Tomar | Cortejo dos Tabuleiros saiu à rua engrandecendo a tradição e identidade de um povo (C/VIDEO e FOTOS)

Com Jorge Santiago (Fotografia) e David Belém Pereira (Vídeo)

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A cidade de Tomar recebeu mais uma edição da Festa dos Tabuleiros, dando por cumprida a tradição longínqua que tem resistido de geração em geração. Este evento-maior dos tomarenses acontece de 4 em 4 anos, por vontade do povo, que nele participa quer na organização, quer nos vários momentos de cortejo, bem como nas atividades lúdicas e de lazer que atraem milhares de visitantes ao concelho. O ponto alto, a marcar os últimos dias da festa, centrou atenções no Cortejo dos Tabuleiros.

As ruas estavam plenas de gente, sentada em bancos e nas bancadas lotadas, e era difícil alcançar caminho livre. As conversas cruzavam-se e as famílias ou grupos de amigos tentavam não se perder de vista por entre a multidão posicionada de forma estratégica para ver passar o cortejo. Ver a obra feita pelo povo e para o povo, era o objetivo. Aguardava-se com expetativa a passagem dos tabuleiros.

Na Mata Nacional dos Sete Montes, os pares trajados a rigor destacavam-se por entre a verdura do espaço ajardinado. A comissão e chefes de grupo certificavam-se que tudo estava nos conformes, desde os sapatos das moças, ao cumprimento do protocolo que impedia o uso de brincos exuberantes, relógios, e que implicava a colocação da faixa, da cor predominante no seu tabuleiro, no lado certo. Os homens traziam gravata a condizer com o seu par.

Os elementos tradicionais, caso da pomba do Espírito Santo, a cruz da Ordem de Cristo, o pão, a espiga e as papoilas, ornamentavam os 750 tabuleiros, combinados com outros detalhes. Esta que é uma oferenda vertical ao Divino Espírito Santo, é simbólica e em tempos associava-se ao agradecimento na época das colheitas.

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O tabuleiro é o símbolo da Festa, devendo ter a altura da rapariga que o carrega. É constituído por 30 pães de formato específico com 400 gramas cada, enfiados equitativamente em 5 ou 6 canas. Estas saem de um cesto de vime envolvido em pano bordado e são rematadas, no topo, por uma coroa encimada pela Cruz de Cristo ou pela Pomba do Espírito Santo.

Foto: Jorge Santiago/mediotejo.net

À entrada da Mata, encontramos a primeira mulher eleita Mordomo da Festa. Maria João Morais explicou que o intuito passa por “mostrar o trabalho feito ao longo de vários meses, perto de um ano” e “cumprir uma tradição que é muita cara ao povo tomarense”.

Através da Festa dos Tabuleiros, pretende-se elevar os valores e algo que os tomarenses preservam muito: a Festa do Espírito Santo, uma “festa feita pelo povo e para o povo”.

A organização, explicou, é um processo moroso e nem sempre fácil, exigindo “reuniões com chefes de grupo, com os presidentes de Junta, várias reuniões nas diferentes freguesias com os pares para que as regras sejam mantidas, porque é isso que valoriza e mostra quais os nossos princípios”. Princípio que norteiam a festa do início ao fim.

Os pares constituem um grupo de 1500 pessoas, acrescendo chefes de grupo e comissões de organização, o que resulta em mais de 2 milhares de cidadãos unidos por esse objetivo comum.

Já o tabuleiro, a imagem que distingue Tomar a nível do culto do Espírito Santo quando comparado com outras festividades do país, que em nada se assemelham a esta singular festividade procurada não só por portugueses de norte a sul do país, como por turistas vindos de todos os cantos do mundo, que se deixam encantar pelo brio, emoção e cor que invade as ruas de Tomar.

Os visitantes são contagiados pelos habitantes imbuídos pelo espírito de vivência em comunidade e de manutenção dos usos e costumes, trabalhando a memória de um património que se deseja ser elevado a Património da Humanidade. Algo que o próprio Presidente da República afirmou ter reunidas condições para que aconteça, quer pela História, pela tradição e pela juventude ali presente e que é sinal de continuidade.

E pode dizer-se que não o disse sem conhecimento de causa, pois além de assistir à Bênção na Praça, percorreu ainda cerca de cinco quilómetros com o executivo municipal, na frente do cortejo. E sim, houve tempo para selfies, nesta que foi uma visita surpresa, mas que muitos já ansiavam.

Tomar esteve nas bocas do mundo e, garantidamente, não há festa como esta. Em 2023, as ruas voltarão certamente a encher-se de gente e os pares voltarão a vestir-se a rigor. Até lá, ficam registadas as memórias e a esperança do reconhecimento de um património único, criado e mantido pelas mãos do povo.

