Sardoal | A última tecedeira que se perde entre os trapilhos de uma arte presa por fios

Conceição Diogo a tecer um tapete. Créditos: mediotejo.net

A arte de tecer parece estar em vias de extinção. Conceição Diogo é a única a exercer a profissão na vila de Sardoal. A última tecedeira ainda trabalha, mas não tem ninguém que queira aprender. É certo que não é a única no concelho, em Alcaravela as mulheres da Cooperativa Artelinho ainda se dedicam à confeção artesanal de artigos de linho e bordados. Mas o mediotejo.net quis conhecer o seu percurso, perceber que tecer é um trabalho “difícil” que exige “muita paciência” e “dedicação”, pouco condizente com ritmos acelerados.

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Talvez num passado não muito longínquo os teares pudessem ser contados por número de casas. As mulheres teciam as roupas para vestir o lar e a família. Não seria estranho entrar em qualquer habitação e encontrar tecedeiras a urdir teias para dos teares retirarem vestuário, mantas, colchas e tapetes. Atualmente é uma profissão que parece estar por um fio. Conceição Diogo é a última e a única tecedeira da vila de Sardoal que ainda faz da tecelagem um modo de vida.

Maria da Conceição Marques Diogo nasceu há 57 anos em Sardoal e os segredos do tear e da urdideira foram-lhe transmitidos bastante cedo através da mãe e das mulheres que para ela trabalhavam na arte de tecer. Quase desde o berço aprendeu a observar os repetidos gestos das mulheres encostadas aos teares, de onde saíam obras quase sempre em tons esmorecidos.

A única tecedeira a exercer a profissão na vila de Sardoal, Conceição Diogo no seu espaço de tecelagem, no ArtOf, ao lado de um dos seus sete teares. Créditos: mediotejo.net

“A minha mãe era tecedeira e tinha muitos teares e muitas mulheres a trabalhar para ela. Mas eu não gostava da tecelagem! Nem podia ouvir a minha mãe dizer que ia para as feiras”, recorda Conceição.

Hoje tem sete teares manuais, em madeira, e um outro de herança materna “que não trabalha porque está muito velho. Já era da minha avó que também sabia tecer, embora não fosse tecedeira”, esclarece.

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Quis o destino que há cerca de 20 anos tivesse de agarrar a tecelagem para conseguir ganhar o pão para a mesa. Após outras experiências profissionais, incluindo fabris, Conceição percebeu que os conhecimentos na arte de tecer lhe poderiam ser úteis, uma vez que lhe chegavam encomendas. Decidiu então ir buscar um tear da família e retomar a atividade.

Os rolos com fios de tecidos empilhados numa confusa paleta de cores cobrem todos os recantos e chegam até ao tecto da sala de tecelagem de Conceição Diogo. Créditos: mediotejo.net

Filha única de pai agricultor e mãe tecedeira, teve “tudo o que uma menina tinha direito” mas rejeitava trabalhar com os teares que já na época teciam peças semelhantes às que hoje a artesã apresenta no seu expositor nas muitas feiras que faz de Norte a Sul do País, incluindo a Mostra de Saberes e Sabores integrada nas Festas do Concelho de Sardoal onde o mediotejo.net a encontrou.

Antigamente nas aldeias era comum “as meninas aprenderem costura. Começavam muito novas, e nos teares faziam tudo o que exponho, incluindo mantas bordadas, que também faço. Tenho um tear com 2,60 metros de largura” para essa tarefa. E “tudo” são então mantas, colchas, naperons, tapetes e o que lhe pedirem.

A primeira vez que entrou dentro de um tear era uma criança contrariada, principalmente quando a mãe apontava os erros básicos como a “ciência do bater” do tear, a qual obriga a uma força algo leve mas, ao mesmo tempo, determinada, soltando um som de pancada forte.

Conceição Diogo a tecer um tapete. Créditos: mediotejo.net

Aprendeu com o tempo, a olhar, metida no meio dos farrapos e com as tecedeiras empregadas da mãe a puxá-la para o tear. “O mais difícil era meter os fios de algodão na urdideira, uma dobadoira grande, para pôr no tear. Quando decidi retomar esta atividade, já não me lembrava bem, e pedi a uma senhora de Andreus para me ensinar”, conta. O resto é o resultado da aprendizagem que trouxe da infância e da experiência que foi adquirindo.

