“Ti’Maria pescadora: morreu um bocado do Tejo”, por António Matias Coelho

Ti’Maria pescadora: morreu um bocado do Tejo. Foto: Cultura Avieira

Chamava-se Maria de Sousa, mas para mim e para muita gente que lidava com ela era a Ti’Maria pescadora.

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Conheci-a há 34 anos, em 1985, quando ela ainda morava, com o marido, a irmã e o cunhado, em duas barracas erguidas sobre estacas na maracha do Tejo, no Mouchão de São Brás. Eram, já nessa altura, os últimos avieiros do concelho da Chamusca. A irmã morreu pouco depois, a seguir o marido e mais tarde o cunhado. Ficou só ela, desde há uns anos a viver numa casinha na Azinhaga, dando para o Almonda. Decana deste troço do Tejo, andou na faina até ao limite da imensa força que lhe brotava do corpo seco e queimado do sol. Morreu agora, neste início de novembro e eu sinto que um bocado do Tejo morreu com ela.

A Ti’Maria pescadora era minha amiga. E eu dela. É daquelas amizades que não se explicam, como são as amizades verdadeiras. Aqui deixo um texto que lhe dediquei, em 2011, na 3.ª edição do meu livro Os Últimos Avieiros do Tejo no Concelho da Chamusca, apresentada no areal do Porto das Mulheres, na Chamusca. A Ti’Maria foi lá. Dessa vez não por causa da pesca ou do caminho a pé para casa pelo tapadão, mas em atenção a mim, ao meu trabalho que falava dela e da sua gente e ao apreço que há muito tínhamos um pelo outro. Que não será a morte a apagar.

No Porto das Mulheres, Chamusca, junho de 2011. Foto: Cultura Avieira

Aos 87 anos [em 2010], Maria de Sousa olha o Tejo sem saudade nem queixume. Não se pode ter saudade de uma vida mais feita de dificuldades e sofrimento do que de abundância e alegrias. E não temos de nos queixar da sorte que Deus nos deu, ainda mais indo longa a existência e podendo continuar a trabalhar os dias todos da semana.

A bem dizer, o Tejo é o seu mundo, toda a vida viveu nele. E dele. Nem se imagina sem o grande rio. Faz-lhe falta. Não anda bem se lá não for. Pesca quase diariamente. Sozinha. E faz tudo: constrói as redes, remenda-as, mete-se no barco, rema, lança as redes à água e volta lá mais tarde a recolhê-las, traz o peixe para terra e vende-o a um comprador. Como se tivesse metade da idade que tem.

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O marido, Manuel Sequeira da Silva, Servo de alcunha, morreu há 17 anos [26 agora]. Foi nessa altura que deixou o Mouchão de São Brás, onde viviam desde que casaram, tinha ela 26 anos, ao tempo que isso já foi…

Pouco antes, as duas velhas barracas que lá havia, a sua e a do cunhado, muito degradadas já, tinham-nas retirado e feito outras de novo para o seu lugar. Mas estava escrito que não havia de se gozar da casa nova, bem melhor que a mais antiga, que até tinha chão de soalho. Como diz o povo, quando a pega faz o ninho, morre a pega. E foi o que aconteceu ao seu homem que há muito tinha problemas de saúde. Maria de Sousa arrancou a barraca, que de nada servia lá, e mudou-se para a Azinhaga onde ainda hoje vive.

No Mouchão de São Brás apenas ficou o cunhado, Joaquim Tomás, conhecido por Joaquim Narciso, viúvo, o último resistente daquele sítio onde as irmãs Maria e Elisa e os maridos passaram a maior parte das suas vidas. Mas foi por pouco tempo, dois anos apenas, porque a morte o surpreendeu, num acidente de mota, quando regressava da Carregueira onde, como fazia há muito tempo, tinha ido vender o peixe tirado ao Tejo nessa noite.

Estávamos em 1995. Há portanto quinze anos [24 agora] que o Mouchão de São Brás, habitado desde 1949, ficou sem ninguém para sempre.

