“Regressar ao passado”, por Vasco Damas

Foto: Pixabay

Diz o povo na sua infinita sabedoria que não se deve voltar aonde já se foi feliz. Mais complexo se torna quando este regresso ocorre com quase quatro décadas de intervalo. O sentimento é agridoce. Voltar como pai onde fui feliz como filho. Mas o tempero do sentimento não está relacionado com o estatuto. Está antes ligado às memórias mais bonitas e aos afetos do passado que infelizmente não se podem repetir no presente.

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Colocando as coisas em perspetiva, há quase 40 anos o fenómeno da globalização ainda não tinha sido desenhado e este era um admirável mundo novo onde convivíamos com culturas e nacionalidades que, com uma ou outra exceção, apenas era possível conviver por estas latitudes.

Nesses tempos a vida vivia-se de forma mastigada, com foco nas relações, nas conversas, na amizade e na socialização, porque ainda se ignorava a cultura do instantâneo e do consumo descartável que nos foram trazidos pelas selfies e pelas redes sociais. Na altura, mais importante do que mostrar que se tinha estado era de facto desfrutar enquanto se estava.

Voltar com as minhas filhas ao local onde fui feliz há mais de 30 anos deixa-me, de facto, nostálgico, não devido à evolução que o mundo sofreu e, por causa disso, ter noção de que elas não podem viver aquilo que eu vivi da mesma forma, nem com a mesma intensidade, até porque a vida delas terá naturalmente de ser vivida por elas, mas por não poderem desfrutar da presença do avô, que iria adorar a companhia das suas netas e que, infeliz e cruelmente, quis a vida que nem as chegasse a conhecer.

Muito do que existia há mais de 30 anos não resistiu ao inexorável passar dos anos mas, mesmo assim, recordo cada espaço, cada rua, cada praça e cada local como se ainda existissem e como se ali estivesse estado ontem.

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Ao caminhar pelas ruas onde outrora caminhei na companhia do meu pai sinto-me “mais” sozinho apesar de paradoxalmente sentir a sua presença a cada esquina. Esta presença quase física limita-se a aumentar as saudades dele e dos momentos que vivemos. É uma presença que se sente no desfiar das memórias que regressam sem esforço e sem pedir autorização. A cada passo recordo o seu sorriso natural que acompanhava a sua boa disposição crónica e que contagiava todos aqueles com quem convivia. Recordo também a educação e a simpatia que entregava de forma generosa a quem conhecia e também a quem não conhecia, principalmente aos turistas que vinham de outros países para quem tinha sempre pronto um “hello!”.

Mesmo que eu me esforce a descrever ao detalhe os pormenores de todos os momentos e de todas as suas características, as minhas filhas nunca conseguirão ter uma ideia aproximada do orgulho que iriam ter no seu avô. Bom, a mais pequenita ainda não entende bem estas coisas de adultos mas a mais velha já aprendeu a linguagem dos sentimentos e, sim, ela sente um orgulho e um amor enorme pelo avô… mas mesmo assim esse sentimento, que é de facto brutal, seria infinitamente maior se tivesse tido a oportunidade de o ter conhecido e de ter convivido com ele.

Bem sei que não há solução para esta mágoa mas há coisas que não se controlam, simplesmente sentem-se. E a verdade é que, enquanto assim for, o meu pai continuará a viver entre nós. Pelo menos entre aqueles que o conheceram e que tiveram o privilégio de conviver com ele. E quem teve esse privilégio compreende este sentimento.

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