Refugiados | Uma história de sobrevivência de Alepo até Fátima

Milhares de pessoas em fuga da guerra na Síria continuam em trânsito pelas fronteiras da Europa, à espera de serem integradas. Foto: DR

Durante quatro anos, entre 2012 e o final de 2016, Alepo foi o coração da guerra civil da Síria. Outrora o mais importante centro económico do país, está hoje em ruínas. Alguns meses antes da proclamada vitória do regime autoritário de Bashar al-Assad, a família de K. deu-se por vencida e decidiu, à semelhança de milhares de conterrâneos, fazer a perigosa fuga a pé até à Turquia e dali, de barco, até à Grécia, onde receberam apoio da UNICEF. No momento em que o cerco a Alepo terminava chegavam a Fátima, onde foram acolhidos por uma instituição religiosa.

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Depois de quatro anos de guerra, tentando aprender a viver entre bombardeamentos, falhas de energia e água racionada, G. já sabia que aquele dia poderia chegar. Mas não esperava que tivesse de sair assim de casa, com um pequeno saco numa mão e os três filhos na outra, grávida de seis meses. Não hesitou assim que o marido lhe disse que chegara a hora. Sabia que se ele lhe pedia para partirem era porque assim tinha mesmo de ser. Era agora ou nunca. Só hesitou quando percebeu que teriam de fugir a pé. Disseram-lhe que seriam poucas horas. “Não eram”, sorri hoje a jovem mãe, de 29 anos, de uma beleza discreta mas sofisticada, característica das mulheres do mundo árabe.

Esta história é recordada hoje em solo português, na cidade de Fátima, mediante um pedido de preservação da privacidade, razão pela qual não publicamos fotos nem nomes. Todos passam facilmente por europeus e só um olhar mais atento consegue identificar traços do Médio Oriente. Vivem num prédio antigo num bairro habitacional, que lhes foi cedido gratuitamente pela instituição religiosa, de raiz católica, que os acolheu, dentro das garantias do apoio aos refugiados. Mas o programa de acolhimento terminou em setembro e a família recebeu nas últimas semanas uma carta de despejo da instituição, devendo sair até meados do próximo ano.

Encontrar uma nova casa é, neste momento, o grande drama da família. K. conseguiu trabalho em Leiria, dentro da área da eletrónica nos camiões, e recebe cerca de 800 euros, mas a esposa tem-se debatido com vários problemas de saúde e não trabalha. As rendas inflacionadas que vigoram atualmente em Fátima não perspetivam uma solução na cidade para um casal com quatro filhos, e uma deslocação para as aldeias em redor pode ameaçar a frágil estabilidade que conseguiram alcançar.

Grávida de seis meses, a mulher de K. não queria ir-se embora a pé, mas disseram-lhe que eram apenas poucas horas até à turquia. “Não eram”, comenta a jovem de uma beleza discreta mas sofisticada

A história de K. e da família, não obstante, pode ser considerada bem sucedida. Em Alepo, K., 38 anos, era eletricista de camiões e tinha uma empresa, cuidando de quatro oficinas. A cidade, recorda ao mediotejo.net, era enorme, albergando cerca de 6 milhões de pessoas. A guerra estava ali, mas a família ia mudando de casa, procurando zonas mais protegidas, tendo vivido em diversos pontos da cidade e conseguido manter-se a salvo durante quatro anos.

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A narrativa é contada a cinco vozes, intervindo ora o casal, ora um dos três filhos mais velhos. Recordam o medo da primeira noite de fuga, quando caminharam ao longo de 11 horas, contornando postos militares, até chegarem à Turquia.

“Há muita gente naquela região a negociar estas viagens”, explica K. Partiram assim de Alepo durante a noite, em março de 2016, só com um saco e a roupa que tinham no corpo, acompanhados por um grupo alargado de pessoas. “Fazia frio”, recordam, constatando que ainda conseguiram transporte de carro durante três quilómetros, mas acabaram por fazer o percurso até à Turquia a pé. As fronteiras do país vizinho não ficavam longe, mas “andámos muito tempo”, recordam as crianças.

