“Quem tem medo da mudança?”, por José Rafael Nascimento

“Homens mordendo a língua para ter dor”, cena da Grande Janela Este da Catedral de Iorque (York Minster), a qual conta a mais grandiosa de todas as histórias: o início e o fim de todas as coisas. Da criação ao apocalipse, o fim dos tempos e o nascimento de um novo céu e uma nova terra. Foto: The York Press

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
– Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

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O poeta sabia do que glosava e prosseguia com a incerteza própria da dialéctica da vida, temperada com a proverbial mágoa e saudade lusitanas: “Continuamente vemos novidades, / Diferentes em tudo da esperança: / Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem (se algum houve) as saudades”. Lembrava ele que o tempo é de bonança e optimismo, trazendo porém sentimentos contraditórios: “O tempo cobre o chão de verde manto, / Que já coberto foi de neve fria, / E em mim converte em choro o doce canto”. E concluía que a mudança não cessa de surpreender, tomando sempre diferentes qualidades: “E afora este mudar-se cada dia, / Outra mudança faz de mor espanto, / Que não se muda já como soía”.

Um espanto que parece não assomar da resposta, aparentemente simples e clara, ao título desta crónica: Quem tem medo da mudança é quem julga que perde alguma coisa com ela. Fui claro? Não, não fui. É simples? Não, não é. Esta resposta tem muito que se lhe diga e cada palavra tem subjacente realidades que é preciso dissecar e compreender. O que é a mudança, o que é o medo, o que é julgar, o que é perder e que coisa se perde com a mudança? Vamos então às considerações.

Há mudanças e mudanças, umas ditas incrementais ou de melhoria, outras radicais e de transformação profunda. Outras, ainda, aparentes ou cosméticas, onde alguma coisa muda para que tudo permaneça na mesma. Com os mesmos ou com outros protagonistas, tanto os que pretendem uma mudança genuína como os que, aproveitando a vontade de mudança da maioria, se apropriam dessa vontade para a esvaziar de conteúdo e se apossar dos privilégios que a outros apraziam.

“Nada é permanente, excepto a mudança” – Heráclito.
Ilustração de NicePNG.

As mudanças podem ser ou não percebidas, mas tudo está em constante e perpétuo movimento, como o sonho de Gedeão (Rómulo de Carvalho, 1956). Com o poeta da Pedra Filosofal, aprendemos que “o sonho comanda a vida e que sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança”. E que, tal como o sonho, também a mudança é “bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo”.

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Geralmente as mudanças ocorrem após um processo mais ou menos demorado de maturação. É certo que a última gota faz verter a água do copo, mas as muitas gotas que o encheram constituíram um processo demorado e, provavelmente, desvalorizado de mudança. Mas, tal como os inúmeros movimentos tectónicos que ocorrem mesmo debaixo dos nossos pés vão produzindo ajustamentos na litosfera, também as dinâmicas sociais de mudança vão “tomando sempre novas qualidades”. Em regra de forma suave, excepcionalmente com a violência inusitada dos sismos que ocorrem por obstaculização dos normais ajustamentos.

Muita gente tem medo de mudar, resistindo à mudança. Os motivos são diversos. Uns, por medo de perder os ditos privilégios, seus ou de familiares e amigos. Outros, por medo de não os vir a obter, se e quando vierem a precisar deles, mesmo quando constituem direitos básicos garantidos por lei. Outros ainda, por mero conservadorismo determinista, baseado na convicção de que as coisas são como são e não há livre-arbítrio ou liberdade da acção humana que as mude (ou deva mudar). E, aos que já nasceram no actual status quo, por lhes faltar outras referências.

O riso cómico e intenso das catorze figuras de bronze, dispostas em labirinto, desafia os poderes totalitários e situacionistas que limitam a liberdade e o bem-estar social. Foto de Rachel Topham.

Mas há também quem, não estando satisfeito com a situação, recuse mudar por não ver na mudança vantagem relativa. A solução proposta cumpre, como defende Everett Rogers, os requisitos de substancialidade, observabilidade, experimentabilidade, compreensibilidade e compatibilidade? Se não cumpre, não é percebida como suficientemente inovadora e persuasora. Mas não basta, a adesão à mudança será tanto mais confiante e entusiasta quanto mais sabiamente forem tidas em conta as dimensões comunicação, tempo e sistema social.

A resistência à mudança é natural, nada muda sem algum grau de obstrução. O segredo está, pois, nas estratégias adoptadas para superar os diferentes tipos e manifestações de resistência. Estas estratégias são científicas e não se compadecem com abordagens amadorísticas e imaturas.  Kurt Lewin foi pioneiro no estudo da mudança organizacional, estava-se em meados do século passado. Os modelos de Mudança em Três Etapas (descongelar, mover e recongelar) e de Análise do Campo de Forças (motrizes e restritivas), são basilares na compreensão dos processos de mudança.

A resistência à mudança pode estar também relacionada com o medo (ou o acomodamento, por oposição) de romper com o status quo – as estruturas, os processos, os papéis e as relações sociais estabelecidas – por mais que estas não agradem nem satisfaçam (“para pior já basta assim”, diz-se). Este medo pode ser real ou imaginado. Muitas vezes é imaginado e as pessoas não estão cientes do poder que têm para enfrentar os seus medos e mudar a realidade. Um poder que é simultaneamente individual e colectivo, como já aqui escrevi.

