Torres Novas | Faleceu João Espanhol, o eterno trovador torrejano (c/vídeo)

Faleceu no sábado, 9 de fevereiro, aos 90 anos, João José Lopes, mais conhecido  como João “Espanhol”. O funeral está marcado para as 10:30 desta quarta-feira, ficando o seu corpo sepultado no cemitério de Torres Novas. A partir das 18:00 desta terça-feira, João “Espanhol” fica em câmara ardente na casa mortuária da cidade. 

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A sua casa de ferragens, a Casa Espanhol, encerrada a 30 de maio de 2018, é um espaço mítico do comércio tradicional de Torres Novas, como também o era o seu proprietário, figura da música ligeira portuguesa, vencedor ribatejano do programa “À Procura de uma Estrela”, de 1953. João “Espanhol” segue o amor da sua vida, Celina, falecida o ano passado. A música, a luta pela justiça social, e a filiação no Partido Comunista, traçaram o seu percurso e deixam uma marca indelével na História torrejana. 

Voltemos ao início. João José Lopes: João “Espanhol” para os amigos. Nascido e criado em Torres Novas, cantador de serenatas e vencedor ribatejano do programa “À Procura de uma Estrela”. Comunista de filiação e guerreiro de coração, a sua vida foi uma luta contra a pobreza e pela justiça social, um bem pelo qual se deve dar a alma. Vocalista durante 50 anos do Grupo Niger, correu o país a dar nome a Torres Novas.

João “Espanhol” em 2016 Foto: mediotejo.net

Proprietário da loja de ferragens “Casa Espanhol”, aquele que foi o mais antigo negócio da cidade torrejana até ao seu encerramento em maio de 2018, criado nos anos 20 do século passado pelo pai galego de João que acabaria por aportuguesar o sobrenome “Lopez”.

João “Espanhol” e os irmãos tornaram-se responsáveis pela loja de amolar quando este tinha apenas 11 anos, na sequência da morte do pai. Na época o estabelecimento já tinha a sua dose de história, uma vez que o pai recebera ali vários foragidos da Guerra Civil espanhola. Inicialmente na cave do antigo Teatro Virgínia, foi transferida há cerca de 50 anos para a rua por trás da Praça 5 de Outubro.

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Por duas vezes o mediotejo.net entrevistou João Espanhol, a primeira em janeiro 2016 após uma homenagem municipal e a segunda no último dia em que a Casa Espanhol esteve em funcionamento. De sorriso aberto, sempre disponível para cantar uma serenata, ficará na memória da nossa reportagem o ímpeto com que cantou o “Grândola Vila Morena” no 25 de abril de 2016, fechando o momento com um beijo apaixonado à esposa, a companheira de vida e de luta de uma vida.

João Espanhol teve um último dia de trabalho bastante agitado, com uma encomenda que o manteve a trabalhar durante a tarde. A foto é de 30 de maio de 2018, último dia da Casa Espanhol Foto: mediotejo.net

João “Espanhol” começou por entoar serenatas à janela das donzelas, a dele e a dos outros, por mote próprio ou por encomenda. Nos seus 16/17 anos, já todos os seus amigos haviam sido presos. Como ia para a rua cantar, acabou por afastar-se da imagem de opositor do regime.

“Só depois do Humberto Delgado é que me tornei mais ativo”, referiu em entrevista ao mediotejo.net, acabando por aderir ao Partido Comunista quando este se oficializou. Era o militante nº 88034. “Uma vez, num congresso em Aveiro, em 1969, fugimos da polícia. Não levei, mas a minha mulher ainda levou uma bastonada”, lembrava, rindo.

Por esta altura, João Lopes já participara no concurso de rádio “À procura de uma estrela”, tendo vencido a edição nacional, depois de ter conquistado a mesma vitória a nível distrital. Como concorrência tinha a jovem fadista Lídia Ribeiro, recordava. O programa foi cancelado pouco tempo depois por motivos políticos e os concorrentes ainda foram à Assembleia da República contestar. “Sujeitámo-nos a muito”, disseram-lhe depois.

“Não queria ser cantor profissional”, reconhecia João Lopes. Mas regressado a Torres Novas, em 1955, recebeu o desafio de um amigo para formar um grupo musical. Assim nasceu o Grupo Niger! “Foi um grupo que deu muita alegria aos torrejanos”, lembrava o vocalista, salientando que chegaram a atingir muito boa qualidade e que muitos se admiravam daquele grupo ser oriundo de Torres Novas.

antiga oficina da Casa Espanhol Foto: mediotejo.net

Percorreram o país, atuaram em casinos e festas e mantiveram-se no ativo durante 50 anos. “Não era o fim que desejava”, comentava, lembrando que o grupo terminou e se dividiram os instrumentos, quando João Lopes gostaria que tivesse continuado com gente nova.

Quando encerrou a loja em 2018, João “Espanhol” emagrecera significativamente e notava-se já o avançar da idade. Deixara de cantar, decisão que o marcara, e aceitara a inevitabilidade de não ser capaz de continuar a manter o negócio aberto. Algumas semanas antes a CDU propusera em assembleia municipal que a “Casa Espanhol” fosse transformada num espaço de memória, como um museu, mas até à data não há um projeto oficial para o espaço.

Ao que o mediotejo.net conseguiu apurar, João “Espanhol” estava internado no Hospital de Torres Novas, onde faleceu.

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