Torres Novas | Nuno Barroso, mais de 20 anos casado com a música (entrevista)

Nuno Barroso. Foto: mediotejo.net

Nuno Barroso sobe ao palco do Teatro Virgínia este sábado, dia 15, para comemorar 20 anos de carreira. O número 20 é simbólico pois a relação com a música é mais longa e vem dos tempos em que aprendeu a tocar cavaquinho, antes de entrar para a primária. Muitas histórias se seguiram, levando-o Além Mar motivado pela paixão. Fomos conhecer o cantor, músico e compositor que diz ter casado com a música e quer passar uma mensagem de esperança, paz e amor.

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O espetáculo marcado para as 21h30 do próximo sábado anuncia os 20 anos de carreira de Nuno Barroso celebrados em cima do palco do Teatro Virgínia na companhia de amigos. Por lá vão passar o pai, Pedro Barroso, e outros músicos como Nuno Norte, Noa, Yola Dinis, João Miguel, Carlos Peres Feio ou Guilherme Azevedo e Nelson Laranjo para assinalar o lançamento do primeiro disco dos Além Mar, em 1998.

No entanto, a música não surgiu na vida do artista nessa altura. A história tem mais capítulos e o primeiro começa cedo com um cavaquinho, antes de entrar para a primária. Antes da adolescência surgiram a primeira banda, os Anúbis, e a formação musical por terras lusas e reforçada além-fronteiras. Tudo para cumprir o “sonho” cedo anunciado aos amigos e à família e que continua a fazê-lo vibrar quando fala sobre como foi fazendo o caminho.

Sempre à sua maneira, com a obstinação e a descontração que assume serem traços vincados na personalidade. Facto comprovado no dia em que conversámos no palco que vai voltar a pisar para lembrar um percurso com passos dados “a solo”, outros com músicos de renome e, claro, na companhia dos Além Mar. Uma caminhada com mais de duas décadas em que Nuno Barroso assumiu como missão passar uma mensagem de esperança, paz e amor.

Fomos conhecer esta história com mais de duas décadas contada na primeira pessoa que prenuncia outras tantas. Uma entrevista em que não se falou apenas do passado. Para o futuro, em 2019, está previsto o lançamento do CD/DVD que vai ser gravado ao vivo durante o espetáculo no Teatro Virgínia e, antes, pode chegar a notícia de que o último álbum a solo ganhou contornos dourados…

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Nuno Barroso. Foto: mediotejo.net

mediotejo.net: Falamos em 20 anos de carreira, mas sabemos que não são 20 pois tudo começou muito antes. Vamos recuar mais no tempo até à altura em que a imagem de marca, o cabelo ondulado, ainda era curto. Quais são as primeiras memórias musicais?

Nuno Barroso: As minhas primeiras memórias musicais começam cedo porque o meu interesse pelo som, por acaso, foi algo bastante precoce. Também, obviamente, pelo facto de ter um pai músico e instrumentos em casa, o que motivou a minha curiosidade. Eu achava piada. Não dava assim demasiada importância, mas de vez em quando lá me interessava pela guitarra ou pelo piano.

O primeiro instrumento a que eu me dediquei horas e horas a fio, de repente… Eu sou uma pessoa um bocado obsessiva quando tenho “um brinquedo novo”, pareço quase uma criança… Esse primeiro instrumento foi um cavaquinho, quando tinha mais ou menos quatro anos de idade. O meu pai ensinou-me as duas posições do cavaquinho e eu fiquei a sangrar dos dedos de tanto tocar (aponta para a cicatriz).

Depois criei ali uma obsessão entre ritmo, melodia e harmonia. A partir daí tive essa primeira ligação. Enquanto não tocasse aquilo como não devia ser tocado não me iria sentir confortável.

Ou seja, a música deixou marcas, verdadeiramente, desde o primeiro momento…

Marcou verdadeiramente, não só ao nível de calos, mas também de ferida (ri-se).

Entretanto, surgiram apetites por outras curiosidades. O piano… «Toca só nas teclas brancas ou nas pretas» (lembra os primeiros ensinamentos). O meu pai comprou um piano quando ainda estava em Lisboa, nessa altura, e depois também comprou um aqui para os Riachos. Tem lá um Steinway maravilhoso de mil oitocentos e tal, que veio de Nova Iorque, uma coisa fantástica.

Também, a partir dos dois, três anos de idade, a minha mãe começou a levar-me para o apetite da música. Isto segue tudo um trajeto, não é? Depois meteu-me numa escola de música privada e a seguir passei para o ensino oficial da música na Escola Profissional de Arcos do Estoril, que era a escola de tradição russa do quarteto de Moscovo. E, a partir daí, começo a seguir o trajeto da formação musical académica.

