Sardoal | População mantém há mais de 500 anos a tradição do Bodo, partilhando o pão em honra do Divino Espírito Santo

Festas do Espírito Santo (ou do Bodo) em Sardoal, em 2019. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A origem remonta às celebrações religiosas realizadas em Portugal a partir do século XIV, nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes coletivos, designados de ‘Bodo aos Pobres’, com distribuição de comida e esmolas. Um culto secular que promove valores humanistas e solidários, como a distribuição de uma refeição a todas as pessoas e o convívio comunitário. Uma tradição que ainda se cumpre em algumas regiões do País, nomeadamente no Sardoal, onde, de dois em dois anos, a Festa do Espírito Santo (ou do Bodo) enche as ruas da vila de cor e fé.

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A Festa do Divino Espírito Santo (ou do Bodo), celebrada 50 dias após a Páscoa, é uma das mais antigas e difundidas práticas do catolicismo popular. Apresenta hoje diferentes variações em Portugal, nomeadamente nos Açores atravessando o Atlântico até às Américas, mas partilha outras, como a solidariedade e o convívio social. A realização da Festa do Espírito Santo remonta a um passado longínquo, sabendo-se que já se realizava antes de 1470 no Sardoal. Em 2019 voltou a celebrar-se na vila, num misto de cor, tradição e fé.

Atribui-se a origem das festas do Espírito Santo à rainha Santa Isabel e ao rei D. Diniz, no século XIV, em Alenquer, cuja capela do Espírito Santo data de 1305, “embora seja historicamente mais correto atribuí-la aos franciscanos místicos ou espirituais, com o apoio da Casa Real, o que justifica a centralidade da coroa no ritual religioso da festa”, explica Ilda Januário, investigadora da Universidade de Toronto, que após a reforma focou a sua investigação nas Festas do Espírito Santo e, desta vez, atravessou o Atlântico para conhecer as festas sardoalenses.

A estudiosa fala em falta de comprovação no que diz respeito à “origem da primeira festa ter resultado de uma promessa feita pela rainha [Isabel de Aragão], que era coroar rei um homem pobre por um dia, acaso se reconciliassem D. Diniz e seu filho, o futuro Afonso IV, envolvidos num conflito militar. Os franciscanos místicos eram influenciados pela visão do abade Joaquim de Fiore, que escreveu sobre a chegada do Espírito Santo, em que haveria igualdade social e os leigos dispensariam a interceção do clero para lidar com a divindade por já terem interiorizado o Antigo Testamento, na idade do Pai, e o Novo Testamento, na idade do Filho”.

Tal influência levou a limitações e à repressão o que acabou por estimular a imaginação e a sensibilidade popular, que assim criou uma rica variedade de atitudes festivas.

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Conferência ‘Festas do Espírito Santo: Origens e Viagens’, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Outros estudos apontam para o início dos bodos entre os anos 936 e 1218 nos estados alemães, como resposta a crises da fome, e certo é que uma confraria em Benavente anterior a 1227, anterior ao reinado de D. Diniz, realizava um bodo para os pobres no dia do Espírito Santo. Por fim, outra hipótese que também carece de documentos para a comprovar: a de terem sido os Templários a criarem o culto em Tomar e na Beira Baixa, lugares onde não havia presença franciscana.

Em Sardoal, e porque a rainha Santa Isabel foi donatária daquele lugar, “a sua instituição, a do culto, pode ter acontecido no mesmo período por sua iniciativa ou pode ter resultado da influência da Ordem dos Templários, que impunham a comemoração do Espírito Santo na sua área de ação”, acrescentou a investigadora ao apresentar a conferência ‘Festas do Espírito Santo: Origens e Viagens’, em Sardoal, no sábado antes do Bodo, que se celebrou dia 9 de junho, domingo de Pentecostes.

Seja como for, os festejos do Espírito Santo alcançaram tão grande aceitação popular que deram origem em todo o País a inúmeras igrejas, conventos, ermidas, capelas e confrarias com essa invocação. No século XIV e no início do século XX eram perto de 100 as Festas no continente português, tendo hoje lugar algumas dezenas e de haver 1800 localidades com a devoção ao Espírito Santo, sendo todos os bodos celebrados em honra do Espírito Santo, muitos deles depois de proibidos, passaram a ser celebrados em honra do orago local.

