Tomar | Crónica de um sábado cheio de Bons Sons, em Cem Soldos

Foto: David Belém Pereira/mediotejo.net

Juntámo-nos aos milhares de fiéis que voltaram a peregrinar a Cem Soldos, para conhecer os 10 mandamentos do Bons Sons. E de hora a hora, de palco em palco, com calor e com frio, com sol e com chuva, comendo e bebendo, dançando e brincando, vivemos em pleno o espírito da aldeia.

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Chegamos perto da hora de almoço e carregamos as pulseiras com que se “paga” tudo em Cem Soldos, livrando-nos da chatice de ter de pensar em dinheiro durante o resto do dia. Procuramos um exemplar da edição limitada do livro ilustrado “Bons Sons x10: Uma Aldeia em Manifesto” e, de caminho, compramos uma Tixa verde (uma lagarTixa, o símbolo do festival), como porta-chaves.

Procuramos entre a vasta oferta o que petiscar para o almoço. Ficámo-nos pelo saboroso chouriço com pão, confecionado na hora e ainda quente, e imperial a abastecer os copos reutilizáveis do festival.

Depois, a busca pela sombra começa nas mesas de merendas ali perto da escadaria “Bons Sons”, de frente para o palco Zeca Afonso, aproveitando a sombra fechada por figueiras baixas e carregadinhas de fruto, que muitos aceitavam de bom grado como sobremesa, quando os galhos, abanicados pelo vento, distribuíam figos num gentil gesto da natureza envolvente. Em sintonia com a hospitalidade e a amabilidade dos cem soldenses.

Voltámos ao Largo do Rossio para adoçar a boca com uma tripa de Aveiro com chocolate preto e polvilhada com canela e ainda beber café. Muitos procuravam gelados para refrescar e aproveitavam para reabastecer os pulverizadores com água nos pontos colocados para o efeito ali nas redondezas (também havia bebedouros para os quatro patas festivaleiros).

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Nisto, logo se apercebe a azáfama junto de um dos “Jogos do Hélder”, colocado na travessa que seguia para o Palco Garagem. Enchia-se com água um balde que estava suspenso a metros do chão, e alguém puxava uma carroça adaptada ao estilo romano, enquanto outro testava a destreza e pontaria com uma lança tentando acertar num buraco debaixo da plataforma do balde.

Acertando, acabava por levar banho nas costas e refrescar-se a si e aos que assistiam curiosos ao que ali se passava. Os adolescentes teimavam duas, três, quatro vezes, e mesmo já encharcados, davam coragem aos mais velhos, que se lançavam ao desafio mas com claro objetivo de, se possível, não molhar as suas vestes.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Enquanto isso, os mais pequenos experimentavam outros jogos mais acessíveis, de mesa, divertindo-se no recinto sob o olhar atento mas tranquilo dos pais.

Logo aparece um grupo com chapas triangulares no topo, que unidas, simulavam um coreto ambulante devidamente ornamentado. O objetivo? Dar a “Volta a Portugal em Coreto”, recorrendo a músicas do panorama português pela voz dos populares residentes em Cem Soldos e pelos visitantes. Ali, foram desafiados André e Miguel, e a sua avó Fernanda, naturais de Cem Soldos, e junta-se Horácio cantando “Ó rama, ó que linda rama”, depois de uma tentativa para cantar “Estou na Lua”.

Seguem-se mais vozes onde se interpretaram temas como “As meninas da Ribeira do Sado”, dos Adiafa, ou a romântica balada dos irmãos Sobral, “Amar pelos Dois”. No fim de cada participação recebiam uma bolachinha caseira e um copito de licor, à bela maneira portuguesa de demonstrar apreço e afeto, apascentando o paladar e o estômago.

E eis que passa Hélder, o rei dos jogos, em cima da sua bicicleta desvairada. E começa a desafiar todos à sua volta para que conseguissem andar vnaquele velocípede, com roda traseira e pedaleira soltos da restante estrutura, o que dificultava manter de pé enquanto se pedalava poucos metros (muito poucos!), acabando-se a saltar do selim e a segurá-la à mão, como forma de impedir uma queda aparatosa e embaraçosa.

Nós tivemos de tentar a sorte em troca de uma fotografia do divertido Hélder junto do seu invento. Experimentámos, não conseguimos buzinar duas vezes na buzina preta, mas mantivemo-nos de pé. E ainda ganhámos não só a foto, como um saboroso rebuçado de limão (e um belo momento de descontração).

Logo a seguir, outros tentavam dominar a bicicleta marada, que cheia de cor e munida de cesto à frente, parecia ser totalmente inofensiva. Parecia canja… mas nem tudo o que parece é!

Foto: David Belém Pereira/mediotejo.net

No palco Carlos Paredes, dentro da igreja, começava a ouvir-se soar Valente Maio e tal era a assistência, que tornava impossível que todo o público conseguisse alcançar visualmente a atuação, ficando muitos a deleitar-se com a melodia que saía pela porta principal e pela lateral da igreja, estendendo-se aos arredores.

O concerto culminou com uma forte salva de palmas, estrondosa e imensa na acústica daquele templo.

Descemos a rua, e espreitamos com curiosidade o palco “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria” (MPAGDP), ouvindo a interpretação musical de “Rezas, Benzeduras e outras Cantigas”. Um mar de gente enchia a rua até ao Barracão de Cem Soldos, onde estavam os dois intérpretes da tarde.

