“Todos os sótãos guardam tesouros”, por Berta Silva Lopes

Foto: DR

Numa prateleira improvisada no sótão da casa dos meus pais estão guardados todos os livros escolares, meus e do meu irmão, catecismos e publicações avulsas que em determinada altura da vida alguém achou importante guardar.

Também lá jazem, mergulhados naquela aura característica de penumbra de pó, jornais e revistas, páginas isoladas com tutoriais de rendas e crochet, folhas de seda com desenhos sumidos, outrora bordados em lençóis e outras peças de enxoval, cadernos de cantos dobrados, correspondência do tempo da adolescência, almanaques, pagelas, quilos e quilos de papel em equilíbrio precário numa tábua abaulada. Não é verdade que o saber não ocupa lugar.

Voltar àquele sótão é como resgatar um bocadinho da minha infância, e foi isso mesmo que senti quando ali encontrei os quatro livrinhos comprados na Nazaré há provavelmente mais de 30 anos.

Recordo a chamada de atenção do meu pai, repetida todos os anos. Compramos uma coisa para cada um, mas só uma. Podem escolher o que quiserem, e se quiserem podemos comprá-la já hoje, mas não há mais nada até ao fim das férias.

Eu, o meu irmão e dois primos acatávamos a indicação e tomávamos decisões. Era uma coisa, só uma, para cada um de nós. Os gelados não entravam nesta equação, claro, mas mesmo assim demorávamos minutos infinitos a olhar as tentadoras bancas de bugigangas estrategicamente posicionadas nas praças da marginal.

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Certo ano trouxe para casa aquela coleção que guardei e reli vezes sem conta nos meses seguintes. Há muito que a julgava perdida e foi numa espécie de êxtase que folheei os livros e reli o meu nome, escrito por mim, no verso da capa de todos eles. O B muito bem feitinho, letras esmeradas, ligeiramente encolhidas à medida que os apelidos eram escritos e o espaço imaginário da primeira linha escasseava.

Reconheço neles os mesmos traços inscritos nos livros da primeira classe, que me recuso a deitar fora. Nunca mais precisei de os folhear, a não ser por nostalgia, mas saber onde estão aquece-me a alma.

Ao contrário dos meus, os livros do primeiro ano da minha filha foram entregues na escola dela no final do ano letivo. Embora os tivesse comprado e podendo, portanto, ficar com eles, achei por bem devolvê-los. Talvez em setembro aterrem noutra casa, na mochila de outra criança rumo do conhecimento.

Desde então que penso se fiz a coisa certa, e esta semana, com a inscrição no novo site dos manuais escolares para receber o famoso voucher, voltei a pensar no assunto. Confesso que continuo sem saber muito bem o que pensar acerca da medida que obriga à devolução dos livros escolares por parte das famílias, no caso destes terem sido cedidos pelo Estado.

Qual será efetivamente o retorno desta ação? Que poupança representa? Não se estará ao mesmo tempo a condicionar a relação das crianças com o livro? O que direi eu à minha filha se ela, algum dia, me perguntar pelos livros nos quais aprendeu a ler e a fazer contas?

Enquanto revolvo as dúvidas, e pelo sim pelo não, estou a guardar numa caixinha todos os bilhetes, listas de compras, recados e pequenas composições que apanho espalhadas no quarto dela e no resto da casa. E quando a caixa estiver cheia hei-de levá-la para o sótão dos meus pais, esse sítio mágico onde se guardam os tesouros mais preciosos da minha infância.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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