Sardoal | O licor artesanal que traz a essência das especiarias de Goa até Portugal

Registou a marca “Quinto Império”, que lançou no Sardoal como aquele que é o licor nº1 desta aventura no mundo das bebidas alcoólicas doces, que transferiu agora para Portugal. Óscar de Sequeira Nazareth, 36 anos, nasceu em Goa, numa cidade chamada Margão, vulgo marca de especiarias presente nas prateleiras das superfícies comerciais. E são elas, as especiarias, que compõem a receita renascentista que produz, herança de família, tornando-o um licor único e distintivo e muito virado para a expansão, nomeadamente na Europa. As primeiras 50 garrafas de lançamento, todas reservadas por antecipação, estiveram exclusivamente à venda no Sardoal, onde reside há quase três anos.

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Aos 4 anos de idade veio para Portugal, e cresceu na cidade de Coimbra onde fez os seus estudos até que chegou a altura de se candidatar à universidade.

“Fui aceite para a Faculdade de Economia de Universidade de Coimbra, mas também fui aceite para a Universidade de Londres. E entre Coimbra e Londres… escolhi Londres”, contou Óscar Nazareth em entrevista ao nosso jornal.

Durante muito tempo Óscar trabalhou na área da banca de investimento, algo que considerou “muito stressante” uma vez que tanto “estava lá das 8 às 22 horas num dia bom, e às vezes até era pior do que isso… E no próximo dia tinha de estar lá outra vez”, confidenciou.

O que valia ao jovem era quando, nas férias, ia ter com a família a Goa, onde tinham uma casa de férias e isso “tirava um bocadinho do stress”. “Um dia, em dezembro de 2011, estava a apanhar um bocadinho de seca e eu sabia que existia uma receita de um licor, que originalmente era de Oliveira do Hospital e foi parar à minha família, e eu fui experimentar fazer esse mesmo licor”.

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Passado algum tempo, depois de amadurecido, Óscar chegou à conclusão que “nunca tinha provado um licor assim”. Foi paixão ao primeiro gole.

A receita em si, baseada na época quinhentista/renascentista, “pedia especiarias da Índia portuguesa, do Ceilão (Sri Lanka), das Molucas (Indonésia), açúcar do Brasil, e uma fruta muito exótica portuguesa chamada laranja”, ditou, risonho.

Os maiores apreciadores surgem na Europa, reconhecendo o empresário que na Índia não há uma cultura virada para este tipo de bebida, “ninguém sabe o que é um licor”. “Quando tentava dar o meu licor a provar, as pessoas às vezes diziam-me que o meu vinho era muito doce, ou que gostavam muito do meu whisky… e não tem nada a ver”, relatou.

Sendo um licor distintivo, à base de especiarias, “tem notas de cardamomo, cravinho, canela, curcuma, e por aí fora… é um sabor mesmo distintivo. E portanto, para um apreciador de licores, não há como este mais nenhum no mercado”.

Durante a prova e degustação do licor, onde o empreendedor quis mostrar a 30 participantes no espaço Cá da Terra, a 7 de setembro de 2018, a versatilidade da bebida. Foto: Paulo Jorge de Sousa

A bebida, tal como a maioria dos licores, é versátil no sentido de poder ser utilizada na confeção de produtos gastronómicos, desde entradas, prato principal ou sobremesas, demarcando-se até em refrescantes cocktails.

E foi isso que Óscar de Sequeira Nazareth quis mostrar numa prova organizada no espaço Cá da Terra, em Sardoal, em setembro de 2018. “A ideia é demonstrar a versatilidade do licor. Não só serve para cocktails e para doces, e como licor, como pode ser usado para confecionar pratos principais e entradas” e logo nos deixa de água na boca ao ditar o menu da degustação. Camarões grelhados com licor, tostinhas com patê de fígado com licor, frango grelhado com licor,… Acabando por mostrar que a bebida pode ser utilizada para “cozinhar uma refeição completa dando um travo muito especial aos produtos”.

Adeus Banca, Olá licores!

Testada a receita por si produzida, consultou uma tia com experiência no ramo vitivinícola, que o encorajou a prosseguir mais a sério com o projeto, por ter saída.

Não demorou então muito tempo até que Óscar decidisse abandonar Londres, e regressar a Goa, terra natal, em março de 2012. “Comecei a criar uma empresa, e ao procurar um nome para o licor, acabei por denominá-lo Armada, em Goa, porque é fácil de pronunciar e para quem sabe a história é muito fácil associar à época, e localizar o licor em termos históricos e geográficos”.

Por já estar registada em Portugal essa marca, optou por criar uma nova marca e renomeá-la “Quinto Império”, remontando ao auge do império português e baseado na obra do Padre António Vieira.

Daí, rapidamente surgiram os prémios que “nunca licor português ou indiano até agora alguma vez alcançaram”, desde o IWSC – International Wine & Spirit Competition, em Londres, que chega a receber mais de cinco mil produtos de 90 países.

