“Sagração da Primavera”, por Armando Fernandes

“Todos os Anos Pela Primavera”, escreveu Luís de Sttau Monteiro. Hoje, nem na qualidade de profundo conhecedor da alta cozinha e acerado crítico gastronómico o autor de “Angústia Para o Jantar” é conhecido do grande público. Nem o facto de ser filho do famoso embaixador e ministro salazarista Armindo Monteiro, respeitado catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa, lhe trouxe acréscimo de interesse como romancista, dramaturgo, encenador e jornalista, antes pelo contrário.

A jornalista nabantina Fernanda Leitão (que alguns aplaudiram os seus violentos artigos contra os «capitães» de Abril) dedicou a Sttau texto impregnado de peçonha por ele sendo filho da alta burguesia salazarista ter aderido à esquerda, ou seja: o Escritor, o Gourmet, o Jornalista não podia esquecer a origem de classe, ainda menos os carros desportivos, a boémia e tutti-quanti na matéria.

O criador da Guidinha, o impulsionador do suplemento A Mosca, inserido no Diário de Lisboa, deu a conhecer o restaurante “O Cobra”, de Vila de Rei, a que não foi alheio o seu grande amigo o escritor José Cardoso Pires, natural de S. João do Peso, que levou-o ao restaurante em causa a fim de saborear o cabrito ali confeccionado – assadura exemplar – e não como agora se pratica em muitos lados – grelando-o-, o que macula a carne mimosa dos cabritinhos.

O autor de “Um Homem Não Chora” chorava de saudade quando recordava a sopa de feijão confeccionada pela Mãe de Cardoso Pires, que lhe servia repetidamente quando os dois compinchas lhe apareciam em casa. Se algum leitor possuir números da revista Almanaque encontra nas suas páginas provas da multiplicidade do talento de Cardoso Pires, Sttau Monteiro, Alexandre O’Neill, José Cutileiro, João Abel Manta, ainda do então jovem Vasco Pulido Valente. A hoje quase rara revista (faltam-me alguns números) concebida devido ao desafogo financeiro do dono da Editora Ulisseia, publicou-se entre 1959 e 1961, tendo saído dezoito números.

A Biblioteca Municipal de Vila de Rei ostenta o nome do autor da “Cartilha do Marialva”, porque conheço a Bibliotecária e sei quão dinâmica é, peço-lhe o favor de no dia 21 de Março, chegada da Primavera, exponha os livros dos dois escritores e, como é seu timbre, explique aos adolescentes e graúdos a valia deles no panorama literário da segunda metade do século XX. Peço-lhe ainda que nesse dia seja repetida a audição da obra-prima do grande compositor Igor Stravinsky, a “Sagração da Primavera”.

No dia eclosão do «ver primeiro» ouvirei a genialidade de Igor, lerei algumas páginas de Monteiro & Pires, rendendo-lhe preito bebendo escocês da marca por eles preferida.

A “Sagração da Primavera” é obra por si só motivadora de centenas de actos culturais, infelizmente a burocracia cultural não aprecia dinamismos para além do ronceiro ram-ram prevalecendo a muita parra e pouca uva. Por não valer a pena sugerir dinamismos culturais junto de tais burocratas atrevo-me a recorrer à Bibliotecária Ana Rita Leitão pois sei quão lhe agrada conceber programas atinentes a desenvolver o gosto pelo prazer da leitura, os prazeres culturais e científicos dos vários ramos do saber. Se nos fundos documentais da Biblioteca existir a Almanaque, os leitores poderão aquilatar das razões do meu entusiasmo na referência.

DEIXAR UMA RESPOSTA