“Semana Santa”, por Vasco Damas

Foto: Pixabay

Cá estou eu de novo em frente à página em branco sem saber bem por onde devo começar. Nas últimas semanas este ritual tem-se repetido com uma frequência cadenciada. Muitas vezes nem é bem a falta de assunto que me atrasa o começo mas antes a forma de o abordar para não dar espaço a interpretações imprecisas que distorçam o que pretendo transmitir.

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Em bom rigor, tem havido dias em que me chego a sentir amarrado ou mesmo amordaçado com receio das consequências e do impacto que podem chegar atrás das minhas palavras escritas. Logo eu que nunca tive medo de assumir a defesa das minhas ideias.

A vida é uma escola que nos ensina a ter a humildade de não dar nada por garantido mas, sem perder princípios nem valores, devemos ter também a inteligência de dar os passos em função da firmeza do terreno, aproveitando os valores da semana para renascermos mais despertos e preparados para enfrentar os desafios do futuro.

Bem vistas as coisas, ao contrário das rotinas que já não nos acrescentam valor, acabam por ser esses desafios os responsáveis pelo nosso crescimento porque nos obrigam a pensar “fora da caixa” para encontrar as respostas para as perguntas que ainda não sabíamos que existiam. São também eles que nos obrigam a encontrar as soluções para os problemas que julgávamos que só aconteciam aos outros… mas quando temos a humildade de olhar à nossa volta percebemos que os nossos problemas não são nada quando os comparamos com quem “luta” para chegar ao fim do dia com vida.

A semana é santa mas o mundo anda distraído. Dizendo-o com outro rigor, a semana é santa mas o mundo tem problemas bem menos importantes com que se entreter para fingir que anda ocupado.

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Hipocrisia dos tempos modernos que inverteu a pirâmide da cadeia de valores passando a dar prioridade ao que é acessório e a ignorar o que devia ser prioritário.

A semana é santa mas há crianças que continuam a morrer por causa da fome e da guerra.

São estes desequilíbrios e estas assimetrias que me continuam a revoltar. A solidariedade tem-se vindo a transformar em ajuda interessada, mas numa lógica inversa, em defesa dos interesses de quem ajuda e não de quem é ajudado.

A semana é santa mas há muito que o mundo passou a ser profano. Talvez assim sempre tenha sido e eu simplesmente me esteja a tentar enganar. Ou então, não, e ele afinal não seja mais que o reflexo daquilo que projetamos ou deixemos que projetem por nós.

Seja como for, a semana continua a ser santa. Aproveitemos a boleia e façamos os sacrifícios que a época exige para podermos continuar a pecar de consciência tranquila no resto do ano. Se tem sido sempre assim porque haveria de ser diferente este ano?

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