Sardoal | Exterminados seis ninhos de vespa asiática no concelho

Sessão de esclarecimento sobre a vespa asiática em Sardoal. Andrea Chasqueira, da Associação de Apicultores do Litoral Centro. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

O Município de Sardoal promoveu no sábado uma ação de sensibilização sobre a vespa velutina (asiática), sessão que teve como palestrante Andrea Chasqueira, da Associação de Apicultores do Litoral Centro. O objetivo da sessão passou por ajudar na identificação da vespa e como proceder em caso de encontrar um ninho. No decorrer da sessão o comandante dos Bombeiros Municipais, Nuno Morgado, deu conta de seis ninhos, identificados e exterminados, no concelho.

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Na Sessão de Esclarecimento sobre a vespa velutina, também conhecida como vespa asiática, em Sardoal, a oradora começou por lembrar um alerta com décadas, de Albert Einstein, quando o cientista afirmou que “sem abelhas o ser humano desaparecia em quatro anos”.

Andrea Chasqueira, da Associação de Apicultores do Litoral Centro, informou o auditório, composto por mais de 60 pessoas, sobre os perigos da espécie e os procedimentos a tomar em caso de suspeita da presença de vespa velutina, como distinguir esta espécie asiática da vespa europeia, nomeadamente o ciclo biológico, as dificuldades sentidas, as perspetivas futuras e as medidas de combate e controlo a tomar pelos civis.

O objetivo da iniciativa do Município, através do Gabinete de Proteção Civil, Florestal e Bombeiros Municipais, passou precisamente por sensibilizar apicultores e agricultores para o problema da vespa velutina que em Portugal apresenta-se com patas amarelas e tórax negro, diferente da nativa vespa crabro que é ligeiramente maior que a asiática mas causadora de danos significativamente menores, garante a engenheira.

Sardoal | Exterminados seis ninhos de vespa asiática no concelho
Sessão de esclarecimento sobre a vespa asiática em Sardoal. Andrea Chasqueira, da Associação de Apicultores do Litoral Centro. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Andrea Chasqueira deu conta que sendo a vespa asiática um espécie invasora foi desenhado pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) e pelos serviços veterinários, um Plano de Ação visando a sua destruição mas que está longe de ser “bem estruturado que dê força às Câmara Municipais” para atuarem convenientemente, defendeu. Nessa medida, demonstrou a importância do registo do número de ninhos avistados e destruídos, no site SOSVespa.

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O Plano avançou “sem instruir, sem dar formação e a seguir ferramentas”, criticou. “Não aconteceu e continua a não acontecer. Foi feito o plano de ação e empurrado para as Câmara Municipais resolverem sem explicações sobre destruição, métodos etc”, reforçou, alertando que “alguns inseticidas podem destruir o ecossistema, como os corvos e gaios que comem as larvas dos ninhos mortos”.

Manifestando-se contra a aplicação de inseticidas (químicos) na destruição dos ninhos secundários, disse optar pela incineração como “mais eficaz”, embora o método esteja a entrar em desuso devido à problemática dos incêndios.

Isto porque as vespas asiáticas, no seu ciclo biológico anual, começam por produzir um ninho primário (do tamanho de uma bola de ténis) que segundo a engenheira “não deve ser destruído. É construído por uma rainha, que deve ser morta e deixada lá, para que seja novamente colonizado por outra rainha, uma vez que é atrativo para outras fundadoras”, explicou.

Sardoal | Exterminados seis ninhos de vespa asiática no concelho
Sessão de esclarecimento sobre a vespa asiática em Sardoal. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Após a colocação de ovos e do nascimento de vespas obreiras, a colónia parte para a construção de um ninho secundário, que têm uma forma redonda ou em pera, com cerca de 50-80 cm de diâmetro, e são geralmente feitos em árvores altas em áreas urbanas e rurais.

Desde que chegou a Portugal, em 2011, a vespa asiática “já alterou muito o seu comportamento”, garante Andrea Chasqueira. “Quando chegaram tinham um período de hibernação, no inverno, e agora verificamos constantemente ninhos ativos, o que não acontecia há três anos nesta altura do ano”, afirmou, embora o ataque massivo às colmeias decorra durante o verão, entre junho e outubro.

Da adaptação resultou que os ninhos secundários, muitas vezes, não sejam os definitivos o que complica mais o combate a esta espécie invasora. Daí a importância da deteção primária dos primários, para atuar antes que as rainhas abandonem o ninho secundário para formar novos ninhos.

Ate porque, a destruição dos ninhos da vespa velutina é considerado o melhor método de limitar localmente o impacto das mesmas sobre as abelhas, outros insetos e eventualmente pessoas. O público no Centro Cultural Gil Vicente foi, no entanto, alertado para “não usar armas de fogo” nem “destruir parcialmente o ninho” porque dissemina as vespas que constituem assim novos ninhos.

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Sessão de esclarecimento sobre a vespa asiática em Sardoal. Produtos utilizados como isco nas armadilhas para capturar vespas. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Uma vez nas cidades, o facto desta espécie fazer ninho próximo de habitações (telhados, alpendres, garagens, churrasqueiras) leva a que as pessoas tentem eliminá-las sem recurso às autoridades competentes, o que além de perigoso “é errado!” uma vez que uma deficiente gestão de controlo pode aumentar a proliferação dos ninhos.

