“Se um mosquito incomoda muita gente…”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Elly Maddock

Imaginem o que não incomodam nuvens e nuvens de mosquitos! A que não estão imunes os mais poderosos do planeta, como o majestoso Rei da Selva. Com arrogante desprezo, diz o leão ao mosquito: “Vai-te, excremento do Orbe, vil insecto!”, ao que este responde: “Cuidas que tenho susto, ou faço caso, / De que rei te intitules? Mais potente / É um rei, que tu não és, e eu dou-lhe o amanho, / Que me dá na vontade. – Assim falando”. De imediato, “atira-se ao pescoço / Do leão, que enlouquece, / Que escuma, e que nos olhos relampeja: / Ruge horrendo, e pavor em roda infunde / Tão rijo, que estremece, e que se esconde / Toda a gente” (La Fontaine). 

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Os mosquitos são pequenos insectos portadores de parasitas transmissores da malária (paludismo). Esta doença infecciosa é causada por protozoários do género plasmodium, transmitida ao homem e a outros animais pela fêmea (melga) do mosquito anófele, manifestando-se geralmente por sezões (febres). Mas, mesmo na ausência do parasita, o zumbido e a picada do mosquito podem causar grande incómodo e, até, reacções alérgicas em algumas pessoas. Eles são atraídos pela temperatura corporal, hormonas e CO2 que libertamos, parecendo ter preferência pelo sangue de tipo O.

Diz-se, por piada, que quando um mosquito pousa na parte mais sensível do nosso corpo, compreendemos que nem tudo pode ser resolvido com violência. Mas violenta tem sido, sem dúvida, a acção devastadora do mosquito sobre o homem. No seu livro “Mosquito: Uma História Humana do Nosso Mais Mortífero Predador”, o historiador Timothy Winegard estima que este minúsculo insecto, mais do que qualquer outra causa isolada, é responsável pelo desaparecimento de 52 biliões de pessoas, cerca de metade da Humanidade alguma vez existente.

O autor considera-o o maior predador do planeta, “destruidor de mundos e derradeiro agente de mudanças históricas”. Entre muitos outros exemplos, Winegard refere que os dinossauros já estavam em declínio, devido à acção dos mosquitos, há 66 milhões de anos, antes de a Terra ter sido atingida – na península do Yucatan (México) – por um asteróide com a potência de 10 biliões de bombas atómicas (com o mesmo poder das usadas em Hiroshima e Nagasaki).

O homem e o mosquito são os seres mais perigosos do planeta. Conseguirá o homem vencer a guerra contra a malária? E, se vencer, quais serão as consequências? Imagem: Gates Notes

Em África, os povos pré-históricos foram dizimados pela malária, tendo desenvolvido características genéticas que lhes permitiram sobreviver a ela. A doença matou centenas de milhares de antigos gregos e romanos, determinando o resultado de muitas guerras em que estiveram envolvidos. Na Ásia, a historiadora chinesa Sima Qian reportava em 94 aC que “na área ao sul do Yangtze a terra é baixa, o clima húmido e os homens morrem jovens” (de malária). Devido a esta doença, os movimentos expedicionários e migratórios europeus para outros continentes sofreram muitos milhares de mortos e sérios revezes, constituindo paradoxalmente uma barreira à protecção dos povos nativos. 

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Hipócrates associou o recorrente surto da malária no final do Verão à estrela Sirius, da constelação do Cão Maior e, no terceiro século dC, as epidemias de malária ajudaram a projectar o Cristianismo como uma religião que mudou o mundo, orientada para a cura e o cuidado dos doentes. Na Bíblia, Jesus usa a metáfora do mosquito (o menor animal impuro mencionado nas restrições alimentares do Antigo Testamento) para se referir à hipocrisia dos fariseus: “Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!” (Mateus 23:24).

Na já citada obra, revista por Brooke Jarvis para a revista The New Yorker, defende-se que a Grã-Bretanha nasceu do fracasso de uma expedição escocesa à região do actual Panamá, em que morreu de malária e febre-amarela a maior parte dos 1.200 colonos embarcados, gorando a tentativa do faminto e desesperado reino independente da Escócia de criar um grande entreposto comercial, financiado por investidores tão diversos como membros do Parlamento e agricultores pobres.