Uma multidão cercada pela guerra aguarda a chegada de equipas humanitárias durante um breve cessar-fogo, para tentar matar a fome. Foto: Nações Unidas/Síria

Na Turquia ficaram cerca de duas semanas à espera do barco para a Europa, a viver no que conseguem descrever em português como “um hotel”, mas dando a entender que estiveram sempre acompanhados por muitas pessoas. O barco em que partiram era uma embarcação semelhante às de pesca, consegue descrever K., mas onde só iam 18 pessoas. Para ter este “luxo”, explica, teve que pagar mais, se não teria que ir juntamente com 50 a 60 pessoas, nos botes que mais naufragam com refugiados no Mediterrâneo. Pagou 5.500 dólares pela viagem. Até ao momento em que colocou os pés em Portugal, esta fuga retirou à família cerca de 11.500 dólares.

“Há muita gente naquela região a negociar viagens” para a europa, explica. Partiram assim de Alepo durante a noite, só com um saco e a roupa que tinham no corpo

Chegados à Grécia, a família foi acolhida por equipas da UNICEF. “Havia muitas pessoas da Holanda, uma senhora era indiana e ajudou no árabe”, descrevem. Permaneceram num “hotel” durante seis meses, nascendo aí o pequeno L. a 28 de junho de 2016. Das 22 famílias que estavam com eles, referem, todas foram encaminhadas para Portugal. Destas, apenas cinco permanecem no nosso país, tendo as restantes decidido partir para outros locais da Europa.

Em Fátima, desejando trabalhar na sua área, K. levou cerca de seis meses a arranjar trabalho. Acabou por conseguir, graças ao esforço de quem acompanhou a integração, tendo-se rapidamente destacado entre os colegas e conseguindo um salário igual. Hoje já tem propostas para trabalhar noutras empresas e poderá vir a receber um ordenado melhor.

“Portugal tem pessoas muito boas”, comenta K. e a família. “A habitação é boa, o clima é agradável, há segurança”, sendo que as crianças vão todos os dias a pé apanhar o autocarro para a escola. Mas, admite K., findo o apoio do programa de acolhimento, caindo as contas para pagar e a necessidade de encontrar nova casa, os apoios sociais são muito baixos, pelo menos quando comparados ao que sabe existirem nos países mais desenvolvidos da Europa.

Ainda assim, ao contrário do que viram suceder entre os companheiros de viagem e outros refugiados na região, não pensam partir. Depois de um período tão conturbado, querem estabilidade e preferem ficar em Portugal.

Pagaram 5.500 dólares pela viagem de barco da turquia até à grécia. Até ao momento em que colocaram os pés em Portugal, a fuga  de alepo retirou à família síria 11.500 dólares

As crianças falam já português fluentemente e o pai consegue comunicar devido ao facto de trabalhar, mas a mãe ainda só fala praticamente árabe e um pouco de inglês. A integração foi inicialmente difícil, admitem. Não há grande apoio na tradução e a comida é diferente. Na rua, a esposa de K. usa véu islâmico, mas refere que nunca sentiu qualquer tipo de preconceito. Também K. afirma que tem sido bem tratado, assim como as crianças, que se integraram com sucesso na escola.

O que desejam para o futuro? “Que a guerra na Síria acabe e possamos voltar para casa” Foto: mediotejo.net

Neste momento a preocupação é a nova residência, a educação dos filhos e a perspetiva de que a guerra na Síria termine para que um dia possam voltar para casa. Ao seu redor, os filhos vão crescendo com sonhos: as meninas querem ser médicas, o rapaz quer ser eletricista como o pai.

Esta família síria nunca tinha ouvido falar em Fátima. Agora costumam visitar o Santuário, mas como passeio. Sendo muçulmanos, não festejam o Natal e, por isso, contam aproveitar o feriado para ir dar um passeio à praia da Nazaré.

