Sardoal | Tapetes de flores, aromas campestres, arte, património cultural e devoção durante a Páscoa (c/FOTOS)

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Casa Grande. Créditos: mediotejo.net

Durante a Semana Santa, as igrejas e capelas, não apenas na Vila, mas também das aldeias do concelho de Sardoal, estão decoradas com tapetes feitos de pétalas de flores e verduras naturais, com desenhos alusivos à época. O trabalho começa na quarta-feira, prolongando-se pela noite dentro, envolvendo toda a comunidade. Na quinta-feira, 18 de abril, o mediotejo.net visitou sete templos onde esta tradição, que se julga única no País, atrai milhares de visitantes durante a Páscoa.

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A tradição dos tapetes de flores nas igrejas e capelas de Sardoal, durante a Páscoa, já existia com grande esplendor no século XIX. O facto da Páscoa ser para os católicos a festa mais importante da fé cristã, porque celebra a “Salvação”, essa verdade não escapa nem aos sardoalenses nem a quem os visita na fé e na curiosidade de conhecer as tradições partilhadas. Enfeitar as Igrejas e Capelas com tapetes de flores é uma das mais emblemáticas cerimónias da Semana Santa de Sardoal.

Igrejas e capelas enfeitadas em Sardoal. Foto: mediotejo.net

Há uma teoria sugestiva sobre a criação dos tapetes de flores, que atualmente são instalações de arte que saem da mente criativa e das mãos habilidosas dos populares inspirados pelo tema da Semana Santa. Conta-se que, em 1303, aquando de uma vista da Rainha Santa Isabel a Sardoal, na pobreza e sem tapetes persas para receber condignamente a rainha consorte de Portugal, fizeram-se tapetes de flores.

Especulação ou suposição, facto é que a tradição dos tapetes feitos à base de pétalas de flores e verduras naturais veio para ficar, mantendo-se não só em Sardoal como se estendeu, desde há seis anos, a oito capelas e igrejas do concelho fora da vila, para apreciação de todos a partir de Quinta-feira Santa.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Igreja Matriz. Créditos: mediotejo.net

A visita começou pela Igreja da Matriz, uma visita guiada por João Soares, técnico de Conservação e Restauro da Câmara Municipal de Sardoal. O templo é o elemento patrimonial mais importante do concelho. Foi construída nos finais do século XIV ou século XV. Possui elementos de várias épocas, Gótico, Renascimento, Barroco até ao Neoclássico. Do século XVI os elementos mais importantes são seguramente as tábuas do Mestre do Sardoal. O altar-mor em talha dourada, do período Barroco Joanino, e os painéis de azulejos de Gabriel del Barco são outros elementos a destacar.

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Mas esta quinta-feira, 18 de abril, a visIta à Igreja Matriz ficou marcada pelo apelo do padre Carlos Almeida lançado ao presidente do Turismo do Centro, Pedro Machado, presente na visita, no sentido da recuperação daquele património com graves problemas de conservação não só do edifício (chove dentro da igreja) como do património integrado e móvel. Isto porque o Turismo de Portugal acabou de rejeitar a candidatura da Fábrica da Igreja Paroquial da freguesia de Sardoal ao Programa “Valorizar”, no âmbito da requalificação da Igreja Matriz, por considerar não ser património do interesse turístico nacional.

Nesse sentido, o padre apelou à preservação da igreja onde o tecto do altar mor está em risco de degradação, apoiado pelo padre Francisco Valente, presidente dos Bens Culturais da Diocese, que avançou com o interesse em candidatar a Igreja Matriz a monumento nacional por ter “a relevância suficiente”.

Relativamente a este assunto, o presidente da Câmara de Sardoal, Miguel Borges, afirmou que “só quem não vem a Sardoal é que não percebe que este património é fundamental para o turismo local, estratégico para o desenvolvimento da economia local”.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Igreja Matriz, teto do altar-mor a necessitar de recuperação. Créditos: mediotejo.net

A secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, foi convidada para acompanhar a visita às igrejas e capelas nesta Quinta-feira Santas, mas não pôde comparecer remetendo a vista para data posterior.

A Igreja Matriz da Paróquia de São Tiago e São Mateus, que possui três naves, rosáceas, e do lado esquerdo a Capela lateral dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, onde estão as Tábuas do Mestre Sardoal deixadas por Vicente Gil e Manuel Vicente, é uma das mais importantes heranças culturais e artísticas do concelho.

