Tomar | Maria, a eterna menina que guarda 40 mil caixas no Museu dos Fósforos

Maria, a eterna menina que guarda 40 mil caixas no Museu dos Fósforos. Foto: mediotejo.net

*Reportagem publicada em outubro 2016, republicada em agosto de 2019

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O discurso fluente e a vivacidade com que fala dos “seus fósforos” não correspondem à idade que Maria tem. Um número a rondar as nove décadas de existência. É, por isso, um exemplo de longevidade que inspira quem a rodeia. Chama-se Maria Helena Aquiles da Mota Lima, é tomarense, e nos dias que correm, ainda apresenta uma dedicação extremosa no que concerne a cuidar do legado paterno e que viria a dar lugar ao Museu dos Fósforos, instalado no Convento de São Francisco, em Tomar. É para ali que se desloca, dia sim, dia sim. Para tomar conta e poder mostrar as mais de 40 mil caixas de fósforo de 127 diferentes países.

Quando chegamos ao encontro, Maria Helena dava indicações precisas a uma funcionária quanto à arrumação de fósforos numa prateleira. Aos 89 anos continua a dedicar o mesmo empenho à paixão do seu pai: o Filumenismo.

É graças a uma memória lúcida que desfia as histórias que vai contado ao mediotejo.net. Por vezes, a comoção embarga-lhe a voz. E quando fala do pai os seus doces olhos brilham ainda mais.

O museu é a sua segunda casa. Vai para ali quase todos os dias. E recorda que, aqui há dois ou três anos, num momento em que soube que não havia ninguém colocado no Programa “Olhar Tomar” (programa camarário de vigilância e apoio a museus) não deixou que fechassem as portas ao Museu dos Fósforos e garantiu a sua abertura sozinha até que a questão se resolvesse.

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Foi a própria Maria Helena Mota Lima que montou todas as prateleiras deste museu Foto: mediotejo.net

Abastado proprietário que vivia numa quinta  junto à Igreja de Santa Maria do Olival (onde hoje está construído o CAT da Santa Casa da Misericórdia) Aquiles da Mota Lima começou a coleção quando em, 1953, foi assistir à coroação da Rainha Isabel de Inglaterra. Nessa altura aproveitou para visitar também a Holanda, a Bélgica, a França e a Espanha. E trazer fósforos. Muitas caixas de fósforos. Como recordação da viagem.

Somava já cerca de uma centena de caixas diferentes quando chegou a Portugal. Na viagem, conheceu uma senhora que já fazia coleção e pediu-lhe que comprasse todas as caixas bonitas que encontrasse. Foi o início de uma grande epopeia que perdurou por 27 anos.

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O pai coleccionou caixas de fósforos ao longo de 27 anos, reunindo mais de 40 mil exemplares Foto:mediotejo.net

Maria Helena tinha 26 anos quando o pai começou a colecção. “Lembro-me muito bem de andarmos na campanha para arranjarmos as duzentas caixas”, recorda Maria Helena que ajudava na  angariação. “Apanhava-as do chão e naquela altura todas as lojas e mercearias vendiam caixas de fósforos. Corria as lojas todas”, refere, acrescentando que, à época, as mesmas eram fabricadas por temas. Por exemplo, flores. “Eu dizia, faz favor podia arranjar-me uma caixa com outras flores. É que as pessoas não entendiam que eu queria uma diferente da que já tinha. Para os outros era tudo flores”, conta, revelando que tinha um olho cirúrgico para poder diferenciá-las umas das outras. Quando via alguma no chão, apanhava-a de imediato, para ver se já a tinha ou não.

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Em exibição estão caixas provenientes de 127 países Foto:mediotejo.net

O pai juntou mais de 40 mil caixas. Antes de estarem no Museu dos Fósforos, Aquiles da Mota Lima guardava as caixas em prateleiras, na sua garagem, recorda Maria Helena. Mais tarde, mandou construir na sua propriedade, um edifício com 17×5,5 metros à prova de fogo para a colecção, com 113 expositores.

Foi Maria Helena que com as suas mãos – mostra-as hoje enrugadas –  arrumou cada uma das enormes prateleiras com vidros que hoje se encontram em várias divisões do Museu dos Fósforos, instalado no Convento de São Francisco. E tudo com um método. “Por exemplo, na Jugoslávia, instalei primeiro os cães, pássaros ou seja os animais”, refere.

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Aos 89 anos ainda recebe os visitantes e, se necessário, dá explicações Foto: mediotejo.net

O pai viajava muito. Os amigos também iam trazendo. Havia trocas constantes com colecionadores de outros países. “Uma vez o meu pai foi entrevistado na televisão pelo Fernando Pessa que lhe perguntou se era muito difícil trazer as caixas de fósforos dos outros países. E o meu pai respondeu que não e que a filha tinha trazido da Áustria 200 caixas. Foi ai que pensei: ai o que ele foi dizer que nunca mais me deixam passar. Graças a Deus nunca tive problemas”, recorda. Mas conta o porquê: na alfândega, as caixas eram despejadas à frente da pessoa, deitavam-lhe fogo e entregavam a caixa vazia.

“Uma vez vinha no comboio com a minha mãe em Madrid e trazia um saco cheio de caixas de fósforos. O Sargento abriu-me a mala, com as suas luvas brancas, e trouxe uma mão cheia de caixas. Perguntou-me se eu não sabia que aquilo era proibido. Respondi que sabia mas que era para a colecção do meu pai em Tomar. Como ele tinha família cá em Tomar, começamos a falar e disse que podia estar”, recorda.

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Museu dos Fósforos foi inaugurado a 1 de março de 1984 Foto: mediotejo.net

Aquiles da Mota Lima viria a doar a coleção ao município tomarense em 1980, no tempo do Dr. Murta. Morreu em 1984 sem ver o museu construído. Maria Helena recorda o dia em que o mesmo foi inaugurado: 1 de março de 1989. Era presidente da Câmara Jerónimo Graça. Antes, levou meses a organizar tudo sozinha. “Montei isto tudo em cima de uma cadeira. A minha preocupação era fazer como o meu pai gostaria que ficasse e procurei arrumar como estava em casa”, refere com a voz embargada. As caixas vieram de casa trazidas em milhares de sacos de plástico,no banco de trás do carro.

E, de todas as histórias recorda uma com muita graça. “Certa vez, veio aqui um senhor que, no final da visita, pediu-nos o livro para fazer uma observação. Escreveu que devia estar tudo guardado em prateleiras de vidro porque assim quantas caixas é que já não deviam ter sido roubadas… Eu disse, isto é uma honra, ou seja, os vidros estavam tão limpinhos que ele nem se apercebeu que havia vidros”, recorda a gracejar.

*Reportagem publicada em outubro 2016, republicada em agosto de 2019

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