A razão, explica, deve-se à destruição dos ninhos mas não das vespas que abandonam o ninho destruído para criar outros. Por isso, a importância da eliminação dos vespeiros ficar reservada à Proteção Civil e aos bombeiros, sendo o primeiro passo, ao avistar um ninho de vespa asiática – que difere do ninho da vespa crabro por ter entradas laterais e não no fundo do vespeiro – dar conta do mesmo na plataforma online SOS Vespa do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas. De seguida a Proteção Civil do município será informada. Caso não tenha acesso à Internet basta contactar um agente da Proteção Civil.

A vespa velutina é essencialmente um predador de outras vespas e de abelhas, mas tal como a vespa europeia, também se alimenta de uma grande variedade de outros insetos. Mas “não é fonte de transmissão de nenhuma doença das abelhas” e “não é considerada mais perigosa para seres humanos do que a vespa europeia”, notou.

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Sessão de esclarecimento sobre a vespa asiática em Sardoal. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Contudo, o perigo não afeta apenas os apicultores. O maior impacto é na economia, não só dos produtos resultantes da colmeia mas porque “a asiática também se alimenta de fruta”. Cerca de 75% das culturas de vegetais dependem da polinização e existe atualmente “um decréscimo claro de polinizadores”, mostrando imagens na China onde as macieiras já são polinizadas manualmente. Andrea Chasqueira mostrou ainda uma pera onde foi encontrada uma vespa velutina no seu interior, “completamente oca”.

Cada ninho secundário podendo albergar até três mil vespas de onde podem sair 150 novas rainhas. Em Sardoal já foram identificados e exterminados até ao momento 6 ninhos de vespa asiática, em Andreus, no Salgueiral, na Rosa Mana, junto a Santa Clara, em Sardoal, no Chão das Maias e junto ao eucalipto grosso, igualmente na vila de Sardoal, não havendo registo na freguesia de Santiago de Montalegre embora já tenham sido assinalados avistamentos, confirmou o comandante dos Bombeiros Municipais.

“O último ninho destruído tinha, no seu interior, sete discos com alvéolos”, explicou Nuno Morgado, e cada disco teria 342 obreiras. Vincando que o papel do civil “não é a destruição, função da Proteção Civil, mas a prevenção e observação dos ninhos”.

Sardoal | Exterminados seis ninhos de vespa asiática no concelho
Sessão de esclarecimento sobre a vespa asiática em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

A engenheira explicou não existir ainda nenhum método de controle eficaz para eliminar a vespa velutina, sendo a instalação descontrolada de armadilhas e a destruição dos ninhos de outras espécies de vespas prejudicial para a biodiversidade, principalmente de insetos polinizadores.

Tendo em conta que nenhuma dar armadilhas atualmente utilizadas é seletiva para a vespa velutina, recomendou o uso de armadilhas apenas no caso de forte predação em apiários, mas acrescentou que nesta altura do ano, até março “compete a todos colocar armadilhas” com o objetivo de capturar vespas fundadoras, ou rainhas que procuram nutrientes com hidratos de carbono após a hibernação.

Assim, Andrea Chasqueira mostrou vários tipos de armadilhas e explicou como elaborar algumas e os produtos a utilizar para isco dessas mesmas armadilhas, como nectares de frutos, açúcar, cerveja ou vinho. E depois também para as obreiras que a partir de certa altura do ano procuram proteína, como salsichas ou atum.

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Sessão de esclarecimento sobre a vespa asiática em Sardoal. O comandante dos Bombeiros Municipais de Sardoal, Nuno Morgado. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A engenheira lançou assim um desafio a Sardoal e às escolas do concelho seguindo o exemplo do que aconteceu na zona Centro.

“Coloquem as crianças a construir armadilhas. Podem ser feitas nas atividades escolares, com materiais reciclados [como garrafas de plástico ou garrafões] ou nos escuteiros”, sugere.

Andrea Chasqueira explicou que o trabalho das crianças foi essencial no combate preventivo à vespa velutina. “Não fosse o trabalho feito pelas crianças não tínhamos 300 ninhos mas mais de 900”, indicou. E nesta época do ano a oradora sugeriu que as armadilhas fosse colocadas junto das cameleiras, as primeiras plantas a desabrochar flor, com pólen muito apreciado pelas vespas fundadoras.

No final da sessão o vice-presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Jorge Gaspar, também deixou um alerta para os cidadãos que vivem em zonas florestais. Em particular “os pastores, madeireiros e caçadores, quem faz passeios pedestres ou de BTT e todas as pessoas que andam na natureza, temos de ter esta preocupação acrescida a partir de agora porque já sabemos que junto das linhas de água, das povoações podem andar vespas e temos todos de contribuir para que não seja pior do que já é”.

Sardoal | Exterminados seis ninhos de vespa asiática no concelho
Sessão de esclarecimento sobre a vespa asiática em Sardoal. O vice presidente da Câmara Municipal, Jorge Gaspar e a engenheira Andrea Chasqueira, da Associação de Apicultores do Litoral Centro. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A vespa velutina é uma espécie não-indígena, predadora da abelha europeia (Apis mellifera), encontrando-se, até há pouco tempo, circunscrita a concelhos do Norte e Centro do País. Esta vespa asiática, proveniente de regiões tropicais e subtropicais do norte da Índia, do leste da China, da Indochina e do arquipélago da Indonésia, ocorre nas zonas montanhosas e mais frescas da sua área de distribuição.

Um problema que a todos importa consciencializar sendo que todos os ninhos detetados devem ser participados aos bombeiros da sua área de residência.

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