Torres Novas | Virgínia trouxe uma “Carnificina” e o teatro tornou a encher

A comédia negra atraiu público, num espetáculo que foco alguns dos dilemas da sociedade contemporânea Foto: mediotejo.net

Depois de um período em que se somavam críticas à pouca adesão popular aos espetáculos do Teatro Virgínia, em Torres Novas, não obstante a qualidade dos mesmos, apontadas sobretudo à direção artística de Rui Sena, a sala tem somado enchentes neste primeiros dois meses do ano. Depois de Pedro Abrunhosa e Paulo de Carvalho, a peça de Diogo Infante, “O Deus da Carnificina”, soltou gargalhadas e uma boa dose de empatia ao público que se dirigiu ao teatro no domingo, 17 de fevereiro. Um “equilíbrio de formas de expressão” é o que defende a vereadora da cultura, Elvira Sequeira, para o futuro desta sala de espetáculos que continua entre as preferências dos artistas portugueses. 

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Bernardo pegou num pau e bateu em Duarte, partindo-lhe dois dentes. A querela terá nascido de Duarte ter recusado a entrada de Bernardo no seu “grupo” ao chamá-lo de “bufo”. Os motivos por trás da intriga nunca chegam a ser esclarecidos. Os pais de ambos os rapazes reúnem-se para discutir um possível pedido de desculpas, mas perdem-se na atribuição de culpas e numa defesa cega dos filhos, numa discussão que, regada a álcool, acaba por denunciar as fragilidades dos próprios progenitores e das respetivas relações conjugais.

A encenação da peça original da dramaturga francesa Yasmina Reza está a cargo de Diogo Infante, Rita Salema, Jorge Mourato e Patrícia Tavares, que se encontram a apresentá-la pelo país. Em Torres Novas esta comédia negra soube soltar gargalhadas, que não esconderam a empatia pelos personagens e pelos seus dilemas, assim como das várias particularidades da vida contemporânea e os temas da moda, do vício do telemóvel à realidade nem sempre cor-de-rosa da parentalidade.

A peça tem tradução e encenação de Diogo Infante, que ao mediotejo.net admitiu que o espetáculo tem esgotado várias salas, pelo que as expectativas para a cidade torrejana estavam em alta. O Teatro Virgínia é conhecido e reconhecido no mundo artístico e a equipa identificava-se com o espaço, pelo que Torres Novas entrou rapidamente na lista das cidades onde quiseram apresentar a produção.

A defesa dos filhos e a queda das aparências são o tema central da peça Foto: mediotejo.net

O público torrejano reagiu de forma semelhante a outros públicos mais urbanos, prova de que os “códigos” de interpretação são hoje transversais a toda a sociedade, refletiu o ator. “Viu-se pela reação fantástica, as pessoas riram nos mesmos sítios onde riram noutros” locais, referiu, “a peça é muito bem escrita a esse nível”.

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“Há um entendimento claro sobre aquilo que é uma ironia, um humor negro sobre a civilização em geral e sobre o comportamento das pessoas em particular, sobretudo quando sujeitas a determinadas situações, como é o caso quando temos que defender os nossos filhos”, afirmou. “Há uma agressividade latente que é potenciada à volta desse tipo de assuntos, mas no fundo aqui há obviamente uma crítica à natureza humana e à sua vertente mais agressiva, da qual todos nós fazemos parte”, comentou.

O “Deus da Carnificina” é um dos textos mais representados em todo o mundo, sendo já um “clássico contemporâneo”, motivos suficientes para impulsionar esta produção, adiantou ainda o ator e encenador.

À margem da atuação, o mediotejo.net questionou Elvira Sequeira sobre o regresso das salas cheias ao Teatro Virgínia e as críticas que se fizeram ouvir no último ano à direção de Rui Sena, sobre espetáculos dispendiosos mas sem qualquer atração de público.

A vereadora admitiu essa realidade, mas frisou que as críticas a Rui Sena não são inteiramente justas, uma vez que foi ele que deixou contratualizado, por exemplo, o espetáculo de Pedro Abrunhosa. “Nem sempre há espetáculos disponíveis, por parte dos criadores, também dependente das organizações”, refletiu.

“O que temos feito é tentar continuar a equilibrar as formas de expressão”, trabalho que, sublinhou, já estava a ser feito com Rui Sena. O último ano, admitiu, pode não ter corrido muito bem, mas tal não se verificou durante boa parte do período em que Rui Sena assumiu a direção artística do Virgínia. “Também temos que perceber o público que temos”.

Já sem Rui Sena, o “Deus da Carnificina” é um espetáculo de qualidade que conseguiu encher a sala. Aliar esta dimensão à adesão de público nem sempre é possível, constatou, mas o teatro está entre as referências dos artistas e é neste equilíbrio que o município quer continuar a trabalhar.

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