A importância da oficina do Mestre do Sardoal para a História da Arte Portuguesa centra-se na transição do estilo gótico para o renascentista, designados por “Primitivos Portugueses”.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Igreja Matriz a necessitar de obras urgentes. Créditos: mediotejo.net

Nessa igreja, com cortinas e passadeiras em tom carmim, um retábulo para onde é transladado o “Santíssimo” após a cerimónia do lava pés, não se instalou um tapete de flores. A tradição passa pela ornamentação do altar com mais de 30 vasos de trigo germinado no escuro, adquirindo por isso uma tonalidade amarela, da responsabilidade do sardoalense José Martins. Ali será adorada a hóstia consagrada. Todos os anos a decoração é a mesma, simbolizando a ressurreição depois da primeira Eucaristia com a consagração do pão.

Do lado direito, está o retábulo da Nossa Senhora da Conceição e outras esculturas cenográficas na tentativa de aproximação do real. A estátua, tal como uma outra representando a Senhora das Dores, veste-se de cabelo verdadeiro para dar sentido de realidade a quem a observa, à semelhança do que se fez em Sevilha, na vizinha Espanha. São imagens que guardam grande carga emocional.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Igreja Matriz. Créditos: mediotejo.net

Sobre a preocupação manifestada pelos dois padres e também por Miguel Borges, o presidente do Turismo do Centro considerou “circunstancial” a rejeição da candidatura ao programa ‘Valorizar’ mas garantiu que “o problema da recuperação e qualificação do património religioso ou cultural é uma preocupação” do Turismo do Centro de Portugal.

“Hoje percebemos que muita da visitação que é feita na região Centro de Portugal está associada ao turismo cultural e patrimonial e por isso se queremos promover e fomentar a atratividade turística para um turismo que é cultural e patrimonial e se não tratamos bem os nossos patrimónios, alguma coisa não está bem!”, notou ao mediotejo.net Pedro Machado.

Por isso, “pugnamos em primeira instância para junto de instâncias, seja no programa Valorizar, neste caso com o Turismo de Portugal, seja no âmbito da Direção Geral do Património e da Cultura, através de programas associados à Cultura, seja no âmbito do programa operacional do Centro, somos embaixadores e porta-voz para que estes patrimónios possam ser recuperados, senão caímos num erro conceptual: aumentamos a promoção, fazemos a internacionalização e quando as pessoas chegam correm o risco de ver o património fechado porque não está recuperado”, afirmou Pedro Machado.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Créditos: mediotejo.net

O presidente do Turismo do Centro lamentou não ser detentor dessa responsabilidade “mas junto do secretário de Estado da Administração local e junto da secretária de Estado do Turismo tudo faremos para que possa acontecer”, garantiu.

Quanto à rejeição, disse ser “circunstancial” provavelmente por “dificuldades orçamentais” ou ligadas “ao volume das candidaturas” acreditando não ser “uma não aprovação fundamentada no não reconhecimento deste património com valor suficiente” ou eventualmente “numa avaliação técnica onde possa não ter havido o critério que deveria ter subjacente o rigor da avaliação e este não ter sido colocado nesta primeira prioridade”, referiu Pedro Machado, confiando “ainda ir a tempo de recuperar esta candidatura”.

Seguiu-se a Igreja da Misericórdia, marco da arquitetura da Renascença na região, uma Igreja do século XVI com decoração típica da renascentismo, cujo ícone é uma Nossa Senhora que carrega um manto num simbolismo de proteção de todos os povos.

No corredor em repouso, aguardando mais à noite a Procissão do Senhor da Misericórdia (ou Fogaréus), painéis representando Cenas da Paixão de Cristo, pertença da Misericórdia. Mais à frente a primeira instalação que vimos, o tapete de flores cujo desenho transporta o visitante para o vitral, técnica muito presente na arte sacra. Nele surge representada a imagem de Jesus Cristo de pé e braços abertos, remetendo-nos para a sua própria Ressurreição.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Igreja da Misericórdia de onde sai a procissão dos Fogaréus. Créditos: mediotejo.net

Os materiais que o compõem são de origem natural. Flores silvestres e carrasca de pinheiro. Estão também presentes cinco cores diferentes com diferentes significados: roxo (paixão de Cristo), castanho (terra, renascimento e ressurreição); verde (esperança, cura e caridade); branco (luz divina, paz e redenção); e amarelo (luz divina).

Na Capela do Espírito Santo a instalação de arte floral desenhando o sagrado coração de Jesus com um espaço central para ser pisado pelos visitantes. É aromático, exala fragrâncias de rosas, de alfazema, de rosmaninho, de alecrim, de bucho e camélia.

O objetivo é dotar o ambiente de aromas que “inebriem o Senhor”. Entre o tapete e esse corredor florido um pano de cetim roxo com uma salva de prata recolhe dádivas em dinheiro que os mais caridosos queiram deixar. A representação é Pentecostes em celebração da descida do Espírito Santo. Vê-se uma pomba debaixo da barba do ‘Pai’, insinuando o sopro de Deus.

