“Salada de Almeirão: tão nossa, tão boa”, por Berta Silva Lopes

Foto: Facebook/salada de almeirão

Aqui na cidade não conheço ninguém que saiba o que é e muito menos que alguma vez o tenha provado, mas lá na aldeia está agora na altura do almeirão, também conhecido como chicória amarga, e de voltar a ver sobre a mesa a famosa salada amassada tão apreciada na zona da Beira Baixa.

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Falo, fica desde já esclarecido, da receita que manda cortar o almeirão fininho, tal como a couve para o tradicional caldo-verde, escaldá-lo e juntar-lhe, por fim, cebola crua devidamente cortadinha, feijão e batata (cortada em cubos pequeninos) cozidos, azeite, vinagre e sal q.b., tudo envolvido sem parcimónia, mais ou menos cuidadosamente conforme o gosto de cada um.

A minha avó, que me ensinou tanta coisa, incluindo o passo-a-passo desta receita, costumava envolver muito bem todos os ingredientes, uma e outra vez, ao ponto de não conseguirmos encontrar um único cubo de batata inteiro dentro da malga. É por isso que ainda hoje, eu e ela, lhe chamamos salada amassada.

Se há alguém que gosta ainda mais de salada de almeirão do que eu essa pessoa é a minha avó. Ambas a comemos requentada, quer tenha sido preparada para a refeição anterior ou na véspera. Ambas podemos passar vários dias a vê-la sobre a mesa sem reclamar e sobretudo sem correr o mínimo risco de enjoar o menu.

Acontece, porém, que ela domina a receita na perfeição e eu, desgraçadamente, ainda não. O segredo está no tempero, diz a minha tia Lurdes, sempre pronta a despachar umas caixas da dita salada para Lisboa, e talvez ela tenha razão. Ainda assim, não pode ser apenas isso. Mesmo sabendo que ninguém corta o almeirão com a precisão dela, tenho cá para mim que o mais difícil vem a seguir.

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Felizmente, a cada fim de semana, em me sabendo na terra, logo aparecem convites para almoçar e jantar onde calha. A família é grande e em qualquer das casas há sempre lugar para mais um. Tanto me faz o que é o acompanhamento, se alheira, carne grelhada ou qualquer outra coisa. É à salada de almeirão é que não resisto. E repito.

Neste caso concreto, concordo em absoluto com o escritor brasileiro Luís Fernando Verissimo quando diz (no livro A Mesa Voadora) que a melhor parte de qualquer receita é aquela que começa depois de “leve à mesa”.

É a partir desse momento que se multiplicam as memórias de infância, servidas com a mesma generosidade com que se preparou o almoço, se dividem dores e angústias, se apaziguam saudades. Não há sítio melhor no mundo para encher a barriga de afeto do que à volta de uma mesa e nem há na vida regalo maior do que esse.

(De repente percebo que esta crónica ganhou vida própria, como acontece tantas vezes com as receitas que ainda não dominamos, escasseia o espaço e sobram os caracteres, mas não há razão para fugir ao que tinha inicialmente previsto).

Como dizia ali em cima, é difícil resistir ao almeirão que cresce em abundância nos quintais do pinhal (Oleiros, Proença-a-Nova, Mação, entre outros) e ao conforto de um prato que sabe a infância, a tempo, dedicação e amor.

Cada convite para almoçar ou jantar, mentiria se os dissesse inesperados, torna mais nítido o verdadeiro significado da palavra bondade, evoca as refeições mais simples e dignas, o à vontade que se julga diluído pelo tempo e pela distância, mas, afinal, ali continua, intocado, primordial, franco, puro.

E em cada um deles eu volto a ser criança, a sentir o cheiro do café de cafeteira, a saborear as torradas feitas nas brasas e as talassas acabadas de sair do lume, a petiscar as febrinhas de alguidar e os bolinhos farinheiros, e, sobretudo, a recentrar as coordenadas do GPS emocional e a sentir-me protegida de todas as coisas ruins. E isso, parecendo que não, é mais poderoso do que várias estrelas Michelin no melhor bistrô da cidade.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

1 COMENTÁRIO

  1. Lindo artigo descrevendo esta nossa especialidade…Como Beirão também adoro esta salada bem pizada com a colher de pau no alguidar de barro e bem regadinha com azeite e vinagre….a minha no meu quintal este ano ainda está muito atrazada

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