A necessidade de uma mãe para abrandar uma mente em guerra

O que significa ser refugiado? Porque falha a integração? O que tem Ourém para por ali ficar mais gente do que noutros pontos do nosso país? A assistente social, Estela Ribeiro, tem algumas respostas a estas questões. Tendo acompanhado alguns dos processos de integração no concelho de Ourém, incluindo o da família de K., frisa que “o que resulta é o acompanhamento mais próximo às pessoas, manter o afeto, acolher como se fossem família. Sem isso, os refugiados sentem-se desamparados e procuram outras soluções”, constata.

A metáfora da condição de refugiado é a de um regresso a uma situação de dependência, quase infantil: voltar a ser criança e a precisar da orientação dos pais. Estela Ribeiro tem procurado fazer este trabalho, levando mimo e alegria a quem está responsável por acompanhar, ajudando no que pode, sendo a família que as pessoas não têm. “Estas pessoas viram morrer a família e fizeram o seu luto aqui”, constata, “é preciso um ombro para desabafar, para ajudar, ter um suporte, como um pai ou uma mãe”.

Estela Ribeiro tem acompanhado várias famílias de refugiados no concelho. Trabalho tem que ser feito como se fossem da família, defende Foto: mediotejo.net

As situações de alguma descompensação emocional e desorientação que os refugiados vivem levam-nos por vezes a ter comportamentos que quem observa não percebe e que, noutras circunstâncias, não teriam. São estes os grandes obstáculos à integração, explica. “Como já perderam tudo na vida, por vezes já não têm medo de perder a própria vida. Há momentos de raiva, de desespero, de loucura”, tenta enumerar. “Se ninguém os apoia, a dor de tanta perda faz com que por vezes deixem” simplesmente de se importar.

“Como já perderam tudo na vida, por vezes já não têm medo de perder a própria vida. Há momentos de raiva, de desespero, de loucura. Se ninguém os apoia, a dor de tanta perda faz com que por vezes deixem simplesmente de se importar”

“Estão longe da vida que conheciam, sem perspetivas de futuro, sentem a impotência de não fazerem pelos filhos o que o gostariam, sentem-se incompreendidos”, sublinha. “Vivem no fio da navalha”, com problemas de toda a ordem que não sabem como resolver, como a história do despejo da família de K. e a situação da saúde da esposa, que ainda não se conseguiu identificar, proveniente eventualmente de toda a família ter chegado com o sistema imunitário em baixo. “Não vivem uma guerra, mas vivem psicologicamente um estado de guerra, de insegurança.”

Integrando a equipa que faz o acompanhamento do acolhimento a refugiados da Câmara de Ourém, António Castanheira realça a importância do trabalho de proximidade Foto: mediotejo.net

PORTUGAL PREPARA-SE PARA RECEBER MAIS MIL REFUGIADOS

Chegaram este mês a Portugal mais 33 refugiados, deste vez ao abrigo do “Programa Voluntário de Reinstalação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados”, que trouxe pessoas que se encontravam no Egito. Destas, 14 são adultos e 19 menores (seis famílias e dois cidadãos isolados), nacionais do Sudão do Sul e da Síria, tendo sido acolhidos pela Associação Peaceful Paralel (Coimbra), pela Câmara Municipal de Proença-a-Nova, pela Câmara Municipal do Alvito e pela Câmara Municipal de Lisboa, adianta um comunicado de imprensa da Administração Interna. Dentro deste programa, o país vai receber nos próximos meses 1.010 refugiados que se encontram sob proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados na Turquia e no Egito.

O “Programa de Recolocação da União Europeia”, que decorreu entre dezembro de 2015 e março de 2018, deu abrigo em Portugal a mais de 1.500 refugiados, segundo dados oficiais. Perto de metade dos programas de acolhimento entretanto terminaram e estas pessoas – as que ficaram – estão a tornar-se autónomas. Mas cerca de metade dos refugiados acolhidos foram-se embora antes dos programas de apoio terminarem (um a dois anos).

A subregião do Médio Tejo tem conhecido as muitas variáveis desta realidade nos últimos três anos, como o mediotejo.net tem noticiado, e onde apenas o concelho de Ourém se mantém neste momento a receber refugiados.

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