O cortejo pela voz de quem o faz e por quem viaja até Tomar para o aplaudir

Entre a azáfama dos pares, envolvidos pela Praça da República durante a Bênção dos Tabuleiros, em fila e prontos a envergá-los para rumarem às ruas da cidade, consegue perceber-se o compromisso e sacrifício de quem os carrega. Algumas jovens, que surgem pela primeira vez, entre os outros rostos mais maduros a quem o peso da responsabilidade já não assusta.

Filomena Duarte, no último par do grupo da freguesia de Junceira, mostrou-se sorridente e disponível para declarações ao mediotejo.net, sem quebrar a postura e erguendo no alto da cabeça o tabuleiro a si atribuído.

Esta foi a segunda vez que participou no cortejo, sendo que a estreia foi “há 35 anos atrás”. Garantiu que a sensação “é boa, é uma maravilha” e que o momento exige “sempre muito esforço da parte de todos”.

Por outro lado, afirmou que não há vista melhor do que ir no próprio cortejo. “É muito melhor do que estar do lado de fora, a assistir”, assumiu rapidamente, ajeitando-se para não perder o equilíbrio do tabuleiro com cerca de 11 a 12 quilos.

Quando questionamos, com algum receio de estar a perturbar a prestação, sobre o facto de se aguentar esse peso à cabeça, atira de imediato e sem espaço para dúvidas que “se aguenta bem e que a vontade é e tem que ser maior” para levar por diante o compromisso assumido.

E sem perder a alegria com que nos recebeu, posa para a fotografia, e segue o seu caminho com os restantes pares do grupo.

Filomena Duarte garantiu participar com a mesma emoção com que o fez há 35 anos, pela primeira vez. Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

À passagem dos pares, as ruas vão esvaziando, e é mais fácil chegar aos cafés e bares para beber algo refrescante, ou para aceder ao comércio local e vendedores ambulantes.

Junto a um carrinho de gelados, encontramos um casal. O homem com dois bancos desmontáveis ao ombro, a senhora de chapéu na cabeça e leque na mão.

Emigrantes em Bruxelas há cerca de 40 anos, regressaram há dois ao país e à terra natal, também ela cheia de tradição. Vieram de Campo Maior, onde também há a Festa do Povo com as ruas enfeitadas com flores e outros adornos em papel.

Graciosa Santana e João Morgado confirmaram que valeu a pena os quilómetros percorridos até ali, para apreciar ao vivo o cortejo.

“Já tinha ouvido muitas vezes falar na festa dos Tabuleiros e já tinha visto várias vezes na televisão… mas nunca ao vivo!”, referiu. “Ao ver na televisão ou numa fotografia, consegue ter-se uma pequena ideia… mas ver assim, com os nossos próprios olhos, é uma coisa impressionante…”, contou.

As expetativas foram superadas e fica o anseio para que a tradição se prolongue. “Espero que a tradição não se perca, é maravilhoso… Maravilhoso!”, insistiu, com ênfase.

Os quilómetros percorridos, garantiram-nos, valeram a pena. E surge à conversa a certeza de que os fariam de novo, daqui a quatro anos, voltando à Festa dos Tabuleiros de Tomar.

Até lá ainda surgem as festas da terra, em Campo Maior, para entreterem Graciosa e João. E no que toca às tradições pelo país fora, creem que devem ser mantidas vivas.

“Estas tradições que Portugal tem, como a Festa de Viana do Castelo, as Festas de Campo Maior e os Tabuleiros de Tomar são coisas maravilhosas… e eu acho que essas tradições não se devem perder. Os jovens devem entrar neste espírito, pois todas as tradições têm tendência a desaparecer…”, desabafou, seguindo caminho e despedindo-se entusiasmada, pedindo que também nós façamos por manter a bela festa.

Vídeo: Balanço com Maria João Morais, a Mordomo da festa, pouco antes do início do Cortejo dos Tabuleiros, saindo da Mata Nacional dos Sete Montes.

Tomar | Festa dos Tabuleiros 2019: À conversa com Maria João Morais, Mordomo da festa, antes da saída do cortejo da Mata Nacional dos Sete Montes

Publicado por mediotejo.net em Domingo, 7 de julho de 2019

 

FOTOGALERIA: momentos do evento que revela a essência de um povo

 

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1 COMENTÁRIO

  1. O País precisa cada vez mais de demonstrações como estas sob pena de a identidade do NOSSO POVO acabar por desaparecer diluída nesta globalização e com a complacência de muitos políticos pseudo progressistas.
    Muitos parabéns ao povo de TOMAR.

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