Passa-se a aliar o gosto…

(interrompe) …passa-se a aliar a paixão pela escolha académica de vida. Então deixei a escola normal, com cerca de 14 anos, e passei a integrar o ensino profissional em que a minha área ficou a ser a música, literalmente. Também passei pelo Instituto Piaget e a London College of Music.

Falámos dos 14 anos, mas antes dessa idade houve outro pulo musical.

A banda Anúbis.

Sim. Há quem tenha o gosto e com o passar da idade o gosto perde-se e fica ali pelas memórias de infância, mas noutros casos…

(interrompe) Eu já sabia. Com 12 anos de idade disse aos meus músicos… aos meus músicos (ri-se)… aos miúdos que estavam comigo na garagem a fazer os primeiros ensaios! Comecei a fazer os Anúbis (a primeira banda) nessa altura e disse-lhes «isto vai ser a minha vida, se vocês quiserem entrar neste sonho…».

Foi desde essa altura… e o meu pai não gostou muito da ideia, mas a minha mãe percebeu que aquele seria o meu trajeto. A partir daí, foi-me encaminhando sempre para a área artística e eu, realmente, sentia-me 10 vezes mais feliz na área artística do que a estudar matemática ou outras disciplinas que não tinham nada a ver comigo.

Alguns momentos da carreira. Fotos: Nuno Barroso Produções

O gosto pela música era mais forte…

Na área da música eu sinto as vibrações dos sons como se fosse algo com o qual eu me consigo integrar, seja em que nota for. Ou seja, eu leio, quase que falo e quase que me explico através da vibração sonora. Portanto, para mim, a linguagem maior não é propriamente o português – que também é muito importante porque é assim que eu me expresso -, mas a vibração sonora. Eu consigo absorver isso energeticamente e exprimir-me dessa forma.

Essa é a melhor forma de expressão. Foi um dom que Deus me deu e eu tenho que o aproveitar e, claro, depois cultivá-lo porque sem cultivar esse apetite, essa paixão, não vamos a lado nenhum. Nasce do trabalho, da honestidade, da sinceridade com que fazes a tua carreira. Os teus talentos também se vão desenvolvendo à medida que os exploras. Uma coisa leva a outra e a verdade é que lá fui seguindo essa paixão.

Paixão que acabou por levar a muitos palcos. Quais foram os primeiros?

(ri-se) Com 10 anos de idade pediram-me para fazer de Michael Jackson na escola e cantar o “We Are The World”. Eu estava muito chateado porque ainda não sabia falar muito bem inglês (ri-se), mas lá aprendi, sem perceber muito bem o que estava a cantar. A mensagem percebi porque vi o videoclipe. Esse foi o meu primeiro espetáculo a sério. Um coro atrás de mim e eu a cantar como se fosse o Michael Jackson.

 Esse foi o primeiro espetáculo. Como foram os primeiros ensaios já com a banda?

NB: Os primeiros ensaios foram numa garagem em Sassoeiros (Cascais). O Pedro Nunes mantém-se até hoje nos Além Mar, o baterista e um guitarrista, infelizmente, já faleceram e há um guitarrista que também continua e tocou comigo no álbum “A vida dá muitas voltas” (lançado em 2005) e que fez para aí dez anos de estrada comigo, que é o Carlos.

As subidas ao palco com os Anúbis deviam encher o ego a um rapaz de 13, 14 anos…

Vou ser sincero. Não era… o meu maior apetite é a música e aquilo é a minha profissão. Eu encaro isso assim desde cedo. Isso é uma consequência que não me faz muita diferença porque sendo a música o meu maior amor o que estiver em volta torna-se irrisório. O principal é a paixão e o amor à música.

Claro que é giro haver um reconhecimento, às vezes não é assim tão engraçado porque também se perde um bocado de privacidade e eu tive momentos na minha vida em que isso foi mau.

Então, o pai (Pedro Barroso) tinha razão para não gostar da ideia do filho seguir a carreira de músico?

Não. Nunca segui esse conselho. Segui em frente, fiz a minha vida. Eu amo muito o meu pai, o meu pai tem a vida de professor e eu fui músico, só. São coisas diferentes. O meu pai é músico e cantor-autor e é um extraordinário poeta. É um poeta de eleição a nível mundial, no meu entender, e é um trovador.

Vem do tempo em que a arma era uma canção e a canção era uma arma e assim se fez a revolução de Portugal, se conquistou a liberdade. Havia poucas formas de expressão que pudessem ser explícitas ao vivo de forma a poder mudar a sociedade. Eu venho de uma geração em que, Graças a Deus, essa liberdade está conquistada e os meus interesses são a esperança, o amor, a paz, a liberdade.

