Saúde | Caos nas urgências de Leiria não tem retirado utentes de Ourém

FOTO: D.R.

Ourém passou anos a lutar por um acesso aberto ao Hospital de Leiria, até que uma mudança na legislação veio permitir uma maior circulação entre hospitais. Hoje os bombeiros de Ourém (inclui Espite e Freixianda), Fátima e Caxarias encaminham-se sobretudo para o Hospital de Leiria e nem o caos que se vive nas urgências da unidade de Santo André, incapaz de dar respostas à afluência, está a redirecionar os doentes para o Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT).

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Da parte do CHMT, a administração refere que o atendimento ao concelho de Ourém nunca diminuiu e este mantém-se na sua área de referência. Porém, o demissionário presidente do Centro Hospitalar de Leiria (CHL) aponta a entrada de Ourém no atendimento como uma das origens dos problemas atuais da instituição.

Na última semana, o presidente do conselho de administração do CHL, Hélder Roque, tornou pública a sua demissão à instituição, comunicada à Ministra da Saúde a 28 de fevereiro, em “protesto” pela falta de recursos. Numa carta dirigida aos funcionários do Centro Hospitalar, a que a Lusa teve aceso, o responsável refere que se bateu “incessantemente pela obtenção de mais meios”, por forma a que existisse algum equilíbrio face à atual dimensão da instituição de saúde.

“Por duas vezes, ao longo deste percurso, solicitei a minha saída. Por duas vezes me deram expectativas quanto à resolução de diversos dos problemas do CHL. Por duas vezes recuei expectante”, acrescentou.

Helder Roque destacou que a tutela “não foi parca em elogios ao trabalho” realizado, mas “foi parca em meios”, sobretudo depois da entrada do concelho de Ourém, no distrito de Santarém, na sua área de influência. “Não há condições para colmatar as necessidades mínimas em pessoal, não há meios para investimento. As medidas de contenção acabam por só permitir a libertação de meios para que os mais gastadores paguem as suas dívidas”, sublinhou.

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Admitindo que, por essas razões, o CHL “vive momentos bastante difíceis e de bastante saturação“, Helder Roque recordou que em 2005, quando foi eleito presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santo André, antes de ser criado o CHL, formou uma equipa com o objetivo de levar para a região “um hospital de referência no quadro do Serviço Nacional de Saúde”.

“A dimensão que atingimos foi reconhecida. Pela organização e qualidade dos serviços, pelas valências implementadas, pela otimização da relação custo/benefício”, escreveu, realçando que “foi uma honra liderar e trabalhar com tantos colaboradores que têm vontade de acrescentar valor e prestígio a esta instituição”.

A situação de saturação na urgências de Leiria é conhecida há algum tempo, mas desde o início do ano que se tem vivido uma pico ainda mais excessivo, não obstante, segundo dados divulgados pelo CHL, cerca de metade dos utentes que se dirigem à urgência sejam não urgentes. O entupimento do serviço de urgência tem afetado em particular os Bombeiros por todo o concelho de Ourém, que adiantaram ao mediotejo.net situações de várias horas de espera das ambulâncias porque não havia macas no hospital para libertar o serviço.

Este tipo de situação já se vinha registando há algum, comentou o Comandante Guilherme Isidro, dos Bombeiros de Ourém, mas tem piorado desde o início do ano, com a corporação a chegar a emprestar macas próprias suplentes ao Hospital para libertar as ambulâncias. “Já tivémos ambulâncias retidas duas horas”, recordou, constatando tempos de espera superiores aos que seriam normais.

Os Bombeiros de Ourém continuam a encaminhar-se para Leiria em situação de urgência, uma vez que é o serviço mais próximo deste concelho, tendo sido recentemente direcionados para o Hospital de Tomar apenas quando o serviço esteve encerrado devido à falta de médicos.

O mesmo cenário foi descrito ao mediotejo.net pelo Comandante Gaspar Reis, dos Bombeiros de Fátima, recordando um episódio já com um ano em que uma ambulância ficou retida em Leiria cerca de sete horas. “Duas/três/quatro horas tem acontecido com regularidade”, referiu, assim como estarem duas ambulâncias desta corporação presas em Leiria e sem hipótese de ir prestar outro atendimento enquanto as macas não forem libertadas.

Noutras situações, adiantou, o serviço foi encaminhado para os hospitais de Tomar e Torres Novas, comentando porém que houve casos dos utentes serem novamente reencaminhados ou mandados embora.

“Por norma vamos para Leiria, só em condições excecionais temos sido encaminhados para outros hospitais”, explicou. Os picos de afluência às urgências por esta altura do ano são normais, mas o responsável reconheceu que se vive uma situação anómala de tempos de espera.

Na corporação de Caxarias, explicou o Comandante Hélder Silva, os acidentes são encaminhadas para Leiria, os doentes para Tomar e sobretudo Abrantes. Tal como nas corporações do restante concelho, os tempos de espera das ambulâncias em Leiria têm atingido várias horas.

Não obstante a manifesta preferência de Ourém pelo Hospital de Leiria, o presidente do conselho de administração do CHMT, Carlos Andrade Costa, adiantou por email ao mediotejo.net que este Centro Hospitalar “nunca deixou de receber doentes do Concelho de Ourém. Os utentes de Ourém foram sempre atendidos, tanto nas Urgências como em quaisquer outros dos serviços deste Centro Hospitalar”.

“O CHMT, EPE, nos  últimos anos tem aumentado sempre, e de forma consistente, o número de atendimentos nas mais diversas áreas de prestação de cuidados, com o empenho de todos os profissionais. Beneficiando utentes de Ourém ou de qualquer outra região do Médio Tejo”, tendo sido registado “um aumento da actividade em benefício de todos os utentes da nossa Região”.

Não obstante as mudanças na legislação e o acesso mais livre aos hospitais, o CHMT continua a considerar Ourém como estando na sua “área de referência, nunca tendo deixado de atender os cidadãos deste concelho. Assim é nos Cuidados de Saúde Primários. Assim é nos Cuidados de Saúde Hospitalares. Razão pela qual a população de Ourém nunca foi diminuída ao universo de utentes do CHMT,EPE. E os dados assistências mostram-no, quer no atendimento para consultas quer para qualquer outro tipo de actividade assistencial neste Centro Hospitalar”, conclui a mesma nota.

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