedora do gourmet. Foram mais as portas que fecharam do que as que abriram e hoje em dia a procura é maior que a oferta”, revela.

Daniela Vital no momento de embalar os queijos na queijaria Brejo da Gaia

Dentro da filosofia de inovar e explorar novos sabores, entre os seus produtos Susana Carrolo destaca os bombons de queijo; o queijo curado em vinho tinto, no caso o Areão do Casal da Coelheira, também de Tramagal; o pasta mole, o queijo curado vintage com 6 meses de cura (para a engenheira “o melhor do País”); o queijo curado com pimentão, piri-piri e vinho branco; o kefir de meia cura e pasta semimole, com pouco sal e bactérias benéficas para o organismo, vencedor da 5ª edição do prémio Intermarché produção nacional na categoria Inovação; o queijo de azeite e também o fundido apresentado em frascos, tentando aproveitar os produtos da quinta para associar aos queijos, como o doce de figo ou a marmelada.

A queijaria no roteiro turístico de Abrantes

Atualmente, a Quinta da Beata integra o roteiro turístico de Abrantes, até por ter a única queijaria do concelho. “As pessoas vêm conhecer as cabras e provar o queijo. Faz todo o sentido. É mais um produto que a terra tem, tal como o vinho ou o azeite” explica. As reações são positivas embora os visitantes fiquem surpreendidos dos a pequenez do espaço. “Esperem encontrar uma queijaria de topo e deparam-se com uma pequena queijaria. Não me importo porque lá faço sonhos”, diz.

Exploração de cabras murciana-granadina na Quinta da Beata em Tramagal, onde nasceu o queijo Brejo da Gaia

Por esses tais sonhos, que na verdade são reais, Susana chama à queijaria “a casinha dos sonhos” e apesar do projeto aprovado para uma nova queijaria, aquela é para manter, quem sabe para workshops. “Temos um projeto do ProDer [Programa de Desenvolvimento Rural] aprovado para uma queijaria na zona industrial de Tramagal”, avança.

A engenheira zootécnica esclarece que não será um espaço de grandes dimensões mas com condições de trabalho no sentido de aumentar a produção e a experimentação. Para já conta com Daniela Vital, a única funcionária da queijaria. “Espero que esteja pronta daqui a um ano ou ano e meio”, diz.

Para o futuro, ambiciona manter o mesmo número de animais e fazer da queijaria Brejo da Gaia uma referência nacional e internacional na produção de queijos.

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