Torres Novas | Maria Helena Maia e as memórias que se fundem com a História

Maria Helena Maia. Foto: mediotejo.net

Maria Helena Maia inspirou-se em José Eduardo Vítor das Neves, nome presente na toponímia da terra onde nasceu, Árgea (Torres Novas), e no Entroncamento. O destino decidiu não seguir pelas ruas dedicadas ao médico e optou pela da placa de Maria Rosa de Oliveira, professora primária da mãe. Ensinou, escreveu e viveu a História. Lecionou as primeiras aulas sob o olhar atento de Jesus e Salazar, viu com os próprios olhos a criação da Comunal e assistiu ao Milagre de Tancos através dos testemunhos do pai. Às histórias da História juntamos a sua.

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Numa altura em que os livros da escola ainda cheiram a novos, fomos conhecer Maria Helena Maia, uma professora primária da “velha guarda” cuja carreira acompanhou a história da educação em Portugal. Começou nos tempos em que o ministro Carneiro Pacheco defendia o docente como “modelador de almas e de portugueses” e aposentou-se muito depois da ponte António de Oliveira Salazar se transformar na ponte 25 de Abril.

A democracia, diz, já existia dentro das suas salas de aula, com “Os Contos” de Eça de Queirós e outras leituras a intercalarem as impostas pelo Estado Novo. No entanto, não foi entre os manuais escolares que idealizou o futuro, mas sim com utensílios médicos iguais aos de José Eduardo Vítor das Neves, amigo da família, e Manuel de Oliveira Reis, padrinho do civil de Maria Helena e filho de Maria Rosa de Oliveira, a professora primária da mãe.

Os últimos viviam perto da casa onde nasceu e da que estreou depois de casar, onde fomos recebidos. Daquela que frequentou enquanto filha e irmã recorda-se da adega e do palheiro onde o pai, agricultor, guardava inicialmente a força dos bois e, mais tarde, a dos cavalos que davam potência ao motor do trator. Entre as memórias das mais de oito décadas de vida encontra também as da casa da caldeira e da destilação dos figos, antiga fonte de rendimento das gentes da terra.

Torres Novas | Maria Helena Maia e as memórias que se fundem com a História
Maria Helena Maia na porta da casa onde nasceu. Foto: mediotejo.net

Muitas vezes terá passado junto das figueiras quando não estava na antiga Escola Feminina que frequentou até passar com distinção o exame de admissão preparado em Carrazede (Tomar), terra natal do pai, na casa de uma antiga professora de Árgea. Aluna aplicada e curiosa, Maria Helena cedo começou a distinguir-se na escola e terminou o quinto ano com a melhor média do distrito de Santarém, 16 valores, a “mais alta que davam então”.

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Para tal, recorda, contribuíram os contos contados à lareira pela “prima Anita”, senhora “de muita idade”. Histórias entusiasmantes que afirma terem estimulado “muito a minha criatividade e a minha imaginação”. Um mundo imaginário que descobria “com uma atenção doida” e onde se cruzou com as princesas “Branca Flor” e “Rosa Azul”, pouco depois de brincar com “O menino da mata e o seu cão piloto”.

As figueiras e os contos deram lugar a Santarém, onde dividiu o tempo entre as aulas no antigo liceu e a casa dos tios onde ficou hospedada. A universidade era o passo seguinte que pretendia, mas Maria Helena é um dos muitos casos em que as notas da escola valem menos do que as poupadas pela família que na altura não conseguia sustentar os estudos universitários de dois filhos.

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Maria Helena Maia sonhava ser médica. Foto: mediotejo.net

O irmão, seis anos mais velho, frequentava o Instituto Superior Técnico e o sonho da bata médica foi substituído pela realidade da Escola do Magistério Primário de Coimbra. Quis o destino que o desejo fosse parcialmente atendido e chegou a ter uma experiência próxima das que ansiava profissionalmente. Intervenção divina? Talvez, já que a situação pode ser considerada como uma espécie de “Natal fora de horas”.

O primeiro é associado a 25 de dezembro, este não tem data certa e Maria Helena apenas recorda o momento em que encontrou uma mulher grávida encostada ao poço próximo da casa dos pais. Teve pena “de a encontrar resguardada com uma coisita de nada” e quando percebeu que a senhora não se estava “a sentir bem” decidiu ir chamar José Eduardo Vítor das Neves inspirada na frase que este usava regularmente: “aos pobres, aos argenses e aos amigos não cobro um tostão”.

O médico da CP chegou e a paciente de última hora foi levada para o palheiro, onde acabou por nascer Cândida. “Uma menina nas palhinhas deitada como o menino Jesus”, recorda sorrindo, a quem Maria Helena acabou por dedicar um dos muitos poemas que tem escrito ao longo da vida e que nos quais partilha a essência das “paisagens e dos factos que me sensibilizam”.