Entrou-se depois na Casa Grande, habitação do bispo do Brasil, e primaz da rainha, Dom Gaspar Barata Moura Mendonça, uma vez que a Capela da Nossa Senhora do Carmo, com fachadas do século XVIII e em termos decorativos uma das mais belas de Sardoal, está em obras de restauro. O tapete floral acompanha o estilo rococó com curvas e arcos em tons de roxo, amarelo e branco.

A Capela de Santa Catarina tal como a de Sant’Ana foram em tempos capelas particulares de famílias que as doaram à paróquia de Sardoal. Naquela capela um tapete de flores elaborado pelo GETAS – Grupo Experimental de Teatro Amador de Sardoal, com elementos naturais, uma cruz negra com material sintético, aliando às pétalas de flores alguma inovação na introdução de outros elementos estéticos.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Capela de Santa Catarina. Créditos: mediotejo.net

Na Capela de Sant’Ana, o desenho do tapete representando a pomba da paz utiliza pétalas de flor roxas, rosa, amarelas, brancas e carrasca de pinheiro.

Na Capela do Senhor dos Remédios, encontra-se o tapete elaborado por Beatriz Nascimento, aluna que venceu a edição 2019 do Projeto Capela. E ao lado na igreja conventual de Santa Maria da Caridade, no mosteiro, um tapete da autoria da Santa Casa da Misericórdia em tons de verde rosa e amarelo.

Uma igreja com dois retábulos, relicário, maneirista com transição para o barroco, vindo de Nagazaki, Japão, obra dos jesuítas, um oratório de arte namban, arte produzida pelos nativos japoneses de Nagazaki para a Europa. Sendo que existem 25 em todo o mundo e apenas dois com aquele tamanho, explicou João Soares.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Igreja de Santa Maria da Caridade, Capela do Senhor dos Remédios. Créditos: mediotejo.net

Trata-se de uma pintura a óleo sobre cobre com a figura da Virgem. Toda a decoração prende-se com temas nipónicos como a laranjeira e o pessegueiro que representam a pureza e a família.

A sacristia do convento, onde se guardam os paramentos e as alfaias litúrgicas, é de 1720, em talha gorda com pinturas de óleo sobre tábua onde também está presente o gosto nipónico com desenhos de folhas de pessegueiro e pagodes.

Um amituário para guardar o amitos, uma espécie de golas que fazem parte dos paramentos, e uma credência (mesa) do século XVIII em mármore português. A peça mais rara da sacristia é uma caldeirinha de água benta em bronze. Os freixos plantados à volta do convento vieram na nau de Vasco da Gama de Nagazaki há 500 anos.

Visita às capelas enfeitadas 2019, Sardoal. Igreja de Santa Maria da Caridade. Créditos: mediotejo.net

Mais em baixo, no espaço Cá da Terra no Centro Cultural Gil Vicente, Maria Silva, a segunda classificada do Projeto Capela, viu nascer as cores e as formas que escolheu para o seu desenho agora transformado num tapete de flores.

Pelo sexto ano consecutivo, as aldeias do concelho juntam-se à iniciativa no adorno das Igrejas e Capelas fora do centro da vila. Presa, Panascos, Vale das Onegas, Santiago de Montalegre (igreja antiga junto ao cemitério), Mivaqueiro, Valhascos (S. Bartolomeu), Venda Nova e Andreus também embelezaram os seus templos religiosos na edição de 2019 da Semana Santa de Sardoal, podendo ser visitados entre sexta e domingo.

O presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Miguel Borges, falou das cerimónias da Semana Santa no concelho, da tradição dos tapetes de flores e da importância de preservação do património religioso e cultural. Veja em baixo o vídeo:

Sardoal / Visita às capelas enfeitadas com tapetes de flores durante a Semana Santa de Sardoal. O presidente da câmara municipal, Miguel Borges, fala sobre a iniciativa.

Publicado por mediotejo.net em Quinta-feira, 18 de abril de 2019

Os tapetes nos templos refletem o empenho com que a comunidade sardoalense trabalha e se envolve na Semana Santa. É um trabalho minucioso que se prolonga durante dias e uma noite madrugada fora, nas vésperas das celebrações da Semana Santa. Dezenas de pessoas dedicam-se aos desenhos a recriar, à imaginação da paleta de cores, à escolha das flores certas a combinar. As gerações mais velhas ensinam as mais novas e assim se passam os segredos da tradição e da arte de fazer os tapetes de flores que decoram as capelas durante a Páscoa.

Sempre relacionados com símbolos pascais e religiosos, os tradicionais tapetes floridos colocam crentes e descrentes de olhos postos no chão, os mesmos que se levantam na contemplação obrigatória do património histórico, religioso e nas peças de arte sacra.

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