Tramagal | Assim se cumpriu a ‘Ultima Valsa’ no mítico bar Del Rey (c/vídeo e fotogaleria)

Sem cartazes a anunciar o encerramento, música ao vivo ou espaços reservados, a noite do sábado passado no Del Rey pareceria, a quem chegasse sem aviso, uma noite como outra qualquer.

Jorge Rei foi igual e fiel a si próprio no último dia de funcionamento da cervejaria-bar de rock mais antiga do distrito de Santarém, que permaneceu de porta aberta nos últimos 36 anos, em Tramagal, Abrantes. Durante a tarde dizia, descontraído: “Quem aparecer é bem-vindo, a casa fecha às 4:00… se até lá as bebidas não esgotarem.”

Esgotaram, claro, pois muitos foram os amigos de várias gerações que quiseram brindar ao Jorge e à sua companheira, Fátima, pelo que proporcionaram aos amantes da boa música ao longo de quase quatro décadas. O rock, esse, foi mais uma vez servido em doses generosas, selando um brinde coletivo aos bons velhos tempos das noites loucas na Vila Convívio.

Assim se cumpriu a ‘Ultima Valsa’ no mítico bar Del Rey. Foto: KPHOTO

Como muitos recordaram este fim de semana, entrar no Del Rey era sempre um regresso a casa. Parecia que estava sempre um lugar à nossa espera no balcão, e que a música, a combinar com as meias luzes, era escolhida a dedo para elevar os espíritos. Havia também sempre espaço para as conversas, que seguiam ao ritmo das rodadas (é só mais uma, depois a “abaladeira” e depois a “caminheira”). Como pano de fundo, ou bandeira bem erguida, sempre o rock&roll.

Jorge Rei inaugurou o Del Rey em janeiro de 1984. Foto: KPHOTO

“Gosto muito de música, sou exigente, e divulgo aquilo que entendo que é a boa música. Sou um apaixonado, desde o rock ao folk, e sempre tive uma preocupação cultural”, conta-nos Jorge Rei, hoje com 54 anos, ele que abriu o Del Rey a 1 de janeiro de 1984, tinha então 18 anos.

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 “O rock nunca morre mas certo é que nada dura para sempre”, diz, criticando a “sociedade de consumo imediato, o mastiga e deita fora”, como bem cantavam os Táxi noutros tempos.

Num espaço multigeracional, que chegou a ter um espaço “reservado” à entrada, e onde a Sagres só encontrava rival em clientes fiéis e nos muitos militares do Campo de Santa Margarida, a cerveja e o rock eram palavra de ordem num espaço que servia música e concertos vídeo, e onde se podia conversar, dançar, conjecturar, refletir, ou discutir o futuro do mundo.

Foram muitas as centenas de pessoas que marcaram presença no último dia no Del Rey. Foto: KPHOTO

“Tramagal era uma aldeia fantástica, com muita gente que vinha do Campo Militar e outras que trabalhavam na Metalúrgica Duarte Ferreira, que vinham para cá e traziam novas ideias. Discutia-se literatura, cinema, política ou música. Quando essas pessoas saíram não foram substituídas, as gerações foram envelhecendo e perdeu-se dinâmica”, lamenta Jorge, para quem uma boa conversa era um tónico para ter a casa aberta.

Nos últimos anos os clientes eram cada vez menos, principalmente durante a semana, e as conversas rareavam. Apesar de tudo, eram todos sempre bem-vindos, mesmo quando se passavam meses (ou anos) sem lá ir beber um copo.

A estagnação do negócio obrigou-o a procurar outras fontes de “inspiração” e de receita, conciliando, nos últimos anos, o balcão do Del Rey com um trabalho numa fábrica de automóveis.

Jorge Rei inaugurou o bar Del Rey a 1 de janeiro de 1984 em Tramagal, espaço que agora fecha portas na Vila Convívio. Foto: KPHOTO

“É uma vida inteira dedicada à hotelaria” que assim termina. “Lembro-me de tirar as primeiras imperiais com 8 anos, em cima de um escadote, e de tirar cafés em cima de uma garrafa de gás… Ou seja, já levo 47 anos atrás do balcão. Naquele café (dos pais) já fui eu quem servi a determinada altura os Heróis do Mar e os Salada de Fruta, salvo erro em 1981, bandas que ouvia numa telefonia que ainda guardo ali em cima”, conta-nos, apontando para uma das muitas estantes do bar que, com tantas recordações, mais parece um museu da vida da noite.

Jorge Rei não pensa em reformar-se, e não é por isso que dançou a “Última Valsa” (título do triplo álbum dos “The Band”, que tantas noites ali tocou) no sábado, dia 11 de janeiro, com os seus clientes e amigos.

“O rock nunca morre mas certo é que nada dura para sempre”, diz Jorge Rei, criticando a “sociedade de consumo imediato, o mastiga e deita fora”, como bem cantavam os Táxi noutros tempos. Foto: KPHOTO

“Reformar? Não! É para continuar a trabalhar e para poder ter tempo para mim”, revela, dando conta que 36 anos de Del Rey “deram muito mais trabalho do que a maioria das pessoas pensa”. Foi uma vida de “muita pressão, muito sacrifício e dedicação total, para tudo isto estar a funcionar”, confessa.

“Quando as pessoas saem para a noite, para um concerto ou para uma festa, nós nunca podemos, porque temos a porta aberta. Tivemos de fazer opções e abdicar de muita coisa. Fechar agora é também uma opção e é por isso que vejo esta última noite com alguma descontração, e até algum alívio”, conta, reconhecido por tantas mensagens de amizade e carinho que recebeu através das redes sociais nestes últimos dias.

Mítico bar Del Rey fechou portas 36 anos depois de muito rock em Tramagal. Foto: KPHOTO

“Agora vou ter tempo para mim e poder usufruir de algumas coisas que a vida de bar não permitia”, conta, sorridente. Quanto ao futuro do bar: poderá voltar a abrir? “O futuro o dirá, nunca se deve dizer nunca!”, atira. Mas, por agora, a porta fechou: “Obrigado a todos e, quem sabe, até um dia!”

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