“Supremacistas”, por Vasco Damas

Foto: DR

Avançamos no tempo mas recuamos nas mentalidades e, lenta mas cadenciadamente, vamos assistindo à destruição de conquistas que retiram direitos patrocinados pela suprema hipocrisia de quem diz o contrário daquilo que pensa porque talvez pense que nos esquecemos que há muito tempo os seus discursos fomentam ódios e convidam à desagregação baseada numa desigualdade de direitos.

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O último fim-de-semana mostra que é assustador o que se passa do lado de lá do Atlântico, mas que não deixa de ser muito perigoso o que se passa do lado de cá.

Do lado de lá, em menos de 24 horas, dois tiroteios mostram que não passa de uma ilusão qualquer progresso na luta contra as armas de fogo e fazem subir para 250 o número de casos desde janeiro.

Do lado de cá, a direção de um clube de futebol da Rússia admite vender imediatamente um jogador que acabou de contratar ao Barcelona porque na sua estreia a claque adepta desse clube fez questão de o receber com apupos e com uma tarja onde se podia ler que “é tradição do clube não contratar jogadores negros”.

Do lado de lá, o Presidente classifica os ataques como atos de cobardia e afirma não haver desculpa para crimes de ódio assumindo o compromisso de trabalhar para resolver este problema.

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De lado de cá, deixamo-nos contagiar pelo pior que chega do lado de lá.

Do lado de lá, aquele que se assume como detentor da solução tem sido claramente um dos causadores do aumento da dimensão do problema.

Do lado de cá, aqueles que têm argumentos para se transformarem na solução para o problema, admitem ceder a chantagens transformando-se no problema para a solução.

De forma explícita do lado de lá ou subliminarmente do lado de cá, o fenómeno das supremacias vai ganhando dimensão e vai “tecendo” uma teia ao redor do mundo que vai aumentando o risco de nos enredar num problema sem solução.

Problema, para aqueles que, como eu, acreditam que a evolução se baseia na igualdade e na maioria das conquistas sociais das últimas décadas. Solução, para todos aqueles que acreditam que a regressão ganha sentido na desigualdade e que se deve destruir a maioria de tudo o que foi construído numa lógica de retorno aos valores da idade das trevas.

O que me deixa verdadeiramente preocupado é que, tanto do lado de lá como do lado de cá, aqueles que têm o poder de nos apresentar a solução são orgulhosamente, cada vez em maior número, representantes do problema. E esta realidade é assustadora, verdadeiramente assustadora!

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