“Ainda tenho mantas bordadas que fiz nessa época” em que a mãe a mandava para o tear. Agora perde-se entre os trapilhos. E são rolos e mais rolos, de cores vivas e garridas, outras nem tanto, enfiadas em sacos que chegam ao tecto, porque é nesses tons alegres que Conceição gosta de trabalhar. “Adoro o que faço!”, garante.

Os trabalhos da tecedeira de Sardoal Conceição Diogo nas Festas do Concelho 2019. Créditos: mediotejo.net

Perde-se no seu atelier no espaço ArtOf – espaço partilhado para artes e ofícios, em Sardoal, onde passa os dias, exceto quando tem feiras. É “um trabalho muito solitário” confessa. Por isso Conceição mal chega ao atelier liga a rádio e a música começa a tocar. O mais complicado é urdir a teia, para isso utiliza a tal peça também em madeira. Daí vai para o tear, delicadamente para garantir que os fios não se enleiam, contando com a ajuda do marido.

O tempo que emprega na tecelagem de cada peça é variável. “Depende, há tapetes que demoram meia hora e outros levam 4 horas. Se o meu marido me ajudar a dar ao roxo, que é puxar a teia para a frente e para trás, leva uns 40 minutos a fazer” indica apontando para um dos tapetes expostos para venda.

“Uma manta demora duas horas” acrescenta dando conta que o trabalho de uma colcha é o mais demorado: “quinze dias com 8 horas de trabalho diário”. Por isso Conceição vende cada uma por volta de 400 euros. “É uma peça bordada a linho, a algodão ou a trama. De vez em quando tenho encomendas. No inverno passado fiz seis para a Suíça”. De resto os tapetes vão de 5 euros a 70 euros dependendo do trabalho e dos materiais utilizados.

Conceição Diogo a tecer um tapete. Créditos: mediotejo.net

Dinheiro que, segundo a artesã, ajuda a sustentar a casa. “Queria ter uma feira por semana, mas nem sempre é assim” apesar do número de feiras ter aumentado desde que se associou aos Artesãos da Serra da Estrela. Antes disso fazia 5 ou 6 mostras de artesanato por ano em regiões próximas como Crato, Abrantes e naturalmente em Sardoal.

Assegura que as peças de trabalho artesanal não são mais caras que as de fabrico em série. Aliás se contabilizasse as horas que trabalha numa peça “não vendia nada!”. Conseguir bons trapilhos para tecer as peças e até fio reciclado “é fácil!”. A tecedeira conta com um fornecedor de Barcelos. Já os teares é mais complicado. “Os primeiros foram de fácil aquisição mas agora é difícil. Estão à venda a preços caros. O último que comprei custou 100 euros de um metro de largura por dois de comprimento”.

Aprendizes de tecedeira é que não há. Conceição gostaria de ensinar o que sabe aos mais jovens e lamenta que a arte esteja a morrer. Nem os seus três filhos herdaram a vontade de tecer, o que reforça a sua convicção de ser um ofício em vias de extinção. “Sabem tecer, não sabem é pôr a teia no tear. Esta arte morre aqui!”, afirma.

Conceição Diogo a tecer um tapete. Créditos: mediotejo.net

Fora do contexto familiar “ninguém quer aprender. É uma atividade difícil e um bocado ingrata porque exige muita paciência. Um bom método de terapia” brinca. Às vezes aparece uma ou outra mulher para aprender “e todas sabem tecer! O problema é urdir, na confusão dos fios. E depois de colocar a teia no tear ainda há que atar fio a fio”, explica.

A dedicação ao tear e o tempo que demora até ver uma peça pronta são as principais razões que demovem as aspirantes a tecedeira. “As pessoas hoje são impacientes, querem rapidez! Ao fim de dois dias vão-se embora”.

Apesar das dificuldades Conceição Diogo pretende continuar a tecer e a vender as suas peças por este País fora. “Até que possa”, afirma.

A tecedeira de Sardoal Conceição Diogo nas Festas do Concelho 2018. Créditos: mediotejo.net
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