Nuno Barroso. Foto: mediotejo.net

Obviamente, sou um filho dessa revolução, do 25 de Abril, e não deixo de ser filho de um trovador. Às vezes relembro Zeca Afonso. Cresci com os Sitiados, fizemos os nossos primeiros espetáculos juntos na zona de Carcavelos. Eu venho de uma área em que existe ali qualquer coisa que se integra, mas eu fiz os Além Mar, comecei com punk rock celta…

O vanguardismo, na altura da rebeldia dos teenagers, eu era uma espécie de ídolo idolatrado na área do punk rock da linha de Cascais e foi assim que comecei a minha carreira. Fomos conquistando o nosso público naquela zona e, depois, como tenho família aqui trouxe a sede, que era em Cascais, para Torres Novas. Primeiro em Riachos e depois mesmo em Torres Novas.

Então, oficializei o centro de ensaios e a sede dos Além Mar aqui. Mais tarde começam a aparecer o Luís Cascão, que também foi o meu baterista e é aqui de Riachos, o Samuel Henriques, que é aqui da zona de Torres Novas, o Carlos Lima, que é de Riachos, a Ana Rita Damásio, da zona de Peniche.

A banda começa a ter elementos integrantes do concelho de Torres Novas, para além de mim. O primeiro espetáculo foi em 1991, a sede passa a ser oficialmente em Riachos em 1996 e foi daqui que partiu tudo para o primeiro disco (intitulado “Além Mar”).

E porquê a escolha de “Além Mar” para nome da banda? Queriam ir além fronteiras?

“Além Mar” tem tudo a ver com o espírito da banda e a banda reflete isso. Uma cultura de mar, de portugalidade, de esperança, de conquista, de querer ir mais além – horizontes e fronteiras – no sentido de honrar a portugalidade e honrar essa conquista. Nós crescemos envolvidos numa cultura onde se promove o império de Além Mar e a conquista.

Porque o espírito de conquista faz elevar o nosso território, as nossas esperanças para um futuro melhor. É o espírito do guerreiro contra as marés e contra os oceanos. Aliás, os céus são o nosso próximo horizonte, a nossa próxima descoberta. Os céus irão ser desbravados como os mares foram desbravados em tempos por nós.

O espírito de Além Mar é um espírito de conquista, esperança, paz, amor, cristandade. Também está ligado ao espírito, à cruz de Portugal. Nesse sentido, eu reflito um pouco esse género de dinamismo, tanto cultural, como espiritual. Acredito muito nesses valores e penso que Portugal é um país cada vez mais afirmativo, cada vez mais forte a nível mundial e o espírito de Além Mar reflete o amor ao nosso país, à nossa pátria e aos nossos valores e ensinamentos.

Pegando no amor, falamos num tema que tem estado sempre presente ao longo do tempo…

O amor, a esperança, a paixão ao mar, à portugalidade. O quotidiano, por vezes, também me inspira, mas principalmente o sonho, essa esperança. As minhas mensagens… O que é que eu quero transmitir para o futuro? Penso que o ideal é transmitirmos mensagens de esperança, paz e amor porque é através disso que o sistema vibratório das pessoas pode alcançar níveis superiores. É nesse sentido que eu espalho esta mensagem. Desde de muito pequeno que decidi isso, não foi de agora.

Uma mensagem que tem sido passada quer com os Além Mar, quer a solo, quer através das músicas que escreve para si e outros artistas. Como tem sido conjugar estas vertentes ao longo da carreira? É um rodopio.

Eu tive a parte em que fui artista e compositor, com enorme sucesso. Número um em Portugal durante meses seguidos…

Estava à espera desse sucesso?

Estava porque foram dois anos de trabalho antes de sair o disco. Sabia que ia chegar ao ouro. Foi tudo tratado. Foram feitos 20 showcases em supermercados. As coisas foram planeadas com um excelente plano de marketing da MCA americana. Foi com eles que eu assinei o contrato de 25 anos de carreira. Entretanto, fiz mais dois ou três discos com eles e depois rescindi e fiz outros contratos.

De seguida, estive uns anos fechado a fazer produção televisiva na Santa Claus Audiovisual, a Ediberto Lima Produções, que foi a minha «noiva». Estivemos dez anos juntos e foi giro. Fiz muita televisão, Roda dos Milhões, Big Show Sic… tudo o que havia para fazer na Valentim de Carvalho. Era de manhã à noite, das nove às duas da manhã e depois de estar no estúdio, quatro anos a trabalhar fechado num cubículo, comecei a pensar «eu sou artista, também gosto de ir para o palco».

