“Recados de Verão”, por Carlos Alves

Foto: Carlos Alves

Estamos no Verão! Fenómeno equatorial, nem vento, nem chuva, nem calor, os ímpetos estão gélidos. Vou partir, com boa saúde, pouco dinheiro mas com muita alegria.

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Vou deixar amigos, mas também deixo alguns inimigos, aqueles que nós detestamos reciprocamente. Parto só! Parece que nunca mais chego ao meu destino. O meu vestuário, nem sei o que lembra: um banhista, um barqueiro, nem sei explicar. Aquilo que sei é que estou fatigado! Cheio de tosse com os olhos a arder mas com um doido prazer de encontrar muitas almas cor de luar. Aonde? Onde o olhar alimente os meus sonhos, as minhas quimeras, onde ouça o cântico dos pássaros e os pomares em flor, animem. Sei que nem sempre pode ser assim. Muitas vezes vem a agonia, como um ruído de um comboio, aniquilando as lembranças e pondo os olhos em convulsão. Devia saber que é assim que funciona, mas vou continuando olhando as pedras, os moinhos abandonados e caminhando, por esta solidão, lembrando os farrapos e a fome que existe por esse Mundo fora. E sempre com os mesmos pensamentos, corcovado, ejaculando desejos, continuando a perseguir com os meus olhos frios e desalentados, as fomes, as guerras, as lágrimas e sei lá mais o quê!

Ando nesta vagabundagem amarrado às minhas ideias e tentações, quase sempre relacionadas com as minhas insatisfações interiores, mascaradas muitas vezes de uma visão paradisíaca.

As vezes que gargalhei por aquelas ruas funestas, olhando de soslaio para aquela barba indómita de mendigo, procurando em nome de uma boa governança, que as moedas do erário público sirvam para alguma coisa. E cada vez que penso nos aconchegos partidários, mais o meu sangue fica desassossegado e dessorado, cheio de solavancos cínicos.

Que funda tristeza murcha a alma dos homens que nem o povo os compreende, e que empoleirados dão beijinhos, pensando ser absolvidos. Descansem que não vai ser assim! Queremos virtudes no trono e essa matilha de adeptos que afluem descaradamente aos cargos do Estado, sorvendo o dinheiro na razão inversa dos serviços e dos méritos, ponham-se na mira e quando ouvirem as doze badaladas, não se esqueçam que o povo abastardo se vai tornando nosso e o sangue que corre nas suas veias, é o sangue dos invasores que estão sempre à espreita. Perfeitamente consciente das imperfeições do cérebro humano, rogo alguma sensatez, primeiro usava o génio para arranjar ideias precisas e depois tomava a ousadia de denunciar verdadeiras monstruosidades como certos edifícios e estátuas que para aí vemos.

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Que falta de bom gosto!

Mas de quem é a culpa? Minha, que não paro de caminhar? Julgo que não…a culpa é dos retardatários que estão sempre na primeira fila com receio de perder o espetáculo à hora anunciada. O povo que trabalha, que sofre e que se definha à míngua de uma palavra que o anime e o reconforte, espera ardilosamente com bons costumes que um dia sejam eles os primeiros.

Parece que finalmente cheguei! Vou deitar-me na areia, esperar que as ondas apareçam para me beijar e esperar que o homem dos moinhos de papel, de todas as cores, chegue para me abraçar. Entretanto aproveito para clarear a memória e ser compreensivo com a aceitação da inevitabilidade e acreditar que a nossa civilização, que tanto deve ao poder do amor, não seja destruída.

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