Torres Novas | Sala lotada para ouvir Daniel Sampaio: “A internet tornou evidente as dificuldades das famílias em comunicar” (c/vídeo)

Daniel Sampaio sugere a idade de 10 anos para dar o primeiro telemóvel aos filhos Foto: mediotejo.net

A sociedade de ontem e a de hoje, da televisão aos telemóveis e aos perigos da internet, ou a iliteracia digital dos mais velhos que os afasta dos mais jovens, tudo passou um pouco pela intervenção que o psiquiatra Daniel Sampaio realizou na quinta-feira, 29 de novembro, para um auditório completamente cheio na Biblioteca Municipal de Torres Novas. Um maior envolvimento emocional na vida dos filhos – longe dos paradigmas de autoritarismo ou permissividade que definiram outras gerações de pais – parece ser a solução para a parentalidade nos tempos atuais.

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“Do telemóvel para o mundo” é o mais recente livro de Daniel Sampaio, cuja temática da utilização dos telemóveis pelos mais novos conseguiu encher um auditório numa noite chuvosa e fria, numa adesão que surpreendeu o próprio orador. Mas antes de falar sobre as mudanças na comunicação potenciadas pela internet, o psiquiatra falou da família e do quanto esta mudou nos últimos 60 anos, trazendo novos desafios à interação entre pais, filhos e avós. “Neste momento as famílias têm muitas configurações”, constatou, onde a internet nos telemóveis apenas veio acrescentar outras tantas variáveis às formas de comunicação.

Para Daniel Sampaio a internet no telemóvel “é uma oportunidade única de comunicação na família”. A ideia de que esta veio prejudicar a comunicação é superficial, frisou, uma vez que “as pessoas já não conversavam muito antes da internet”, tendo esta apenas tornado “evidente as dificuldades que as famílias têm em comunicar”. O psiquiatra deixou assim algumas dicas de como procurar, de uma forma simples, momentos de qualidade com os filhos, estimulando-se a conversação.

Daniel Sampaio fala esta noite para um auditório cheio na Biblioteca de Torres Novas. Tema é sobre o uso do telemóvel por crianças e adolescentes

Publicado por mediotejo.net em Quinta-feira, 29 de Novembro de 2018

Veja aqui a palestra de Daniel Sampaio em Torres Novas. Créditos: mediotejo.net

Para o autor, o modelo de parentalidade autoritária que vigorou ao longo do século XX já não funciona no mundo de hoje, uma vez que os jovens têm acesso a muito mais informação e questionam facilmente a autoridade dos pais. Tão pouco, salientou, são solução os modelos de parentalidade permissiva ou negligente, onde não existem regras nem disciplina, e os jovens se perdem porque não têm orientação.

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O psiquiatra defende o estilo da parentalidade “persuasiva”. O conceito traduz-se num “envolvimento afetivo” com os filhos desde a infância, procurando cuidar, orientar e disciplinar, de diferentes formas ao longo do crescimento, através da empatia com a realidade do jovem, fornecendo assim competências aos mais novos para que sejam autónomos e tenham capacidade de procurar os pais quando enfrentam problemas. Crítico do excesso de proteção, o autor salientou que o controlo dos filhos “tem que ser ajustado à idade” e que a “a educação tem que ser para a autonomia”.

Foi neste sentido que introduziu a questão dos telemóveis com acesso à internet, que dominaram o mercado a partir de 2011. Os problemas de diálogo nas famílias já vinham dos tempos da televisão, constatou, mas hoje os adolescentes praticamente não vêem televisão, procurando apenas conteúdos na internet.

Sendo o telemóvel uma realidade do mundo atual, o psiquiatra deixa a proposta que se dê o primeiro telemóvel ao jovem pelos 10 anos, uma vez que marca uma mudança de ciclo e o início da pré-adolescência. Frisou ainda para não se cair na tentação de dar um telemóvel de teclas, uma vez que se traduz num estigma para os jovens num tempo em que toda a gente possui smartphones.

Torres Novas | Sala lotada para ouvir Daniel Sampaio: "A internet tornou evidente as dificuldades das famílias em comunicar" (c/vídeo)
Para Daniel Sampaio as escolas não devem proibir o uso de telemóvel, mas devem criar regras, criar um código ético de utilização e discutir o tema do ciberbullying em turma Foto: mediotejo.net

O telemóvel, porém, deve ser acompanhado de um conjunto de regras. “É na infância que temos que começar a fazer esta educação para os media“, salientou, criando-se disciplina na utilização e deixando os devidos alertas para os perigos. Para este modelo resultar é também necessário, defendeu, que os pais e avós façam um esforço para acompanhar o desenvolvimento da tecnologia, por forma a conseguirem manter o diálogo com os mais novos e criar envolvimento a partir de conversas sobre as potencialidade dos próprios telemóveis e das aplicações que marcam a vida dos adolescentes.

Daniel Sampaio manifestou-se contra a introdução de aplicações de vigilância parental que façam o controlo do telemóvel dos filhos e que permitam saber quais os conteúdos que eles procuram. Criar regras e estimular momentos de diálogo que vão ao encontro da realidade dos mais novos deve ser o caminho dos pais que querem criar relações de confiança.

Acreditando que os benefícios dos telemóveis superam os perigos, apelou aos professores presentes que desenvolvam as potencialidades dos telemóveis em sala de aula, com as devidas regras e disciplina.

À intervenção de Daniel Sampaio seguiram-se um conjunto de perguntas deixadas por pais e professores presentes, nomeadamente sobre os perigos do ciberbullying. O psiquiatra reconheceu o problema, até por ser “invisível”, ou seja, decorre durante meses até que os pais se apercebam. Defendeu assim a instituição de um código ético sobre a utilização do telemóvel nas escolas, refletindo que estas devem estar preparadas para discutir o tema do ciberbullying com os alunos.

Sobre a proibição do telemóvel dentro da escola, o psiquiatra afirmou-se contra. “É artificial”, salientou, uma vez que os jovens encontrarão sempre forma de usar os telemóveis. “O caminho da escola tem que ser o da inovação”, comentou, tornando a defender o uso do telemóvel em sala de aula.

“A adolescência tem sempre os mesmos problemas, o que muda são os atores”, constatou. “A educação para os media deve ser muito precocemente instituída”, referiu, frisando que as crianças precisam de coerência. Conforme concluiu, embora os jovens gostem de estar no centro do palco, também precisam e gostam que os pais permaneçam nos bastidores.

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