Neste Verão [de 2010] tentei ir lá, regressando ao local onde várias vezes tinha conversado com estes avieiros a meio dos anos ‘80. Mas já nada resta que se veja, ou pelo menos não achei, não é possível afirmar com segurança que era aqui que as barracas estavam. Nem o carreiro, que ligava a estrada à maracha, existe já, engolido por sucessivas lavragens. Diz Maria de Sousa que lá há de haver ainda uma figueira, uma laranjeira e um diospireiro, seus vizinhos de tantos anos. Se ninguém os arrancou ou não foram envolvidos pelas silvas, pelo mato e pelo abandono. O sítio avieiro do Mouchão de São Brás morreu de vez, só existindo na memória dos vivos, em algumas páginas que se escreveram sobre ele e em poucas fotografias que restam.

Diferente sorte teve o assentamento do Porto das Mulheres, mesmo em frente da Chamusca, onde vivia o casal Francisco Sequeira Fernandes e Maria do Rosário da Glória Lino, falecidos no início do século. A barraca, onde o marido tinha nascido, em 1908, foi demolida. Mas no sítio onde se situava mandou a Câmara colocar uma memória em azulejo que mostra como era o ambiente daquele lugar no tempo dos avieiros. Hoje muita gente por ali passa porque tudo foi ordenado e modernizado numa intervenção paisagística recente e o espaço é muito agradável para andar a pé ou de bicicleta. Ali já não há avieiros, mas ficou a memória deles.

Maria de Sousa – que devia ser Fernandes, como o pai e os irmãos, se lhe tivessem registado o apelido – nasceu e foi criada nas Moitas. Era um conjunto de três barracas avieiras que se situavam perto da Azinhaga, junto ao Tejo, e que foram levadas por um grande fogo, a meio dos anos ‘40, pouco antes do seu casamento.

Dos quatro irmãos, só vive Maria de Sousa, a mais nova. À família deram a alcunha de Lobo. Quase todas as famílias avieiras – como, de resto, acontecia também no mundo rural – tinham alcunhas que frequentemente ofuscavam por completo os apelidos do registo.

Os Lobo – António Fernandes e Maria de Sousa (mãe) – vieram da Vieira, já casados, para a zona de Santarém, talvez para a vala de Almeirim. Iam e vinham, Verão no mar, Inverno aqui, como tantos outros nesses primeiros anos do século XX. O irmão mais velho (António) ainda nasceu na Vieira, corria a Grande Guerra. A irmã Elisa já nasceu na Borda-d’Água. O irmão Luís veio ao mundo no Patacão, no concelho de Alpiarça, embora o pai o tenha ido registar a Vale de Figueira, do outro lado do Tejo. As Moitas, onde Maria de Sousa nasceu, foi lugar para onde a família se mudou, num processo caracteristicamente avieiro de permanente deslocação, atrás do peixe, em busca do pão.

Esta luta pela vida, que trouxe os avieiros da sua praia até ao Tejo e que continua ainda hoje, mais de um século volvido, teve outras expressões e outros caminhos, nem sempre ligados à água, mas sempre ligados ao peixe. Como os que a mãe de Maria de Sousa fazia, antes de ela nascer, estando ainda na Vieira, quando daí saía de madrugada para ir vender o peixe a Pombal ou a Torres Novas, a uma lonjura de léguas. Iam em grupo várias mulheres novas, a pé atrás dos burros que carregavam o pescado. E na volta, estando a carga vendida, escarranchavam-se elas nos burros que sabiam de cor o caminho, de tantas vezes o terem feito, e as levavam de volta a casa sem terem de ser guiados.

Há 25 anos [34 agora], quando conversei pela primeira vez com Maria de Sousa para preparar a 1.ª edição do meu trabalho sobre os avieiros da Chamusca, disse-me ela que nunca tinha ido à Vieira, que nunca tinha calhado. Mas que gostava de ver essas coisas do mar… E viu. Já foi à Vieira e diz agora, depois de a ter apreciado, que é a melhor praia que conhece. Tendo nascido nas Moitas e sendo mulher do Tejo, a Vieira, afinal de contas, também é a sua terra.

Foto: Câmara Municipal da Golegã

 

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