Torres Novas | Ambiente de trabalho autoritário ou de subserviência prejudica empresas – Abel Pinto

Gestor numa empresa com cerca de 800 funcionários, Abel Pinto defendeu uma cultura de trabalho assente na autonomia, transparência e onde impere o diálogo Foto: mediotejo.net

O economista Abel Pinto foi o orador da conferência “Trabalho Digno Para Uma Nova Cultura”, que decorreu na sexta-feira, 29 de março, na Biblioteca de Torres Novas. Na sessão defendeu-se a aposta no desenvolvimento de uma nova cultura laboral, que se afaste do tradicional modelo chefe/subordinado, criando ambientes de diálogo, com graus de autonomia, por forma a estimular a criatividade.

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Uma cultura laboral excessivamente autoritária, defendeu o economista, e assente no “medo”, acaba por prejudicar, nem que seja a longo prazo, as próprias empresas.

Abel Pinto começou por salientar aos presentes que já esteve nos vários papéis do mundo laboral: foi funcionário, sindicalista e hoje é gestor. “O mundo do trabalho é fortemente condicionado por muitos fatores”, reconheceu, começando por analisar a influência excessiva que a especulação financeira desempenha na economia e, em consequência, nas empresas.

“A economia mundial é equivalente a uma economia de casino”, onde a mercadoria predominante é o dinheiro, mas em que a maioria dos impostos acabam por ser pagos pela economia associada aos bens e serviços essenciais. Neste cenário, as empresas acabam a deslocalizar-se para sítios onde há menos regulamentação e é mais fácil explorar os trabalhadores.

Prevalece assim um mundo desigual, onde a própria política se torna refém da especulação financeira. Nas empresas, esta realidade traduz-se numa maior pressão sobre os trabalhadores, que acabam por aceitar condições contínuas de precariedade. “Mas a precarização do mundo do trabalho é também perniciosa para as empresas”, defendeu.

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Para Abel Pinto predomina em Portugal uma cultura laboral de chefe/subordinado, autoridade/subserviência, que deve ser combatida. No seu discurso apontou vários sintomas desta realidade. Um deles é a tradição “escandalosa” de baixos salários (600 euros), inclusive nos setores mais produtivos, que considera não ter justificação e que estará assente, defendeu, em gestões empresariais fracas.

“Os trabalhadores são tidos como um custo” para a empresa, refletiu, e não um ativo.

Outro cenário pernicioso desta realidade, salientou, é a disparidade salarial enorme que existe dentro das próprias empresas, com os gestores a auferirem um salário várias centenas de vezes superior ao do funcionário médio. Um “endeusamento” dos gestores, considerados os únicos responsáveis pelo sucesso das empresas, com o qual o economista não concorda. “Ou a empresa envolve todos ou vai haver problemas”, nem que seja a longo prazo, comentou.

Abel Pinto também considerou “inaceitável” a falta de transparência e omissão de informação que existe nas empresas, onde os funcionários pouco sabem sobre os problemas com que se debate a gestão. “Uma empresa saudável e bem sucedida partilha informação com os trabalhadores”, numa perspetiva de co-responsabilização pelo sucesso do todo, defendeu.

A excessiva hierarquização da organização empresarial, com chefes a assumirem posições agressivas e prepotentes para com os subordinados, também cria ambientes laborais tóxicos, que se traduzem em elevadas percentagens de absentismo.

“Poucas empresas estimulam que os trabalhadores digam o que pensam”, constatou, salientando que os horários laborais também não se adequam à realidade familiar e as estruturas de representação dos trabalhadores estão cada vez mais enfraquecidas.

“O que se pode fazer por um trabalho mais digno, justo e equitativo?”, questionou. Para Abel Pinto, boa parte do sucesso das empresas passa pelo exemplo dos seus dirigentes, que devem tratar bem tanto os clientes como os funcionários, apostando num serviço de qualidade e que proteja o ambiente. “Os melhores líderes são os que permitem que outros líderes emerjam”, defendeu.

A tradicional cultural chefe/subordinado acaba por retirar a responsabilidade aos funcionários, quando se deve apostar no oposto, no estímulo, que produz criatividade e novas soluções. O economista defendeu ainda a luta por melhores salários, dando posteriormente o exemplo do modelo de implementação de “prémios”, que variam consoante o lucro anual das empresas.

Na sua intervenção houve ainda espaço para a defesa de um maior papel do Estado na regulamentação, sem que este entre em concreto dentro das empresas. A necessidade de formar academicamente gestores para modelos mais participativos de organização empresarial também foi sublinhada pelo especialista. “É preciso que não tenham medo do diálogo com os trabalhadores”, referiu.

“O modelo económico atual não é justo nem equitativo”, terminou, apelando ao envolvimento de todos no processo de luta por um trabalho mais digno.

No debate com o público, Abel Pinto abordou ainda a temática do salário mínimo europeu, do abuso do modelo de contrato a termo pelo patronato e da necessidade de diálogo dentro das empresas. O economista defendeu ainda a “disciplina” na gestão.

A conferência foi organizada pela LOC/MTC (Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos), em parceria com a Ação Católica Rural (ACR), Fórum Abel Varzim e Paróquias de Torres Novas, com o apoio do município torrejano. Abel Pinto foi dirigente local, regional e nacional da Juventude Operária Católica (JOC), onde chegou a ser dirigente livre. Integrou ainda a Comissão Diocesana do Apostolado dos Leigos da Diocese de Coimbra e a Comissão Diocesana de Justiça e Paz da mesma Diocese. Licenciado em Economia, é consultor da Fundação Bissaya Barreto e membro do Conselho de Administração da Critical Software, SA.

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