Tomar | A salvaguarda da Festa dos Tabuleiros assente no futuro do ‘saber-fazer’ tradicional

Foto: mediotejo.net

O primeiro Seminário Nacional Sobre o «Saber-Fazer» Tradicional decorreu em Tomar, na Biblioteca Municipal, numa organização da Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial e da Câmara Municipal de Tomar. A iniciativa ganha um sabor especial tendo em conta que também a Festa dos Tabuleiros é candidata a património imaterial e assenta no “saber-fazer” das gentes, envolvendo miúdos e graúdos na sua programação e cujo futuro depende do garante da passagem “de testemunho” a cada geração vindoura.

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Na sessão de abertura esteve Filipa Fernandes, vereadora da Cultura da CM Tomar, Suzana Menezes, diretora regional de Cultura do Centro, e Luís Marques, presidente da Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.

Filipa Fernandes disse ao mediotejo.net que este seminário, que se estreou em Tomar, “vem de encontro a tudo aquilo que projetamos para o nosso concelho, que o saber-fazer tradicional seja uma realidade contínua e que vá passando de geração para geração, porque é o que dá continuidade efetiva às nossas tradições e às nossas evidências culturais, e que vai alavancar uma verdadeira salvaguarda para a candidatura a Património Imaterial da Humanidade da Festa dos Tabuleiros”.

A vereadora fez um ponto de situação sobre o inventário e apresentação da candidatura, numa primeira fase a nível nacional, para que depois possa seguir uma candidatura para a UNESCO. “Estamos neste momento em fase final para entregar a candidatura à DGPC para ser classificado como Património Cultural Nacional, e já a trabalhar naquele que é o caderno para a UNESCO. Este seminário vem-nos dar toda a força e “know-how” para que possamos também fazer jus ao nosso grande património imaterial que é a Festa dos Tabuleiros”, contextualizou.

A abertura do seminário contou ainda com a presença de jovens alunos do concelho, uma camada importante e decisiva para a continuidade desta festa “do povo e para o povo”, cujos saberes importam preservar. Foto: mediotejo.net

Para Filipa Fernandes “urge repensar estas questões da salvaguarda e que estes jovens se interessem por estas artes e ofícios, porque é o que vai fazer com que a Festa perdure ano após ano”, sublinhou.

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“Se olharmos para a Festa dos Tabuleiros é um “rolling stones” (‘pedra que rola’); toda ela foi modificada com o passar dos anos. Na sua essência não tinha o Cortejo dos Rapazes, mas é uma medida de salvaguarda da festa. E os jovens, estando integrados nesta que é a nossa tradição, obviamente que são uma mais-valia e uma salvaguarda em como o património está assegurado e que a Festa dos Tabuleiros será uma realidade no futuro”, indicou.

No fundo, trata-se de “uma passagem de testemunho” para as novas gerações, que abarca os vários “saber-fazer” envolvidos, desde a confeção das flores e do pão, a cestaria, a olaria, a latoaria – apesar de no momento só existir um ou dois latoeiros no concelho, segundo referiu Filipa Fernandes.

Luís Marques e Suzana Menezes, oradores na sessão de abertura do Seminário Nacional em Tomar. Foto: mediotejo.net

Por sua vez, Suzana Menezes frisou a importância destes saberes para as comunidades em que se inserem, uma vez que “fortalecem o sentimento de pertença e de auto-afirmação das comunidades” e espelham a cultura enquanto “valor-maior” dessas comunidades, enquanto “agente de conhecimento, lugar de agregação e meio para o desenvolvimento da diversidade e da criatividade humanas”.

A relevância do seminário reside no facto de dar “visibilidade a um conjunto de saberes e fazeres que apesar de estruturantes do ponto de vista das identidades e unicidades das comunidades, são intrinsecamente frágeis e profundamente expostos à perda permanente”.