Festas do Espírito Santo (ou do Bodo) em Sardoal, em 2019. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Mas como os Santos e a Fé emigram, passou do Continente para as ilhas e dos Açores até aos Estados Unidos e Canadá. É precisamente na Califórnia que nasce a primeira Irmandade, refere a investigadora. Este fenómeno ganha contornos diferentes em função do país onde é celebrado, atraindo forasteiros no dia do Espírito Santo (Domingo de Pentecostes, quando, segundo reza a história católica, o Espírito Santo desceu sobre a Virgem Maria e os Apóstolos), 50 dias após a Páscoa.

Recebeu, então, a proteção da rainha Santa Isabel que prometeu ao Divino Espírito Santo espalhar a fé pelo mundo caso a terceira figura da Santíssima Trindade colocasse um fim ao desentendimento entre o marido e o filho, D. Afonso, por causa da sucessão. A partir desse momento, uma coroa encimada por uma pomba, símbolo do Espírito Santo, percorreu Portugal espalhando o culto e a fé também por além mar.

Atualmente as Festas retratam todo um passado rural, referiu Ilda Januário. As Festas do Espírito Santo distinguem-se das demais festas religiosas .“Tem a ver não com uma forma como se celebra o ritual do culto ao divino mas igualmente com os valores e conceitos culturais que as festas subentendem, as trocas de bens e serviços, a reciprocidade, a vivência em grupos e ainda os papéis que nelas desempenham homens e mulheres como crentes e voluntários”.

As Festas, sendo parte integrante da religiosidade popular portuguesa, “segundo os estudiosos, nomeadamente antropólogos”, fazem parte da cultura do povo. A religião popular “existe e persiste porque a religião oficial condena certas práticas nas celebrações a favor de uma interiorização e depuração da fé. Tendem a ser mal vistos pelo clero as promessas, os gastos excessivos no comer e no beber, o espírito competitivo entre os mordomos e as manifestações mais lúdicas e públicas de fé que privilegiam o arraial e o divertimento”.

Ilda Januário diz que “a religião popular anda sempre ligada à religião oficial mas o que a define como popular é ter sido criada coletivamente de maneira informal, e ser seguida pela maioria social que é o povo. O que inquieta a religião oficial é que ela tende a escapar ao controlo da igreja” desde séculos.

Festas do Espírito Santo (ou do Bodo) em Sardoal, em 2019. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Segundo João Leal, um dos estudiosos das Festas do Espírito Santo, estas apresentam três características gerais: “a representação da divindade pela coroa e cetro, que é única na Europa, a que se associa uma linguagem de poder político-religiosa e de uma etiqueta ritual inspirada nas monarquias europeias das épocas medieval e moderna; as dádivas de alimentos reforçam o sentimento de comunidade mas podem sair caras, em especial o número de cabeças de gado abatidas, e ostentam a situação económica mais folgada dos organizadores das festas e o espírito de competição entre eles; as práticas católicas como missas, terços e procissões combinam-se com práticas populares, nomeadamente o arraial”.

Mas estas festas populares definem-se “pela independência da Igreja, são festas de leigos, onde o papel do padre se limita tradicionalmente à bênção dos alimentos – no caso de Sardoal, o pão bento – e à coroação. Há também a considerar para além da coroa e do cetro, a bandeira do Espírito Santo para representar a divindade, e a pomba, animal digno de representar a divindade por ter a particularidade de não produzir fel”, nota a investigadora.

No Sardoal, a Festa sofreu um interregno em 1935, tendo sido retomada pela Câmara Municipal e pela Paróquia em 1995, numa perspetiva mais vasta, moderna e de defesa dos valores culturais do concelho, mas por motivos vários voltou a ser interrompida em 2008, tendo sido retomada em 2015, por decisão do presidente da autarquia, Miguel Borges, ganhando um carácter bianual.

O Bodo integra uma missa ao ar livre, realizada na Praça da República, com Guarda de Honra prestada pelos Bombeiros Municipais e pela Filarmónica União Sardoalense. Finda a missa, tem lugar a procissão até ao Convento de Santa Maria da Caridade.