Daqui seguimos para o Curral, onde estiveram albergados por este dias Alfredo, Atenor, Ennie e seus outros dois companheiros, dos quais não retivemos os nomes. Burros de Miranda protegidos e preservados pela AEPGA (Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino), cujos membros presentes no festival puderam dar aulas sobre o burro, a sua história e destacar particularidades desta raça portuguesa, bem como cuidar e tratar estes animais, numa atividade para despertar consciências e ganhar a atenção das crianças, que podiam ainda passear durante breves minutos guiados pelos jericos pacientes, dóceis e muito pachorrentos.

Como moeda de troca, os mimos e carícias, que serviam a retribuição pelo passeio diferente que deliciou os miúdos participantes, bem como os pais que de fora seguiam a iniciativa, registando-a para a posteridade.

Foto: David Belém Pereira/mediotejo.net

Atravessámos novamente o recinto, enquanto famílias e bandos de amigos repousavam e aproveitavam a hora do lanche no Largo do Rossio, junto à cafetaria e outros espaços de comes e bebes. Chegámos a tempo da atuação eletrizante do tomarense Tiago Francisquinho, num momento de “one man show”, dominando o didgeridoo como ninguém, e entre batidas acompanhadas por outros instrumentos de percussão como pandeiretas, pratos, cajon, e outros, pôs toda a gente a dançar e a marcar o ritmo. Até quem estava no primeiro andar, sentado à janela, ou no terraço, na envolvente do palco Giacometti.

E lá estava a Dona Maria Rosa à sua janela, e na fila da frente crianças saltavam e batiam palmas demonstrando corresponder àquele concerto, feito a partir de um instrumento invulgar, e que lhes soube roubar a atenção como às dezenas e dezenas de espectadores, que preenchiam cada metro quadrado do largo, uns sentados, outros de pé.

Concerto terminado, regressamos ao centro, e esteiramo-nos na relva junto a todos os que recarregavam baterias enquanto decorria a conversa sobre os “Territórios e a Interioridade”, promovida pelo projeto jornalístico Fumaça.

Pelo meio existiam encontros inesperados, convivia-se entre amigos, tocava-se guitarra, jogava-se às cartas ou descansava-se encostado às sombras das árvores, simplesmente.

Com tranquilidade decidimos ir buscar jantar e marcar lugar em frente ao palco Zeca Afonso, um auditório natural imenso e desafiante, dado o plano inclinado em relva artificial mas, ainda assim, aconchegante.

Vamos pelas Bifanas Templárias, no pão desta vez. Do nada, um multidão imensa se reuniu aguardando “Três Tristes Tigres”. O calor humano deu bastante jeito, uma vez que o vento frio do anoitecer já anunciava uma descida da temperatura.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Alguns objetos iam ganhando “vida própria” por ali, sendo amparados pelos espectadores nos lugares abaixo. Desde telemóveis, garrafas, óculos de sol, isqueiros e, na pior das hipóteses, alguém escorregava no piso, e precisava de uma mão solidária que ajudasse a alcançar equilíbrio. A subir ou a descer, sempre houve quem estendesse a mão, de sorriso no rosto. É também disto que se faz o Bons Sons: de entreajuda, reciprocidade e sentimento de pertença a uma comunidade que ali se gera espontânea, onde se cultivam emoções bonitas e valores do bem.

Regressamos ao Largo São Pedro, junto da Loja e Posto de Informação, e decidimos embarcar na bem ponderada aquisição para a noite: uma sweatshirt do festival, bem quente para não nos deixarmos vencer pelo frio. Antes, ainda apreciámos a batida de Stereossauro e companhia, até que a chuva nos separou.

Fugindo pelas ruas, entrando nos estabelecimento e procurando tectos, outros de chapéus guarda-chuva coloridos (bem engraçados e, por sinal, muito úteis), e pais com crianças de colo e carrinhos corriam para fora do recinto. Outros seguiram o mesmo caminho.

Nós ficámos com os resistentes, esperando que a chuva abrandasse, na entrada de uma moradia, sentados nos degraus à porta de uma das moradoras que gentilmente nos deixou por ali permanecer (obrigada uma vez mais!), enquanto nos deliciávamos com pampilhos de ovos, doce tradicional de Santarém.

A chuva acalmou e deixou-no regressar ao largo, em frente ao palco Lopes Graça. E juntámo-nos aos grupos sentados na relva, aquecida pelo chão, aguardando o concerto de Tiago Bettencourt.

À sua entrada em palco, todos se puseram de pé e, de voz afinada, cumpriram (e nós, admitimos, também) os vários pedidos para cantar em uníssono na plateia excertos e refrões, algo que emocionou o cantor.

Não ficaram fora do repertório da noite êxitos como “Canção de Engate”, “Carta” dos Toranja, “Morena”, “Maria”, “Se me Deixasses Ser”, “Laços”, e tantos outros que todos mostraram saber de cor.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

A noite já ia longa e, no início da madrugada, decidimos fazer-nos à estrada. De coração cheio, ouvidos satisfeitos e carregando connosco o espírito da aldeia.

Deixámos os resistentes festivaleiros a curtir o festival madrugada fora, ouvindo o dueto Glockenwise + JP Simões, no palco Variações, que se avistava do estacionamento do lado da Entrada das Hortas.

Rezam as “stories” do Instagram que muito fizeram companhia aos Djs, deixando-se embalar de frente para o palco Aguardela.

Depois de Ride e RIVAthedeejay, hora de recolher. O último dia estava quase aí, a pedir para se queimarem os últimos cartuchos, não deixando nada por viver na aldeia.

Fotogaleria:

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