Estava metido na área musica de produção televisiva e então decidi voltar aos palcos. Eu gosto muito da vibração, de sentir o público, a energia das pessoas. Isso é algo inexplicável.

Alguns momentos da carreira. Fotos: Nuno Barroso Produções

O que sabe melhor? Os palcos ou o estúdio?

São coisas diferentes, não posso comparar. Há mais troca de energia quando se está em palco. É uma energia momentânea. No estúdio trabalhas… Por exemplo, uma vez trabalhei para o Canal Hollywood e fiz o Scrooge, o filme “Um Conto de Natal”, que depois passou nos cinemas. Dá-me gozo, mas o reflexo foi passado um ano e meio depois. Tem piada, mas a troca de energia não é imediata.

No palco a energia é logo «eu dou, tu recebes» e vice-versa. Aquilo vai começando a crescer, a crescer… As pessoas vão-se habituando, também, à minha forma muito informal de ser e acham piada porque não é muito comum.

Ou seja, o Nuno que aparece em palco é mesmo Nuno que anda por casa, de manhã, em pijama?

É muito parecido. (ri-se) Sim, sou eu. Não tenho duas personagens. Sempre fui assim e cheguei a ser criticado por ser um bocado diferente. Também conheço essa minha vertente. No Ribatejo, há 20 anos, as pessoas olhavam para mim e diziam «este gajo é muito maluco». (ri-se)

E nesses 20 anos, algo mudou?

Mudou muito! Isto está muito mais evoluído. Lembro-me de estar aqui (no Teatro Virgínia), quando o meu pai comemorou os 25 anos de carreira. Eu vim cá e, tantos anos depois, estou eu aqui a comemorar 20 anos de carreira? É interessante. Há 20 anos fizemos as festas da Nersant com oito mil ou nove mil pessoas, na altura batemos o recorde de vendas de bilhetes, para lançar o disco “Além Mar”.

Fizemos a Quinta da Valada, que foi o primeiro espetáculo de Além Mar, em Riachos. Gravámos o videoclipe “Deixa-me Olhar” na Quinta dos Carvalhais… Isto tem sido… e eu ainda não parei. Os outros têm que seguir a sua vida, porque nem toda a gente… É o que eu digo, o sonho é meu. Eu sou cantor e autor, portanto vou fazendo e vou continuar a fazer enquanto Deus me der saúde e vontade. Mas há-de haver um dia em vou parar.

É possível parar depois de uma paixão pela música assumida em criança?

Não, acho que vou dosear e pensar na minha vida de forma diferente. Já faço isto há muitos anos e, a certa altura, começa-se a pensar na vida de uma forma… Não sei… Eu já fiz todos os palcos de Portugal e, em alguns casos, três vezes ou quatro. Estádios cheios de Norte a Sul do país, Açores, Madeira. Depois há coisas que aparecem de forma esporádica, em Espanha, na França, na Suíça e outros países.

Na vida de artista conhecemos muito do mundo através da música. A música é que me deu oportunidade de conhecer o mundo e eu gosto de, a seguir ao espetáculo, ter duas horas ou três para ir passear pela cidade e conhecer o que existe fora do palco. Viver a estrada de forma a conhecer a estrada e não só fazer o espetáculo e vir embora.

Alguma vez pensou mesmo em parar?

(fica pensativo) Não gosto muito de falar sobre isso por isto é a minha grande paixão e eu casei com a música, mas sim.

Portugal não é um país fácil para artistas?

Não, nada disso. É uma profissão muito ingrata que exige muito trabalho e, às vezes, os artistas têm é que parecer bem e não têm que o ser. Tocar piano está fora de questão. Cantar, às vezes, está fora de questão. O que interessa é fazer tonteiras e aparecer na televisão a fazer playback. Isso, para mim, não é ser artista.

Ser artista é englobar todas as capacidades, melhorar todas as capacidades artísticas que tens dentro de ti e levá-las à mais alta nobreza da beleza e essa tem sido desprezada hoje em dia. Aquilo que se pretende é simplificar o sucesso. As pessoas procuram sucesso e não procuram ser artistas. Não procuram a arte, procuram o facilitismo e o materialismo na sociedade consumista.

Nuno Barroso. Foto: mediotejo.net

Mesmo assim não parou e a carreira foi continuando. Nestes anos existe algum momento que tenha sido marcante? É possível eleger um ou foram muitos?