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Uma das histórias infantis do livro “Contos da Avó”. Foto: mediotejo.net

Pelas suas mãos não passou apenas a poesia compilada anos mais tarde na obra “Romã Madura” numa edição da Escola Dr. Ruy D’Andrade, no Entroncamento, onde deu aulas e emprestou o nome à biblioteca escolar que ali fundou. Passaram também os contos infantis reunidos no livro “Contos da Avó” que gostava de ver publicado e as teclas do piano que guarda em casa e nas quais toca com nostalgia enquanto conversamos.

As mesmas mãos das quais terá limpo o giz depois de escrever no quadro de ardósia uma vez obtida a formação exigida para lecionar. A primeira vez que deu aulas foi como professora agregada em Monsanto e a escolha do local deveu-se ao conselho do tio, que lhe assegurava ser zona de “boa gente”. Ali aprendeu a ser “uma boa professora” e relembra o ano “muito bom” em que as tardes eram passadas com os alunos e um padre “muito dinâmico”.

A escola de Monsanto deu lugar à antiga Escola das Tílias, no Entroncamento, antes de concorrer para a terra onde passou uma parte significativa da vida. Tornou-se efetiva e durante 12 anos foi a pé para a escola, a nova, ao encontro dos alunos em que, assegura, “muito raramente batia”. A régua apenas deixava de servir para medir centímetros nos casos “muito extremos”, como o do afilhado que muitas vezes “fugia e fazia parvoíces”.

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As histórias da antiga professora fundem-se com a História. Foto: mediotejo.net

A postura enquanto professora foi a mesma de estudante. Maria Helena refere que “tal como era para mim, que gostava de estar bem preparada quando ia para os exames, também gostava que os meus alunos tivessem uma preparação boa e fizessem boa figura”. O objetivo era “prepará-los bem” e cita com orgulho os examinadores que os recebiam em Torres Novas para admissão ao 5º ano quando diziam “os seus alunos sabem demais. O que uns sabem demais, outros sabem de menos”.

Missão cumprida a da docente a quem o padre Tomé Madeira, relembra, atribuía uma “memória excecional” quando falava da menina de cinco anos “que sabia a catequese toda dos da Comunhão Solene”. Reconhecida pela Pátria e por Deus, falta a Família para completar a trilogia do Estado Novo que Maria Helena chegou a sentir nos anos em que as matérias escolares eram lecionadas com a supervisão de Jesus Cristo na cruz ladeada pelos retratos de Óscar Carmona e António de Oliveira Salazar.

As professoras primárias do Estado Novo tinham estatuto próprio. Integravam o grupo incumbido pela “Direcção Geral do Ensino Primário” pelo Decreto-Lei nº 27-279, de 24 de novembro de 1936, de materializar o “ideal prático e cristão de ensinar bem a ler, escrever e contar e a exercer as virtudes morais e um vivo amor a Portugal”. O mesmo documento definia as condições dos futuros maridos, a quem era exigido “bom comportamento moral e civil” e “vencimentos ou rendimentos, documentalmente comprovados, em harmonia com os vencimentos da professora”.

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O piano. Foto: mediotejo.net

Maria Helena recorda o artigo 9º, segundo o qual “não se podia casar com maridos que ganhassem menos”. Naquele tempo, as provas do pretendente não tinham de ser apresentadas apenas ao Ministério da Educação Nacional. A autorização do pai era, igualmente, necessária e o jovem ferroviário teve a ajuda do primeiro pároco do Entroncamento, padre Martinho Gonçalves Mourão, que é tema da exposição temática patente na Galeria Municipal do Entroncamento até ao dia 9 de novembro.

O sacerdote acabou por ajudar a lançar a primeira pedra do casamento entre Maria Helena e João, depois de ter contribuído para as que suportam hoje a Igreja Matriz do Entroncamento (Sagrada Família), inaugurada em 1940, e a capela que deu origem à Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em 1949. Martinho Gonçalves Mourão era “muito amigo” da tia de José Eduardo Vítor das Neves, uma cristã devota que começou por dar as “boas recomendações” a ela.

Maria Helena acabou por aceitar o pedido de namoro e aos 26 anos “arranjou um marido extraordinário” que lhe deu três filhos, “a São, o Luís Filipe e a Maria João”. É à terceira que pergunta pelo “napperonzinho” que chegou a mostrar à regente do posto escolar de Árgea, um dos espaços que o Estado Novo apelidava de “escola aconchegada da terra pequenina”. O pano bordado foi encontrado numa das gavetas das cómodas em que as imagens de santos partilham outro napperon com antigas licoreiras de vidro.

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A busca pelo “napperonzinho” que mostrou à regente do Posto Escolar de Árgea. Foto: mediotejo.net

Pelos móveis e nas paredes surgem as obras de arte do filho e as fotografias de família. Entre elas está a moldura com as dos pais e aponta para a testa do agricultor de Árgea que também foi soldado na Primeira Guerra Mundial. A cicatriz que a antiguidade da imagem não deixa ver recorda a passagem pelo CEP – Corpo Expedicionário Português, preparado em tempo recorde pelo General Norton de Matos na “cidade” de Paulona criada no Centro de Instrução de Tancos.