Segundo o autor, os protozoários transmitidos pelos mosquitos arrasaram os exércitos de Gengis Khan no Sul da Europa, aniquilaram as forças de Aníbal que marcharam sobre Roma, impediram os Cruzados de conquistar a Terra Santa (mais de um terço morreu de malária) e ajudaram os colonos norte-americanos e os revolucionários latino-americanos a enfrentar poderosos exércitos regulares. Os mosquitos foram, inclusivamente, usados como arma biológica de guerra por Saladino, Napoleão e Hitler, sendo construídos diques com águas estagnadas para provocar mortíferas epidemias de malária (geralmente em ambos os lados, não escapando os comandantes).

Em cima: Marines americanos afectados pela malária, num hospital de campanha em Guadalcanal (1942).
Em baixo: Atabrine (quinacrine), o medicamento mais usado para combater a malária durante a II-GGM.
Imagens do Museu Nacional do Exército dos Estados Unidos

Mas Timothy Winegard vai mais longe e afirma que a moderna Democracia, iniciada com a Magna Carta, resulta de um conjunto de contingências sequenciais que incluem o malogrado cerco a Damasco em 1148, o subsequente divórcio de Leonor de Aquitânia, o casamento desta com Henrique II de Inglaterra, o nascimento do Rei João e o conflito deste com os barões ingleses. Com ou sem exagero, parece evidente o papel que os mosquitos tiveram na evolução da História e na formatação do mundo, tal como o conhecemos hoje.

A influência do mosquito mantém-se na actualidade, emergindo periodicamente – em várias regiões do planeta, inclusive em países desenvolvidos – surtos de Dengue, Zika e Nilo Ocidental, mas também de Encefalite, Elefantíase, Chicungunha e Febre Amarela. Estas doenças são provocados principalmente por mosquitos das espécies Aedes, Anófele e Culex, entre mais de 3.000 espécies existentes em todo o Mundo.

O processo de Globalização e as alterações climáticas contribuem para a disseminação destas ameaças, as quais têm resistido ao progresso científico e tecnológico e nos fazem reflectir sobre o poder das forças da natureza. De qualquer modo, a luta contra a malária prossegue e isso, como se viu, terá um forte impacto não apenas na saúde da população mundial, mas em todos os eventos em cadeia que daí decorrem.

Os dados estatísticos sobre o impacto da malária em todo o Mundo são esmagadores: o parasita infecta anualmente 700 milhões de pessoas e mata perto de 1 milhão; cerca de metade dos países reporta casos de malária (conhecidos e oficiais, não a totalidade); a doença afecta sobretudo os países e regiões menos desenvolvidos, sendo as principais vítimas mulheres grávidas e crianças (mais de 2/3 dos casos); e, enquanto estiver a ler esta crónica, terão morrido de malária mais 5 crianças em todo o Mundo.

Visita de Bill Gates a hospitais e unidades de investigação em malária, apoiados pela sua fundação. Imagens: Gates Notes

As estratégias de combate ao paludismo são variadas e existe grande controvérsia quanto à sua eficácia. A Fundação Bill e Melinda Gates tem estado, como bem se sabe, na linha da frente deste combate, promovendo a investigação e inovação em meios de protecção, insecticidas, medicamentos, vacinas e tecnologias genéticas (de supressão ou substituição de colónias de mosquitos). Contudo, as mensagens veiculadas parecem ser contraditórias: acredita-se, por um lado, na completa erradicação da doença até meados deste século, mas, por outro lado, reconhece-se que a resistência aos novos medicamentos e insecticidas está a crescer e que as taxas de infecção estabilizaram, ou mesmo aumentaram.

Talvez ambas as correntes tenham razão, designadamente quando a primeira pensa no longo prazo e a segunda no curto prazo, pretendendo estas últimas que as autoridades políticas e sanitárias, entre outras, actuem com maior rapidez, eficiência e eficácia. Importa notar, contudo, que a erradicação do mosquito poderá ter consequências nefastas para a natureza. Além de os mosquitos terem sido os melhores guardiões das florestas tropicais (contra a acção destruidora do homem), eles contribuem significativamente para a polinização das culturas agrícolas e a alimentação dos pássaros, peixes e outros pequenos animais.