Festas do Espírito Santo (ou do Bodo) em Sardoal, em 2019. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Nesta procissão participam 16 jovens (a partir dos 15 anos no estado civil de solteiras) vestidas de branco, enquanto símbolo de pureza, que transportam à cabeça os tabuleiros com o pão benzido na Eucaristia. Estas jovens diferenciam-se pelas cintas coloridas que envergam, existindo quatro cores, uma por cada freguesia do Concelho: azul de Santiago de Montalegre; verde de Sardoal; amarelo de Alcaravela; e vermelho de Valhascos.

Outros figurantes envergando trajes usados no Sardoal, em finais do século XIX, ocasião em que as festividades se realizavam com grande imponência e vasta participação do povo, também integram o cortejo. Aliás, também neste aspeto Ilda Januário encontra uma semelhança em Sardoal com a festas nos Açores e no Canadá onde se realiza igualmente um cortejo etnográfico, disse ao mediotejo.net.

A procissão culmina com um almoço convívio no Largo do Convento de Santa Maria da Caridade, que conta com a atuação da Filarmónica União Sardoalense.

As Festas do Espírito Santo “são uma tradição muito enraizada no nosso País com várias formas de manifestação e de expressão e no Sardoal tem um colorido e um ambiente muito bonito que a nossa vila, até pela construção que tem, proporciona na procissão de grande beleza. Também a missa realizada no largo da Câmara, proporciona momentos não só de introspeção mas também de todo o colorido e beleza inerente”, afirmou o presidente da Câmara Municipal de Sardoal ao mediotejo.net.

Festas do Espírito Santo (ou do Bodo) em Sardoal, em 2019. Créditos: mediotejo.net

Um dos rituais é a bênção do pão, que é partido em fatias. “Os sardoalenses vão buscar as fatias e envolvem o pão num pano e comem-no daqui a dois anos quando voltar a ser o Bodo, ou seja, o que o substitui”, explica Miguel Borges, garantindo que ele próprio já provou o pão e “está em perfeitas condições para ser comido”.

A Festa apresenta-se bianual devido à “logística complicada, que exige um grande trabalho, envolve muita gente, por exemplo temos uma refeição preparada para cerca de 800 pessoas”. O presidente lembra que “algumas festas relacionadas com o culto do Espírito Santo realizam-se de 4 em 4 anos”. No Sardoal “queremos fazer bem de dois em dois anos, com a manifestação religiosa na rua”.

A ideia é acrescentar elementos novos, como já aconteceu este ano. Por ocasião da Páscoa, “a convite da Câmara de Caminha, elaboramos um tapete tendo por base a nossa tradição de tapetes de flores. O que agora fizemos foi uma réplica desse tapete, numa versão mais pequena. O de Caminha tinha 80 metros e o que fizemos para a Festa tinha 12 metros. Mas mesmo assim tivemos um grupo de voluntários e funcionários da autarquia até cerca das 04h00 [na noite de sábado para domingo] de volta do tapete e depois às 06h00 alguns já estavam a preparar-se para começar a receber as meninas, ajustar os fatos, penteá-las, etc” referiu.

Festas do Espírito Santo (ou do Bodo) em Sardoal, em 2019. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Para 2021 fica a promessa de um tapete mais espectacular. “O que gostaria era de ver aquele tapete até ao Convento. Convidei os grupos que costumam fazer os tapetes de flores na altura da Semana Santa, precisamente lançando o desafio para que da próxima vez que fizermos o Bodo possamos ter um tapete de flores desde o largo da Câmara até ao Convento, dando um colorido ainda mais bonito”.

A Festa do Espírito Santo é organizada pela paróquia de São Tiago e São Mateus, contando com o apoio da Câmara Municipal de Sardoal, da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal, Irmandade do Santíssimo Sacramento, Juntas de Freguesia do concelho, Bombeiros Municipais, Guarda Nacional Republicana e associações concelhias.

VEJA AQUI O VÍDEO:

Sardoal / Festa do Espírito Santo ou do Bodo que acontece na vila de dois em dois anos, 50 dias após a Páscoa.

Publicado por mediotejo.net em Domingo, 9 de junho de 2019

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