A diretora regional de Cultura do Centro lembrou uma frase de Amadou Hampâté Bâ. “Quando morre um ancião em África é como se se queimasse uma biblioteca, e do mesmo modo, sempre que perdemos um saber-fazer empobrecemos como comunidade, porque é tão mais importante quanto o facto de representar na sua essência um património cultural imaterial único”, disse, acrescentando que é por este motivo que deve ser “sempre acarinhado, protegido e preservado”.

Já Luís Marques, presidente da Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, dirigiu agradecimentos ao município pelo apoio na realização deste evento, refletindo sobre os desígnios da preservação e manutenção do património cultural imaterial que estão em evidência neste Seminário Nacional que é uma iniciativa que “junta o saber-fazer tradicional português já reconhecido pela UNESCO como Património da Humanidade e mais de uma dezena de diferentes expressões do artesanato tradicional”.

Para o responsável “o país precisa ainda muito de saber e ter consciência que possui um rico, diversificado e vasto património cultural imaterial, cujo reconhecimento concorre para uma mais forte afirmação no mundo globalizado”.

Destacando o “saber-fazer antigo dos artesãos”, em todos os concelhos, de norte a sul do país e nas ilhas, reconhece a importância de preservação e reconhecimento dos mesmos enquanto “Tesouros Humanos Vivos” na terminologia da UNESCO.

Foto: CM Tomar

O património surge nas mais diversas formas, desde a medicina caseira e curas tradicionais, a literatura popular de tradição oral, as cantigas e danças populares, os saberes e sabores da cozinha tradicional, entre outros.

O fado, a dieta mediterrânica, o cante alentejano, a arte chocalheira, a louça negra de Bisalhães, a falcoaria e os bonecos de Estremoz, foram algumas das tradições, saberes e sabores lembrados por Luís Marques, entre tantos outros reconhecidos oficialmente enquanto património cultural do país e da Humanidade.

“A cultura tradicional não é algo que remeta somente para o passado, pois informa o nosso quotidiano, dado que as tradições continuam vivas e fazem parte do presente cultural da sociedade”, frisou.

Para Luís Marques é “imprescindível” a criação de “uma linha SOS Património Cultural Imaterial em perigo, a institucionalização do programa Tesouros Humanos Vivos conforme preconiza a UNESCO, e a isenção ou redução de impostos sobre os rendimentos auferidos pelos mestres artesãos, sobretudo dos que se integram no saber-fazer tradicional já reconhecidos pela UNESCO, em especial dos que fazem parte da lista do Património cultural imaterial que necessidade de salvaguarda urgente”, concluiu.

Foto: CM Tomar

O seminário terminou na sexta-feira, dia 25 de outubro, e entre a programação, destaque para a comunicação sobre “Os “saber-fazer” tradicionais enquanto elementos insubstituíveis da Festa dos Tabuleiros”, por André Camponês, antropólogo e coordenador da proposta de inscrição da Festa dos Tabuleiros no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, na linha do que fora exposto por Filipa Fernandes, vereadora da CM Tomar.

Recorde-se que este é um fórum que pretende contribuir para a salvaguarda, promoção e uma mais ampla perceção da singularidade desta inestimável faceta do património cultural imaterial português, que integra representantes reconhecidos pela UNESCO como a arte chocalheira, a louça preta de Bisalhães e os bonecos de Estremoz, mas também a tradição tomarense: latoaria, cestaria, olaria, confeção de rodilhas e de flores de papel, enquanto “elementos insubstituíveis da Festa dos Tabuleiros”.

No local estiveram mestres artesãos ou «Tesouros Humanos Vivos», a executar as suas artes e mostrando o «saber-fazer» de várias regiões do país, nomeadamente reconhecidos pela UNESCO, caso da rendilheira de Peniche, cujas rendas de bilros integram o processo de inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (atualmente em vias de conclusão) e onde não faltaram representantes das várias artes tradicionais tomarenses.

Paralelamente, decorreu uma exposição de livros e de materiais audiovisuais de cariz patrimonial imaterial para consulta ou aquisição com descontos especiais.

Fotogaleria:

 

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