“Sim, é possível! (II): Quando o engano nos traz entorpecidos”, por José Rafael Nascimento

Vimos, na crónica anterior, como o inverosímil nos traz muitas vezes enganados. O que parecia impossível revela-se, afinal, possível e, amiúde, espantosamente fácil. Todos os dias tomamos conhecimento de “milagres” que salvam vidas, resolvem problemas “cabeludos” ou simplesmente dão a volta ao resultado de um jogo considerado perdido. Todavia, insistimos em duvidar da capacidade individual e colectiva para mudar o que está mal, com o argumento de que a mudança “é impossível”.

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Ora, se é possível partilhar irmãmente uma cáfila indivisível de camelos, não será também possível fazer passar um deles pelo estreito buraco de uma agulha? Não tenho a ousadia de tentar apropriar-me de uma afirmação messiânica e muito menos de pôr em causa os ricos e poderosos que suportam tão respeitável congregação mas, quando os vejo a ocupar a fila da frente do reino divino, começo a acreditar que é mesmo possível fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha.

“É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, afirmou Jesus Cristo, para quem os valores do Reino de Deus eram a verdade, justiça, paz, fraternidade, perdão, liberdade, alegria e dignidade da pessoa humana. Ilustração de David Parkins.

O certo é que nunca tentei, desde logo porque não possuo um camelo, nem me é fácil arranjar um. Mas, como sou relativamente ousado e acredito que, muito do que julgamos impossível, é de facto possível, atrevi-me a abrir um buraco numa folha de papel por onde pudesse passar um camelo. Assim mesmo, literalmente. E sim, é possível fazer passar um camelo por um buraco aberto numa folha de papel! Não acredita? Então siga os passos que vou descrever.

Comece por pegar numa folha de papel e dobre-a ao meio (pelo traço laranja, ver Fig. 2). Vire o lado dobrado para si. Faça agora cortes, como se mostra na figura: primeiro, os cortes paralelos a partir do lado dobrado (nunca corte até ao fim); depois os mesmos cortes a partir do outro lado, intercalados com os anteriores; e, finalmente, os cortes na dobra, excepto nos extremos.

O que resulta destas operações (lembrando a casca cortada de uma laranja)? Uma longa fita com os extremos unidos, conformando um buraco numa folha de papel, tal como pedia o desafio. E, agora, é passar o camelo por este buraco, o qual, a revelar-se demasiado estreito, pode ser alargado aumentando o tamanho da folha ou encurtando a distância entre os cortes paralelos. Assim se conseguiu, paradoxalmente, entrar e sair simultaneamente de um buraco – aquele em que não se acreditava ser possível meter (o camelo) e aquele em que se estava metido (o problema), respectivamente.

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Método criativo, i.e. não-intuitivo, para abrir o maior buraco possível numa folha de papel. Fonte: blog.doublehelix.csiro.au

Não há aqui milagre, nem sequer magia, há apenas a aplicação de um método que, respeitando a regra do desafio e aproveitando ao máximo o recurso (folha de papel), prova ser possível aquilo que intuitivamente se considerava impossível. O segredo da solução residiu na utilização do pensamento lateral (ou divergente), em vez do pensamento linear (ou convergente), tal como fez Colombo quando pousou verticalmente o ovo na mesa (era este, e só este, o desafio), achatando-o ligeiramente na base.

Os buracos, aliás, prestam-se a outros paradoxos, desde logo porque não existem. São, como afirma o filósofo italiano Roberto Casati, “ausências, não-entidades, não-existências, coisas-que-não-estão-lá”. Sendo assim, nada mais há a dizer sobre eles senão tranquilizar quem porventura tenha ficado preocupado com o sustento dos filósofos – que, tendo-se dedicado a pensar sobre buracos, ficaram desempregados – dizendo-lhes que eles estão bem, a trabalhar na divisão de obras dos seus municípios.

Já em criança brincávamos com este paradoxo, pedindo aos nossos amigos que adivinhassem “Qual é a coisa, qual é ela, que quanto mais se tira maior fica?”. Ou, então, com o problema semântico-matemático com cheiro a trapaça “Se um buraco leva 1 hora a escavar, quanto tempo leva a escavar meio buraco?”. Chegados à adolescência, soubemos dos “buracos negros” – esses famosos “túneis ao fim da luz” – e dos “buracos de minhoca” – onde Mestre Yoda caiu, durante uma viagem no tempo, levando-o a inverter as frases.

Será possível que estas linhas (com aspecto de “buracos de minhoca”) aparentemente inclinadas, sejam perfeitamente paralelas e horizontais? Verifique, por si próprio, como uma ilusão de óptica o pode enganar.

Diz-se, em tom de brincadeira, que “a vida é um buraco”, pois estamos sempre a passar por buracos ou a permanecer neles, desde que nascemos até que morremos. Mas também se diz que “isto está um buraco” quando a situação é má ou as coisas estão a correr mal. O desafio, então, é o de sair do buraco, missão ou objectivo que alguns poderão achar “impossível”, porque assim erradamente lhes parece.

A crença, leviana e cómoda, na “impossibilidade” da acção humana e seu sucesso, indicia um sentimento de baixa auto-eficácia e, eventualmente, de fraca auto-estima. Mas, como lembrou o duque de La Rochefoucauld, “nós temos mais poder do que vontade”. Já aqui escrevi sobre o potencial de mudança de cada pessoa e colectivo (ver aqui), tendo então afirmado que “falta nas nossas comunidades o chamamento de todos e de cada um à responsabilidade para com as suas aldeias, vilas e cidades”. E perguntei “Quem tem medo da mudança?”.

Se o inverosímil nos traz muitas vezes enganados, é este engano que nos traz habitualmente entorpecidos. Um torpor que nos drena as energias, desmotiva e paralisa. Alexandre, o Grande, afirmou um dia que “nada é impossível para aquele que tenta”, nem que para isso, notou Miguel de Cervantes, “se deva tentar o absurdo”. A “impossibilidade” não é buraco onde a gente viva. Lá, vive o rato e a toupeira, não a força do optimismo, da confiança e da determinação. Lá, reina a escuridão e o medo, não a luz da sabedoria, do progresso e do desenvolvimento.

*Por vontade do autor, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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