“Na categoria de licores fomos um de três a ganhar a medalha máxima, para produtos excecionais. O meu licor ganhou um Gold Outstanding”, ou seja, conseguiu uma cotação acima dos 100%, recordou, visivelmente orgulhoso desse feito.

Durante a promoção do licor Armada, em Goa. Foto: Savio Fernandes

Daqui à exportação, foram apenas dois ou três passos, para que este licor chegasse a outras partes do mundo, caracterizado por ser “100% natural, sem corantes e conservantes”. Os mercados têm sido a Finlândia, o Reino Unido, e atualmente prepara uma encomenda para os Estados Unidos.

Mas a visão do empreendedor é muito clara. “Primeiro comecei a comercializar o produto na Índia, para tentar distribuir por lá, ainda por cima sendo um licor de especiarias e crendo eu que havia um tipo de mercado que não estava bem servido: que era as pessoas que gostavam de cocktails e o segmento feminino, que só tinham ao dispor cerveja e vinho, “e se não gostavam de nenhuma das opções, não havia muito mais para escolher”.

Infelizmente, nem tudo correu como Óscar gostaria, nomeadamente pela complexidade dos processos burocráticos. “A Índia é um país extremamente corrupto, e uma das áreas mais corruptas é mesmo o setor do álcool. Algo que eu não fazia ideia, pois em Portugal é um mercado naturalíssimo”, e mesmo que pudesse ir ultrapassando cada passo com recurso a suborno, Óscar recusou veementemente fazê-lo por ser “contra os seus princípios”, o que lhe valeu longos anos de espera.

O contratempo burocrático fê-lo transferir tudo para Portugal, onde acabou por estabelecer residência na pacata vila de Sardoal. Tudo começou quando, no estabelecimento das relações comerciais com a Câmara de Comércio de Lisboa e gostando de conhecer Portugal, quis adquirir uma casa de férias.

“Procurei num portal. Como seria casa de férias, não queria algo num centro de uma grande cidade, mas também não queria numa localização tão remota que não tivesse acesso a nada”, contou, frisando algumas peripécias com algumas das hipóteses apresentadas pelas agências imobiliárias. Até à altura em que encontrou, no centro da vila, uma moradia em ótimo estado, comprovado pelas “40 fotos apresentadas na galeria da imobiliária”.

E foi um amigo de Óscar que, em 2015, desconhecendo onde se localizava Sardoal, veio conhecer a habitação, reticente quanto àquilo que encontraria. Até que, espantado com a “a vila espetacular” pediu imediatamente que pudesse vir ali passar férias também.

Só em 2016, o empreendedor veio conhecer aquilo que havia comprado. E foi amor à primeira vista. “Apaixonei-me pelo Sardoal, de tal forma que quando voltei para Goa, fiquei a matutar… o que estava ali a fazer, se fazia mais sentido transferir a produção para Portugal e ir morar para o Sardoal. E no dia 1 de agosto de 2017, mudei-me de volta para Portugal”, indicou, especificando morar na rua principal da vila.

Questionado sobre o que mais o alicia em terras sardoalenses, o jovem enumera “a qualidade de vida, a proximidade à natureza, o facto de, como sede de um concelho, ter todos os serviços muito próximos, e ter uma comunidade muito acolhedora”.

“Eu adoro estar aqui. É uma qualidade de vida muito, muito diferente daquela que eu tinha tanto em Londres, como em Goa”, admitiu, considerando-se um “sardoalense adotivo”.

´Foto: mediotejo.net

Agora, com produção artesanal, em pequena escala, e engarrafamento assegurados, próximo de Coimbra, nas Caves Avelar, e com objetivo de 1000 garrafas de cada vez, onde o licor acaba por ficar a amadurecer. E está garantida a margem para expansão.

O Quinto Império não fica por aqui, pois após este licor nº1, cujas 50 primeiras garrafas de lançamento, exclusivas e todas reservadas no evento de degustação, estiveram à venda no espaço Cá da Terra, na vila que o acolheu. Mas a vinda a Portugal, quis o destino ou o sentido de oportunidade, que Óscar descobrisse outras receitas “originais, centenárias e que remontam ao auge do Império Português”, estando neste momento a testá-las.

Daqui por uns tempos, garante o empreendedor, o Quinto Império ganhará no rótulo outras versões “do número 2, número 3, e por aí fora”. Mas, para já, nada como degustar o primeiro.

  • Este ano 2019 o licor Quinto Império Nº1 conquistou uma medalha de prata no maior concurso internacional de vinhos e bebidas espirituosas do mundo, em Londres. A empresa do Sardoal recebeu uma classificação de 92 pontos para o seu licor, feito a partir de uma receita com 500 anos. Este concurso “International Wine and Spirit Competition 2019” juntou mais de 9 mil produtos de todos os cantos do mundo.
  • Entrevista publicada em setembro de 2018, republicada em agosto de 2019
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