“Sim, é possível! (I): Quando o inverosímil nos traz enganados”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Scott Balmer

Quando eu era miúdo e fazia algo de errado, a minha mãe costumava exclamar “Parece impossível!”. Ainda estou a ouvi-la, naquele misto de surpresa, censura e perdão, aliado ao sofrimento de ver a jarra de porcelana feita em cacos e ao incontido gozo de mirar a inocente criança, toda acabrunhada, posando ao lado da indisfarçável prova da traquinice. Talvez tenha sido esta expressão que me levou, mais tarde, a reflectir sobre a aparência da impossibilidade.

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Se foi assim tão fácil e, até, involuntariamente possível, acontecer o que “parecia impossível”, será que estamos muitas vezes errados quando dizemos que algo é impossível? Será que a nossa maravilhosa mente nos ilude e fatalmente nos pode levar ao engano, em matéria de atenção, compreensão ou memória? Será que, afinal, muito do que nos parece impossível – desde um simples passatempo mental até uma transcendente mudança política ou social – é, de facto, possível?

Aquilo que parece impossível e a que chamamos “milagre”, está sempre a acontecer. Porquê, então, duvidar da possibilidade? Pintura de James Werner, retratando o Cmdt. “Sully” Sullenberger e o Milagre do Rio Hudson

Conta-se a história do velho árabe que, às portas da morte, ditou a forma como a herança, composta por 17 camelos, deveria ser partilhada pelos seus três filhos: o primeiro receberia metade, o segundo um terço e o terceiro a nona parte. Falecido o bom e rigoroso homem, os filhos depararam-se com um problema difícil: ou esquartejavam alguns animais, coisa a que o pai se opunha, ou teriam de achar uma solução cuja viabilidade nenhum deles vislumbrava.

“É impossível!”, exclamaram os irmãos quando constataram o resultado da divisão dos 17 camelos pelos três: o primeiro receberia 8,5 animais, o segundo 5,66 e o terceiro 1,88. Mas um deles, aquele a quem a vida tinha proporcionado mais saberes, reflectindo disse: “Não, não devemos dizer que ‘é impossível’ porque isso fecha as portas a uma eventual solução, no presente ou no futuro. Devemos antes dizer que ‘parece impossível’ ou ‘não estou a ver como possa ser possível’, pois desta forma estaremos sempre abertos a uma solução que busquemos ou nos apareça por acaso”.

Foi assim que os três irmãos decidiram procurar o conselho da pessoa mais sábia da aldeia, a qual, não por coincidência, também possuía uma cáfila de camelos. Disse-lhes o sábio: “Empresto-vos um camelo e ide refazer as contas”. Assim fizeram e, depois de dividirem os 18 camelos pelos três, conforme o falecido pai determinara, verificaram com grande surpresa que a soma dos camelos partilhados (9+6+2) totalizava 17 animais, o que lhes permitia devolver o camelo emprestado.

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Foi um artifício matemático que permitiu alcançar o objectivo e satisfazer as partes. Noutros casos, as soluções “integrativas” passam por adicionar outros interesses ao objecto negocial. Foto de Fayez Nureldine

Além disso, os três ficaram com a sensação de que, não só tinham recebido animais vivos e íntegros, como até em maior quantidade do que aquela que resultava da divisão inicial dos 17 camelos. Esta é uma solução típica (entre outras) da abordagem negocial dita “cooperativa” ou “integrativa” (oposta à “distributiva” ou de “soma nula”): as partes ficam com o sentimento de que ambas ganham (“win-win”) e não de que uma ganha à custa da perda sofrida pela outra (“win-lose”).

Mas não se pense que todos os dilemas têm uma solução apenas racional e lógica. Também o afecto e a intuição são geralmente chamados a colaborar na decisão, senão mesmo a decidir. A conhecida história do Julgamento de Salomão mostra como, na impossibilidade de decidir somente com a cabeça, face à ausência de inequívocas provas e testemunhos, o monarca usou o coração para chegar à melhor decisão.

Assim, quando procurado por duas mulheres que reivindicavam como filho o mesmo bebé, o Rei Salomão mandou um dos guardas cortar o recém-nascido ao meio e dar metade a cada uma das mulheres. Enquanto uma considerou justa a decisão, a outra implorou ao Rei, em pranto, que não matasse o bebé, preferindo que o mesmo fosse entregue àquela. O monarca não teve dúvidas, então, de quem era a verdadeira mãe e mandou entregar o bebé à sofrida mulher.

O Julgamento de Salomão ficou consagrado na Bíblia como prova da Sabedoria de Deus entre os homens. Desenho de Rubens

Neste mundo em que vivemos, é comum herdarmos problemas complicados, deixados por quem devia tê-los resolvido, ou até evitado, antes de partir. Amiúde, confrontamo-nos também com dilemas de “impossível” ou dolorosa resolução. Profissionalmente, “a curiosidade leva-nos [frequentemente] a novos caminhos e é divertido fazer o impossível” (Walt Disney). E, como se não bastassem estes desafios, ainda preenchemos momentos de lazer com exercícios mentais que põem à prova a nossa capacidade criativa e de raciocínio.

Mas, reparem bem como aquilo que muitas vezes aparenta ser inviável e irrealizável é, afinal, indubitavelmente possível e exequível. Embora se reconheça que também é verdade o contrário, razão pela qual alguém disse que “nada é tão difícil, nem tão fácil, quanto parece”. Por outras palavras, tendemos a extremar perspectivas, para que se torne mais clara e fácil a decisão. Há, naturalmente, que ter cautela e relativizar o resultado esperado.

Nelson Mandela afirmou um dia: “Parece sempre impossível, até ser feito”. Jean Cocteau, com dose acrescida de ironia, observou: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”. Mais do que sabedoria, esta é uma realidade que todos constatamos no dia-a-dia e que nos leva a questionar porque é que as crianças, na sua inocente liberdade e curiosidade, conseguem tantas vezes resolver problemas difíceis com soluções que os adultos achavam inverosímeis.

*O texto do autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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