Torres Novas | As histórias que nos contam “Os Rostos da Alma” de Antero Guerra

Os rostos de Antero Guerra. Foto: DR

O artista plástico Antero Guerra lança na tarde deste sábado, 24 de novembro, o livro “Os Rostos da Alma”, no Convento do Carmo, em Torres Novas. O evento, integrado nas comemorações dos 100 anos do jornal O Almonda, decorrerá entre as 15:00 e as 18:00.

PUB

Neste livro, o autor retrata “a paisagem humana dos que por aqui andam ou andaram”, os que “aqui aportaram vindos de longe” ou “aqui trabalham ou trabalharam”. Foram escolhidos de forma livre, quase aleatória. São, como diz o autor, “rostos fantásticos que contribuem para a história de Torres Novas”.

Auto-retrato do autor

O prefácio do livro é assinado pelo escritor António Lúcio Vieira, que aqui partilhamos com a autorização do autor.

ANTERO GUERRA – Um Rosto Para Mil Retratos

Não teria ainda quinze anos. Baixo, magrito, cabelo solto e comprido, a cair pelos ombros, como era uso na época; algo nervoso, talvez devido ao mundo novo que na vila se lhe abria; os olhos inquietos, como se quisessem, em cada relance, absorver todo o pulsar da vida em redor.

PUB

Era, ainda acredito, o estágio para um percurso que havia de revelar um deslumbrante eclodir de imagens raras, pedaços de vida e de mundo, tão belos e singulares e depois tão simples e naturais que, pela sua singeleza, se manifestaram, rendidos, ao comum dos homens.

Estava-se nos primórdios da década de 1970 e o mundo não suspeitava que, muito em breve, o país despiria a velha pele e se vestiria de esperança, de sonhos e de uma nova e incontrolável seiva.

Não tenho, bem o sei, especial jeito para elogios banais. Sobre o Antero Guerra, que quase conheço das raízes, apetece-me sempre dizer que, como raramente a espécie a que pertencemos nos concede, nasceu bafejado pelo halo de um invulgar talento. Assim mesmo, sem lhe tirar uma vírgula. Olhem-lhe a poética explosão de belo da obra com que nos brinda e atrevam-se a, levianamente, afirmar que exagero.

Bem sei que não estou a desvendar o mistério das descobertas. Não invento – já o disse – o elogio banal. As palavras de afecto que me ouvirem ou lerem, sobre homens assim, dotados mas discretos, como ele sempre foi, serão por ventura pobres e parcas para descreverem a dimensão e a sapiência dos que souberam guindar-se ao pódio dos eleitos.

Antes de tudo havia a escrita das imagens, imortalizada na bruta rocha das grutas, ou nas paredes escarpadas das montanhas onde, os que iniciaram a aventura do homem, necessitaram deixar a sua tímida visão do que os cercava, do seu quotidiano e dos seus deuses. Em traços tão limitadamente primários e que, ainda assim, nos trazem ao imaginário o movimento e quase nos permitem escutar os sons da vida. Só infinitos milhares de anos mais tarde o homem havia de conseguir que a arte e a técnica no-lo mostrassem, sem que para tal fosse necessário recorre à imaginação.

Um dia, tempos depois do meu regresso da Guiné, uma rudimentar câmara de cinema de 8mm, adquirida em Bissau, havia de chegar às mãos, sempre avidamente curiosas, do Antero Guerra. Por essa época já ele nos havia ensinado, ao longo do tempo, com a destreza e a inquietude do seu traço, esta glorificação de nós próprios e este deslumbre pelo mundo em que nos movemos. As paisagens e o respirar dos rostos dos homens com quem cruzamos o olhar, eram já a matéria com que alimentava aquela indomável ânsia de nos colocar frente aos nossos espelhos e de nos abrir as janelas para a vida que nos pautava os dias.

O ser humano ainda crê ser o centro do universo dos saberes e dos sentidos. E é esse tão vulgar ser humano, que habita em nós, que ele nos lança ao olhar, como se nos despisse e revelasse o que somos tal como somos. Os seus tão vivos retratos são esses rostos desse humanismo, que a imortalização da imagem nos revela. Há em cada rosto, saído das suas mãos, uma voz presente, um sopro da vida e um registo para o eterno.