Maria Helena conheceu o “Milagre de Tancos”, nome pelo qual ficou conhecido o episódio, através dos testemunhos de um dos 20.000 homens que partiram para combaterem as tropas alemãs na Flandres. A nove de abril de 1918 o pai não estava em La Lys porque tinha sido ferido antes e Maria Helena considera que “isso foi provavelmente a salvação dele”. A avó partilhava a opinião e mandou fazer um altar na igreja de Carrazede (Tomar) em jeito de agradecimento pela guerra não lhe ter roubado o filho.

A professora conta como o pai tirou o capacete metálico da cabeça numa luta “corpo a corpo” e atingiu o inimigo que entretanto tinha conseguido entrar na trincheira. Mais tarde, já no hospital de campanha, o português apertou o braço ferido do alemão que gemeu de dor em francês “non, je suis blessé” (não, estou ferido), ao que o pai respondeu “moi aussi” (eu também). A empatia gerou-se com um “c’est la guerre” (é a guerra).

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Os pais de Maria Helena Maia. Foto:mediotejo.net

A História não foi apenas lecionada e conhecida através de relatos. Também a viveu na primeira pessoa e Maria Helena acompanhou o arranque do antigo ciclo preparatório, atual segundo ciclo do ensino básico. Tinha decido voltar a estudar e passou a estar habilitada para as aulas de Português e História na antiga Escola Preparatória Dr. Ruy D’Andrade, hoje dedicada ao ensino básico e secundário.

Concorreu e conseguiu colocação “a ganhar o dobro e com muito menos trabalho”. Da nova experiência lembra que “era uma aula de cada vez, eu não me cansava nada”, achando “graça” quando as colegas se admiravam com a sua energia ao final do dia. A causa era simples, justifica: “pudera, estava habituada a um esforço muito maior”. Não parou até ao dia em que escreveu a data no quadro pela última vez, nem quando o médico a impediu de dar aulas devido ao problema nas cordas vocais.

A sua história escreve-se, igualmente, na primeira pessoa no capítulo do livro “Árgea, história e património” cuja autoria dividiu com Maria Manuela Poitout e Luís Miguel Batista, em que as memórias recuam à época do PREC – Processo Revolucionário em Curso. Mais precisamente a novembro de 1974 e à criação da Comunal de Árgea, a cooperativa de produção agrícola para a qual, segundo a edição do Jornal Combate de 16 de maio de 1975, terá cedido alguns terrenos.

Torres Novas | Maria Helena Maia e as memórias que se fundem com a História
Cada fotografia traz uma memória. Foto: mediotejo.net

As páginas da monografia lançada pelo município de Torres Novas acrescentam outros factos, como o momento em que dezenas de militares “invadiram Árgea boicotando as diversas estradas”. Uma delas era onde Maria Helena seguia com os filhos no carro a caminho da escola. A viatura foi revistada em busca das armas que se acreditavam escondidas, nunca encontradas, e estava lá quando as mulheres demonstraram o desagrado pela ocupação batendo “tachos e panelas”.

Também assistiu, em 1977, ao fim da experiência caraterizada por um dos fundadores no Jornal Combate como um projeto que pretendia “acabar com a mentalidade individualista” e assegurar rentabilidade “para dividir por todos”. Outro fundador declarou ao Jornal Século Ilustrado que “a formação de cooperativas como as entendemos e experimentamos aqui revolucionarão a agricultura e transformarão os agricultores. É evidente que não viemos para um convento. Isto é uma militância”.

Da Comunal não recorda apenas os edifícios e os equipamentos, mas também as peças de teatro que o grupo levou a cena na Sociedade Instrutiva, Recreativa e Musical Argense que ainda hoje existe e onde participou nos espetáculos desde menina. Primeiro como atriz e depois como encenadora e é nesse papel que pode regressar uma vez que foi convidada há pouco tempo e pondera responder afirmativamente ao convite “se a saúde permitir”.

Maria Helena ainda não sabe o que poderá surgir no palco caso decida aceitar o desafio. Uma coisa é certa, histórias e memórias não lhe faltam, envolvidas pela poesia, o som do piano ou o imaginário dos contos infantis. Talvez devesse inspirar-se nas suas, que acompanharam as do país que começou por dar a conhecer no estrado da escola.

*Reportagem publica em novembro de 2017, republicada a 8 de novembro de 2018

1 COMENTÁRIO

  1. aminha professora amiga e porque nao aminha segunda mae tudo o quesei hoje uma grande parte lhe devo a ela obrigada por todos os momentos que dispenssaste comigo ensinaste ne a ser o qyw sou hoje para ti muitos beijinhos para sempre no meu coracao e ao mediotejonet muitos parabens pelo vosso trabalho

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