O MOSQUITO COMO METÁFORA

Imaginem, agora, que ao invés de ser portador e transmissor de agentes patológicos, o mosquito propagava coisas boas, positivas para a sociedade (é neste sentido, aliás, que avança a investigação e modificação genética do insecto). Podemos, então, imaginar um sem número de estratégias e aplicações que poderiam contribuir decisivamente para o bem-estar da Humanidade, tanto no campo da saúde humana e animal, como noutros domínios. Nesta perspectiva positiva, podemos também usar o exemplo do mosquito como uma metáfora para a acção individual, na óptica que defendi em crónica anterior intitulada “Cada um deve fazer a sua parte”.

O “mosquito metafórico” seria, então, o portador e transmissor da mensagem de esperança e mudança, causando um impacto social “para além do imaginável”. Como afirmei nessa crónica, “muito da acção colectiva tem origem na palavra e no exemplo inspirador de um só indivíduo, levando depois um número elevado de pessoas a terem o mesmo sentimento de auto-eficácia e a acreditarem que podem fazer a diferença e gerar mudança (p.e. participando e votando) ”. Quem não acredita no poder da acção individual, deveria reflectir sobre a máxima “Se pensas que és demasiado pequeno para fazer a diferença, tenta dormir com um mosquito no quarto”.

Cartoon político na capa da Revista Judge (4 de Fevereiro de 1899), com o título “Bate-lhe forte!”, mostrando o presidente americano William McKinley a golpear o mosquito “Insurgente Aguinaldo”, um general revolucionário que se tornou o primeiro presidente das Filipinas, enquanto outros mosquitos “insurgentes” se aproximam. Ilustração de Grant Hamilton

Sendo portador e transmissor de uma “mensagem viral”, a acção do “mosquito metafórico” tem um efeito de difusão ou disseminação semelhante ao que descrevi aqui há duas semanas, tendo afirmado que “o crescimento exponencial ocorre, por exemplo, no processo de interacção e influência social, vulgarmente conhecido por ‘fenómeno viral’, ‘passa-palavra’ ou ‘de boca em boca’, sobretudo quando praticado por líderes de opinião”. Com o advento das redes sociais, esta propagação tornou-se hiperbólica.

Mas o fenómeno não é apenas quantitativo, ele é também qualitativo. Refiro-me, não apenas à persistência do chato mosquito, mas também à sucessão de eventos que a picada do mosquito pode provocar e determinar, a qual, na Teoria do Caos, é conhecida por Efeito Borboleta. Aplicada ao domínio social, a metáfora do mosquito permite-nos imaginar interessantes impactos positivos determinados pela acção de um só indivíduo ou de um pequeno grupo de “mosquitos metafóricos”. Como afirmou Kevin Michel, “Pequenas modificações na forma de pensar e na energia de uma pessoa, podem conduzir a alterações massivas dos resultados finais”.

Na fábula “O Leão e o Mosquito”, aprendemos uma “doutrina serviçal”: “Que o que mais entre inimigos / Devemos de temer, são muitas vezes / Os mais pequenos deles”. E, atenção, aprendemos também outra: “Que alguém escapa aos perigos, / Que em menor lance acaba”. Vitorioso, o pavoneante mosquito havia sucumbido: “Certa aranha, que estava de emboscada, / De sobressalto o colhe, / E lhe chupa a ufania” (La Fontaine). Olvidando o conselho de um velho, de aspecto venerando: “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça/ Desta vaidade a que chamamos fama!” (Camões).

O que é certo é que, qual David contra Golias, o minúsculo, frangível e azucrinante pernilongo consegue dar cabo do cabedal dos mais grandiosos, poderosos e perigosos predadores deste planeta. E, ao contrário de outros animais que atacam em grupo uma única presa, o mosquito consegue arrasar, sozinho, multidões de bem preparados, equipados e motivados combatentes (humanos e não-humanos). Numa luta de um contra todos que é, sem dúvida, em muitos aspectos desigual. Guardem, pois, esta metáfora que é a todos os títulos inspiradora: Se um mosquito incomoda muita gente, a mosquitada toda – unida e determinada – incomoda muito mais. Zzzz–zzZZZzzz–zzZZ…

*O autor não escreve segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico.

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