Tomar | Lara Martins, a cantora lírica do “Fantasma da Ópera” que tem a cidade no coração

Lara Martins atua em Tomar este domingo, dia 30 de junho. Foto: DR

Tem 40 anos e brilha em Londres naquele que é o musical dos musicais. Lara Martins é natural de Coimbra mas tem fortes ligações a Tomar, onde tem família a residir. Casada, duas filhas pequenas a quem dedica todo o seu tempo livre, vive há vários anos na capital britânica onde interpreta Carlota Giudicelli – um dos principais papéis no ‘Fantasma da Ópera’, deixando para trás uma carreira na área do Direito. Uma decisão tomada ali perto dos 20 anos, depois de um convite para estudar em Londres, e que a levou a enfiar-se sozinha num avião para dar seguimento ao que lhe dizia o coração.

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Lara Martins & Small Big Band atuam este domingo, 30 de junho, às 21:30, no jardim do Mouchão. Este espetáculo, inserido na programação oficial da Festa dos Tabuleiros em Tomar, juntará em palco a cantora lírica Lara Martins e a formação ligada ao jazz da Canto Firme, a Small Big Band, a qual é dirigida pelo pianista e professor Joaquim Roberto.

Um concerto que vai decorrer num espaço de eleição e que dará para recordar o momento já vivido entre a cantora Lara Martins e a formação da Canto Firme.

*Entrevista publicada em março de 2018, republicada em junho de 2019

Sexta-feira, 2 de março, o dia está a oferecer os últimos raios de sol. Acabada de chegar de Londres, chega perto de nós, corpo franzino e bonita, muito bonita. Casaco amarelo canário, discreta maquilhagem e um sorriso no olhar. Lara Martins é cantora lírica e atriz mas é, sobretudo, alguém que ousou trocar uma firme carreira na área do Direito pelo flutuante e imprevisível mundo das artes, sendo apenas mais uma dos muitos que o fazem fora da mãe pátria.

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A convite da Casa do Concelho de Tomar, que celebrou em as suas Bodas de Diamante, deslocou-se a Portugal de propósito atuar no Cine-Teatro Paraíso, em Tomar, tendo sido solicitada para dar um conjunto de entrevistas nos dias em que por aqui esteve.

Natural de Coimbra, a cantora lírica tem fortes ligações a Tomar, onde ainda reside um tio. Visita a cidade templária desde criança, sendo que era aqui que vinha com regularidade aos fins-de-semana quando o pai, médico, se encontrava a trabalhar no Hospital local.

“Tomar foi uma cidade que sempre fez parte da minha vida. É muito bonita, muito simpática. O Castelo é maravilhoso e depois tem esta Festa lindíssima, a Festa dos Tabuleiros, tão única e tão especial no país”, conta, acrescentando que apesar de nunca ter levado um Tabuleiro já assistiu ao cortejo.

Lara Martins começou a estudar Canto no Conservatório de Coimbra e, em simultâneo, Direito. Chegou uma altura da vida em que teve que decidir que caminho seguir e a decisão foi facilitada devido a um convite que recebeu para ir estudar para a The Guildhall School of Music & Drama, considerada como uma das melhores escolas de Londres, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.

“Foi difícil dizer que não e optei pelo Canto”, conta ao mediotejo.net, acrescentando que esta foi uma decisão tomada completamente com o coração.

Lara Martins. Foto: mediotejo.net

“À partida, teria mais segurança se tivesse enveredado por uma carreira no Direito mas a minha escolha foi pelo que me sentia mais inclinada a fazer… Senti-me apoiada pela minha família mas, é claro, nem toda a gente compreende esta decisão. É preciso ter alguma abertura de espírito para aceitar que alguém troque uma carreira no Direito por uma carreira nas artes. Mas os meus pais apoiaram-me a 100 por cento”, recorda.

Sem artistas no seio familiar, Lara Martins habituou-se a ouvir música clássica desde muito pequena, uma vez que o pai sempre teve esse gosto.