E quase nos espanta constatar que, afinal, tanta talentosa visão é obra de meras luzes e sombras e bruscos traços, aparentemente descuidados e plasmados sem retoques nem minúcia pelo seu criador. E ainda assim está lá tudo o que é essencial, para mostrar a alma humana, nuns breves registos a preto, sobre o branco de uma folha à espera de ser arte.

Nada sei dos segredos nem dessa magia de criar imagens a partir das cores. Talvez nem necessite. Mas sei o suficiente do Homem e dos intrincados meandros da sua humanidade. Antero Guerra, cedo sentiu esse respirar do ser humano, aprendeu-lhe os saberes e banhou-se nas sagradas águas das suas nascentes. E revelou-o aos seus fiéis, como quem abre as portas da alma de cada um de nós e nos vai dizendo: “vejam, estes que aqui vos deixo são os meus mais amados modelos. São os nossos iguais, com os quais comungo a magia da existência.” Não era mais do que o repetir dos gestos dos nossos primitivos, quando rasgavam a pedra para que o homem se tornasse tão supremo e eterno como os deuses.

Um dia, dizia atrás, uma rudimentar câmara de cinema chegou-lhe às mãos. Desde esse dia, o criador de imagens paradas, retidas no tempo, tornou-se o homem de cinema e, tempo mais tarde, das experiências televisivas. Foi cúmplice em alguns dos meus devaneios cinematográficos, enquanto criava os seus, com o estilo e, por vezes, a irreverência de quem, por insatisfação, procura sempre a outra face das coisas. Era de novo o apelo da imagem, agora em movimento, a perturbar-lhe a existência, como se o revelador de rostos e paisagens se sentisse incompleto sem o movimento e os sons, que apenas se imortalizam em cada fotograma.

Antero Guerra Inácio, trazido para Torres Novas na verdura dos anos, oriundo das agrestes paisagens do seu rincão natal, algures em Alqueidão da Serra, para as bandas de Porto de Mós, é hoje, na modéstia de uma quase visceral timidez, o exemplo, algo discreto, dos mestres que souberam guindar-se ao Olimpo, embora nele – o homem e o artista – os lugares eleitos não se disseminem muito para além do coração dos seus fiéis e rendidos seguidores.

Não, não exagero. Antero Guerra mostrou a sua obra onde quiseram conhecê-la, conquistou prémios nacionais e internacionais e, ainda assim, poucos o conhecem no seu país. Nada que nos surpreenda. A obra, tão diversa, que nos lança ao olhar, que se abre desde quase os esboços a tinta-da-china aos óleos e aguarelas de uma fidelidade arrepiante, do retrato e auto retratos ao recanto campestre, é uma viagem, mais pelos registos que lhe vemos brotar dos sentidos, do que pela mestria que os pinceis lhe imprimem na tela.

Desta mão cheia de retratos de figuras torrejanas, a primeira de uma vasta série, entretanto recolhida noutras paragens, descobre-se, em cada rosto, um sopro da alma do modelo retratado e cada rosto ali presente é, nestes tão vivos e fiéis traços do Antero, uma centelha de vida que as expressões apenas tornam perene.

E tudo isto, dito assim tão despretenciosamente, por quem da arte da imagem modestamente sabe o que os olhos lhe levam aos sentidos, apenas para dizer que as obras imortais dos grandes mestres, só se conseguem através do fulgor e da magia que somente brotam das mãos eleitas dos singulares criadores.

Bem vos avisei: nada sei dessa sublime Arte de mostrar o mundo e a vida, de um modo tão íntimo e comovente como o Antero nos mostra. Mas sei muito sobre os homens. Já antes o disse. E sei dos seus talentos e das suas genialidades. Apenas por isso me atrevi a falar-lhes aqui dele, com as palavras que apenas se reservam para dizer dos homens que aprenderam a voar e cujo engenho os impele para mais alto, sempre mais alto, na infatigável demanda da pedra filosofal.

Antero Guerra não é único e não pretende a túnica dos génios, mas é, indubitavelmente, bem grande entre os grandes; um mestre nessa Arte tão transcendente e tão sublime e tão fundamental que, já no advento da humanidade, fez de alguns de nós, esta espécie tão estranha e singular, o ente capaz de criar o belo e lança-lo ao futuro, privilégios a que só alguns têm acesso, antes de atingirem a imortalidade.

É, por tudo isso, uma honra e um privilégio, Antero, ter-te junto ao peito e saber-te entre nós.

António Lúcio Vieira

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here