Torres Novas | Manuel “Pé Leve”: “só me sinto feliz a trabalhar” (c/vídeo)

Há histórias que se contam pelo exemplo da personagem, não pela narrativa. Esta é uma delas. Na charneca de Riachos, nos tempos da fome da II Guerra Mundial, Manuel Carvalho Simões – “Pé Leve” para a vizinhança e amigos – começou a aprender que nada se consegue na vida sem trabalho árduo, embora nem sempre pago da melhor maneira. Mas tinha fome e, para comer, teve que ir trabalhar. A 3ª classe ficou pela metade, pois desmaiava com a fraqueza nas aulas. A sua vida foi feita nos campos, a saltar de patrão em patrão, até que por fim arranjou um trabalho bem pago na Companhia Nacional de Fiação e Tecidos. Pelo caminho ganhou nome no associativismo riachense, percorrendo praticamente todas as associações locais, o jornalismo e até a poesia. Hoje é uma das figuras remanescentes da história do último século de vila, terra tão dada a criar heróis que nos perguntamos de onde surge tal força.

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Com 87 anos, Manuel “Pé Leve” vive sozinho na sua casa, uma moradia térrea em Riachos com um quintal nas traseiras, reconhecendo que é por ali que ocupa boa parte dos seus dias. Recebe-nos num dia frio de inverno, fazendo-se a conversa entre mantas e um velho aquecedor, enquanto a tarde vai caindo na rua.

Com a 4ª classe já concluída na tropa – “mal feita”, conforme comenta – tal não o impediu de a dado instante começar a enveredar pelas letras, com características crónicas publicadas no jornal “O Riachense” que dissertavam sobre um tempo e um modo de vida que gradualmente se ia perdendo no pós-25 de abril. Hoje disser-se-ia que Manuel “Pé Leve” apelou ao mercado da nostalgia, com textos que narravam eventos e pessoas que se encontravam num passado recente mas que, num país que passou por uma profunda transformação em poucas décadas, já compunham a história de Riachos.

Torres Novas | Manuel "Pé Leve": "só me sinto feliz a trabalhar" (c/vídeo)
Aos 87 anos, Manuel Carvalho Simões é uma das figuras da vila de Riachos Foto: mediotejo.net

“Pé Leve”, explica, é alcunha de família, proveniente de um bisavó que, face a um eminente trabalho de parto de uma irmã, correu ligeira a chamar a parteira. O nome pegou, associado a uma gente desenrascada, trabalhadora, que não sabe estar quieta. Talvez por isso, reflete Manuel, tenha chegado tão são à bonita idade de 87 anos (88 em abril), ainda capaz de citar poesia e de fazer a sua vida sem cuidados de maior. “Se eu me encostasse, vinha o tédio”, comenta.

Não estudou em criança, mas foi um estudante toda a vida. Da infância lembra-se da fome que a guerra de 1939-1945 trouxe ao país, não obstante não se ter repetido a participação nos campos de batalha que marcara a geração anterior. “Salazar disse que nos livrava da guerra, mas não nos livrava da fome”, recorda. Faminto, Manuel desmaiava na sala de aula e ia fazendo de moço de recados em troca de comida. “No tempo da guerra eu passei fome que ninguém calcula”, recorda.

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“Éramos oito irmãos, todos a trabalhar no campo. Havia semanas que não se ganhava um tostão”, comenta. O pai trabalhava numa destilaria, mas apenas no inverno havia serviço. Assim, com 13 anos, o progenitor entregou Manuel ao cuidado de um indivíduo que, a troco de comida, o colocou a guardar um meloal. Assim ficou “Pé Leve” durante um ano, passando fome na mesma, sobrevivendo à conta de tomates que polvilhava com sal.

Enquanto adolescente, foi saltando de proprietário em proprietário, trabalhando a terra e cuidando de campos agrícolas a troco de comida e roupa. “Passei coisas do arco da velha”, recorda, chegando a atingir as 22 horas de serviços. Mesmo quando ganhava algum dinheiro, o patrão “pagava-me pelo preço das mulheres, porque era um rapazola”.