A cantora durante o Concerto que se realizou recentemente no Cine-Teatro Paraíso em Tomar Foto: António Freitas

Quando chegou a Londres, aos 21 anos, estava entregue a si própria e os primeiros meses, confessa, foram desafiadores, muito desafiadores. “De facto, chegamos a um país completamente diferente, onde não conhecemos ninguém e, ainda por cima, fui para uma escola de excelência, altamente competitiva. Os primeiros meses foram difíceis, com saudades da família e dos amigos. Estamos sozinhos e descobrimos que temos forças que nem sequer conhecíamos. Foi um período de grande crescimento interior a todos os níveis”, recorda.

Ter o curso não é sinónimo de entrar no mundo artístico e, para o conseguir, teve que arranjar um agente para começar a ir a audições, sendo que esta foi a primeira dificuldade porque os agentes não apostam em qualquer um. Ultrapassado esse obstáculo, começou por fazer papéis mais secundários e depois foi subindo, com trabalho e humildade.

“Temos momentos em que o ego é esmagado completamente”

Para a atriz e cantora lírica, a humildade é mesmo essencial para se sobreviver neste meio. “Tal como recebemos muitos ‘sim’ também recebemos muitos ‘não’. Ainda por cima numa profissão como esta, altamente subjetiva. Um maestro pode gostar muito da minha voz e outro não gostar. Há uma série de critérios altamente subjetivos e não podemos fazer nada. Nós só podemos chegar lá e dar o nosso melhor. A humildade acaba por ser inata neste processo todo. Temos momentos em que o ego é esmagado completamente e esse também é um dos desafios de quem está nas artes: lidar com a rejeição”, atesta.

Lara Martins foi escolhida como atriz principal para o Fantasma da Ópera depois da equipa de casting desta peça ter contactado o seu agente para que fosse às audições. Disse logo que sim mesmo sabendo que as mesmas são complicadas, muito competitivas.

“Foi um processo bastante longo até ser escolhida. Estou a fazer este papel há seis anos. Este Musical está em cena há 31 anos sem interrupções”, diz.

Estar em cena, com o mesmo papel, há seis anos é igualmente desafiador mas Lara Martins refere que acaba por ser diferente a cada noite uma vez que a energia do público também é sempre diferente. Contrariamente ao que possam pensar, nunca está em piloto automático.

“É interessante porque basta um segundo de desconcentração para me esquecer. Não faço aquilo em piloto automático”, sublinha. Para quem está quase diariamente em cima de um palco a distribuir emoções, a recompensa surge em forma de aplausos.

“Ver o público a bater palmas, em êxtase, com o espetáculo é muito gratificante”, refere, admitindo que fazer uma carreira deste género em Portugal não era impossível mas seguramente que era mais difícil. “Não há tantas possibilidades de trabalho. Londres é um dos expoentes culturais do mundo”, diz.

Apesar de ser natural de Coimbra, a cantora e atriz tem fortes ligações a Tomar Foto: mediotejo.net

Foi também em Londres que, mesmo seguindo uma carreira artística, acabou por constituir a sua família. É difícil conciliar os vários papéis com uma agenda preenchida mas Lara tenta passar o máximo de tempo com as filhas, sendo que ser mãe era também um dos seus objetivos mesmo que isso significasse colocar a carreira em stand by.

“O meu tempo livre é para estar com elas. Era para mim essencial ter uma família. A carreira viria sempre em segundo lugar. O facto de estar neste espetáculo há tantos anos também me permite mais estabilidade. O que tento fazer é usufruir o melhor que posso e sei das duas partes”.

Com a conversa quase a terminar pedimos um conselho a quem sonhou com o mundo artístico e o conquistou, especialmente para quem ainda só se atreve a sonhar com isto de ser artista.

“Ser realista. Reconhecer quais são os seus pontos fortes. Ser inteligente e saber reconhecer os seus limites. Ao mesmo tempo, perseverança. É uma vida difícil mas a persistência dá frutos”, assegura.

O reencontro com Tomar e Lara Martins está marcado para este domingo, dia 30 de junho, no jardim do Mouchão, em concerto integrado na Festa dos Tabuleiros 2019.

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