(pensa um pouco e começa a rir-se) Tive situações… Em Cabo Verde, por exemplo, em que, mal cheguei, roubaram o material todo da banda. Não eram os Além Mar, mas Nuno Barroso a solo, e éramos cerca de 20 pessoas da produção. Cabo Verde foi a minha primeira visita a África e recuperámos as guitarras porque as trocámos por bolas de futebol (ri-se). Uma praia com oitenta mil pessoas…

Foram 20 anos a correr ou a passear?

(reflete um pouco) Eu acho esta vida tende a correr, demasiado. Passa tudo muito depressa. A vida passa num instante. Tenho uma música que se chama “A vida dá muitas voltas” em que canto (canta) “E tudo muda de repente / A vida muda num segundo / Amanhã vai ser diferente / Eu já quis mudar o mundo” e essa música reflete um pouco isso…

Isto tem sido… Isto não é fácil. As pessoas pensam «ah, é artista», mas não. Isto é amor, é paixão e é entrega porque Portugal teve uma altura em que estava de costas viradas para si próprio. Durante 10 anos eu vivi um período negro porque as pessoas não gostavam do que era português, apenas do que era inglês.

Nesses anos estive na Alemanha e formei uma banda, “Os Atlânticos”. Gravei em espanhol para a Universal, fiz dois álbuns… Foi quando estava na Alemanha que recebi a notícia que a música “Mais um dia” tinha recebido um Emmy com a novela “Meu Amor” (produção da TVI), que tem o José Cid a cantar.

Um entre os muitos momentos e prémios na carreira que vai ser celebrada neste palco. Como surgiu a ideia deste concerto comemorativo?

O primeiro disco de Além Mar saiu em 1998. Uma vez vim aqui ao Teatro Virgínia e lembrei-me do meu pai celebrar aqui os 25 anos de carreira dele. Eu quis fazer o mesmo. Não os 25 anos, mas os 20 – estamos a falar dos 20 anos de edições discográficas – e decidi convidar essa malta toda.

Vão estar aqui alguns antigos, a banda nova que me acompanha e que também faz parte da banda antiga, da parte de Carcavelos, Cascais, e que depois ficaram aqui…

Alguns momentos da carreira. Fotos: Nuno Barroso Produções

Podia ter decidido vir para o palco sozinho, mas não. Decidiu trazer os amigos.

Sim. Quero trazer alguns amigos deste álbum “Amigos e Duetos” (lançado este ano), inclusive o meu pai, que também é amigo e faz parte de um dueto que se chama “Voar para Ti”. O Guilherme Azevedo com a “Valsa do Amor”, o Nelson Laranjo com a “Seara”, a Yola Dinis com o “Amor ao Fado”…

Este é um CD que está a correr muito bem e existem expetativas para uma surpresa. Parece que sim, que vai ser entregue um disco de ouro. No próximo ano vai sair um outro álbum porque aqui (no concerto comemorativo dos 20 anos de carreira) vai ser gravado um CD/DVD.

É um espetáculo “três em um”.

Sim. Era para ter 20 canções (número associado aos 20 anos de carreira), mas vai ter mais porque eu vou fazer uma parte sozinho ao piano.

Passada a marca dos 20 anos, que não são 20, o que vem aí? Qual foi o tema que ainda não fez, mas que gostava de fazer?

Eu estou sempre a compor. Agora escrevi uma música que é (canta) “vamos balançar a sociedade, vamos dar asas ao pensamento”.

Acaba por ir um pouco ao encontro da questão quando referia que a música pode ser uma arma. Estamos a voltar a esse momento em que a música tem que abanar as consciências?

A música tem a obrigação e a sensibilidade de poder abanar consciências. É importante criar vibrações tanto positivas, como também de crítica. A arte tem a necessidade e a obrigação de fazer debater os valores atuais da sociedade, senão não é arte. A nossa profissão é sonhar e pensar, sermos poetas.

Ao conseguirmos debater, analisar, concretizar o sonho… debater a sociedade atual e transformá-la de forma a ser melhor e positiva. Não vamos transformar os nossos sonhos em algo que seja negativo para a sociedade. Agora, temos que traçar o caminho e o caminho faz-se andando, devagarinho. Os poetas têm essa coisa de abrir o caminho.

As pessoas da sociedade em geral estão sacrificadas. Trabalham que nem escravos, recebem pouco, trabalham muito, têm poucas férias, não têm tempo para os filhos, não têm tempo para nada. Mas, no próximo dia 15, aqui, vai haver tempo para nos divertirmos, para nos rirmos e para transformarmos a sociedade em algo melhor porque essa é mensagem de paz, esperança e amor que eu quero transmitir para a sociedade.

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