De guardador de hortas passou para as grandes quintas, tendo trabalhado na Quinta da Cardiga a cuidar das vinhas, e posteriormente por uma vacaria. Regressara aos campos quando chegou o tempo a tropa, aos 21 anos, e foi aí, em Mafra, que conseguiu obter o diploma da 4ª classe, o que lhe permitiu procurar empregos mais bem remunerados.

“Não se vive só do lazer. É preciso água, trabalhar na terra”

“Fui novamente para os campos”, lembra, “mas depois fui abrindo os olhos e tive alguma ambição”. Passou pela Fábrica Torrejana de Azeites, cultivou cânhamo, até que surgiu uma oportunidade para integrar a Companhia Nacional de Fiação e Tecidos como fogueiro, onde permaneceu até aos 60 anos. A fábrica começou a dar os primeiros sinais de insolvência e optou por sair, fazendo vários serviços até à chegada da reforma.

Ao mesmo tempo, foi-se envolvendo com a comunidade, reativando as marchas de Riachos e integrando as várias associações de vila, como a Filarmónica Riachense ou o Museu Agrícola de Riachos. Entre elas destaca-se o Clube Atlético Riachense, do qual foi presidente e onde permaneceu cerca de 15 anos, interessando-se pelo atletismo. Destaca por tal o respeito que se deve ter pelas crianças e o quanto o repugnam as histórias que vai escutando de pedofilia.

“O meu forte era trabalhar”, vai repetindo, tal a quantidade de serviços por onde passou, as funções variadas que exerceu e as muitas horas que trabalhou desde a infância. Talvez por isso, reflete, seja uma figura tão respeitada na comunidade, o que lhe valeu uma medalha do município de Torres Novas em 2015, a qual muito o emocionou. “Vêem em mim a honestidade e a vontade de trabalhar”, comenta. “Só me sinto feliz a trabalhar”.

Torres Novas | Manuel "Pé Leve": "só me sinto feliz a trabalhar" (c/vídeo)
Autor de quatro livros sobre Riachos, Manuel Pé Leve recorda episódios que marcaram a vida da terra e a poesia local Foto: mediotejo.net

A educação formal que não teve em criança, foi-a procurando na idade adulta. Um curioso confesso, gosta de ler livros de História e de poesia. No jornal “O Riachense” ficaram conhecidas as suas crónicas sobre episódios da vida de Riachos, que acabariam a ser compiladas num livro, com edição da Câmara Municipal. “Eu apanhei esta mudança da lavoura para os tratores. Conto muitas destas histórias, o quotidiano daquele tempo”, explica, narrativas que foram surgindo numa altura em que ainda havia memória e que ficaram assim registadas.

Noutro livro compilou várias poesias de Riachos, cantigas conhecidas da terra. Entretanto publicou uma sequela de ambas as obras, em edições de autor. Na senda deste amor às letras, foi um dos fundadores do Núcleo de Artes de Riachos. Encontra-se a preparar novo livro, mas não adianta quando será lançado.

Manuel “Pé Leve” é um poeta, um nostálgico pensador da condição humana e da vida na ruralidade torrejana. “Não se vive só do lazer. É preciso água, trabalhar na terra”, constata. Entre a humildade e honestidade, há também a consciência que beneficiou de algumas das transformações do mundo durante a época que viveu, que algumas oportunidades surgiram porque muitos decidiram partir e que é preciso plantar para colher. Hoje, preserva o hábito de todos os dias registar num caderno os acontecimentos diários. Por vezes, admite, emociona-se com o que lê. “Tenho 20 cadernos escritos”, confessa.

Voltando ao princípio, há personagens cujo exemplo supera largamente qualquer narrativa. Homem do campo, da terra, do lavradio que hoje é praticamente desconhecido da maioria dos jovens, Manuel “Pé Leve” é uma das últimas testemunhas de um mundo que já não existe. O que conquistou seria provavelmente impossível na mente do rapazola de 13 anos que guardava meloeiros e comia tomates com sal. Hoje possui a estima de um comunidade e conseguiu deixar a sua marca na história local.

Haverá sucesso maior que esse?

 

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