“É difícil que alguém compreenda algo quando o seu rendimento depende de não o compreender.” – Upton Sinclair. Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro

Afirmei, então, que “uma só pessoa, numa determinada circunstância, comunicando a mensagem certa pelo canal apropriado, pode produzir a mudança necessária na comunidade, com um impacto para além do imaginável. A História regista muitos destes momentos, fazendo-nos acreditar na força da razão e da acção individuais. É preciso ter este sentimento de auto-eficácia, aliado a alguma dose de coragem e atrevimento, pois muito da acção colectiva tem origem na palavra e no exemplo inspirador de um só indivíduo”.

Acrescentava, em seguida, que esse exemplo inspirador “levaria depois um número elevado de pessoas a ter o mesmo sentimento de auto-eficácia e a acreditar que podem fazer a diferença e gerar mudança (p.e. participando e votando), mesmo quando a participação cívica é ameaçada ou condicionada pela apatia e indiferença, ou por grupos incumbentes que tudo fazem para se perpetuar no poder”. Em suma, estou convicto de que o sucesso da mudança se deve à combinação virtuosa da acção individual e colectiva.

É certo que temos uma cultura societal avessa ao risco. Mas, como sublinha Leo Buscaglia, “O maior risco na vida é não arriscar nada. A pessoa que não arrisca nada, não faz nada, não tem nada, não é nada e não se torna em coisa alguma. Acorrentado pelas suas certezas, é um escravo privado do direito à sua liberdade. Somente a pessoa que arrisca é verdadeiramente livre”. Não se compreendendo a necessidade de mudança e protelando-a, arrisca-se a sofrer pesadas consequências. E quando o sofrimento de não mudar for superior ao de mudar, surgirá então a vontade de mudança.

A credulidade absoluta, ingénua e acrítica, no ‘status quo’, leva a que, quando a mudança ocorre, o mundo colapsa. Ilustração de Maren Katelaan

A mudança implica frequentemente perdas, pelo menos para alguns. Mas, o que se pretende é que os ganhos sejam superiores às perdas, beneficiando todos e, se possível, cada um. Ninguém se pode sentir completamente bem quando outros ao seu lado se sentem mal. Somos seres sociais e interdependentes, razão pela qual a ecologia social deve ser atendida e preservada. Por isso, e para isso, os processos de mudança devem ser bem informados e comunicados (de communicare = pôr em comum, partilhar, conversar).

Comunicar é a palavra-chave, tal como tempo e presença. Mas também liderar, planear, organizar, executar e avaliar. É preciso saber lidar com os medos e as resistências, mostrando compreensão e não criticismo. É preciso saber transmitir confiança e entusiasmo, envolvendo e comprometendo. É preciso saber definir metas de curto e médio prazo, obtendo ganhos intermédios que estimulam a autoconfiança, aumentam a motivação e redobram as energias. É preciso apoiar e reforçar positivamente as mudanças alcançadas.

Não há nada mais prático do que uma boa teoria”, terá afirmado um dia Kurt Lewin. Por isso, importa revisitar a retórica aristotélica e os princípios de comunicação de Paul Watzlawick, lembrar os modelos de comunicação de Hovland-Yale e de Petty & Cacioppo, recuperar as estratégias de persuasão de Robert Cialdini e de Rule, Bisanz & Kohn, e pegar no acrónimo AIDA e na fórmula de Lasswell, entre outros instrumentos de comunicação persuasiva e influência social.

“Melhor do que permanecer cobardemente indiferentes, por medo do que possa acontecer, é correr o risco de enfrentar metade dos perigos que antecipamos.” – Heródoto
Em cima: Ilustração de David Parkins/The Economist. Em baixo: Ilustração de Kristin Wong/Lifehacker

Como brejeiramente dizem os anglo-saxões “This is not for sissies”, ou seja, isto não vai lá com abordagens fracas e improvisadas. Nem com as mesmas soluções que produziram os problemas actuais. A mudança bem-sucedida exige vontade, saber e disponibilidade, aliados a criatividade, inovação e bom aproveitamento de oportunidades. E não me canso de citar Camões, o poeta maior que nos lembrou que “O fraco Rei faz fraca a forte gente”. Quem lidera a mudança – a pessoa, a equipa – é a escolha decisiva, a mais simbólica e instrumental.

Mas decisiva é, também, a unidade e a coesão, colocando o interesse de todos acima e à frente do interesse de alguns, por mais legítimos que estes sejam. A mudança exige realismo e coragem, e faz-se com união, não com divisão. Sobretudo em momentos decisivos, em que o futuro deve ser abreviado e não adiado. Se a mudança é necessária, é preciso fazer por ela. Mas mudar não é, obviamente, obrigatório. Tal como respirar também não é.

FRASES CÉLEBRES

“Onde está o medo, não está a felicidade.” – Lucius Seneca
“A única coisa de que devemos ter medo, é do próprio medo.” – Franklin Roosevelt
“Nada na vida deve ser temido, apenas compreendido. Este é o tempo de compreender mais, para que possamos temer menos.” – Marie Curie
“Temos uma cultura política de intimidação, favorecimento e medo, e essa não deve ser a maneira de governar uma comunidade.” – Alexandria Ocasio-Cortez
“Quando um cidadão, um só que seja – que nada fez de errado – é forçado pelo medo a fechar a sua mente e a sua boca, então todos os cidadãos estão em perigo.” – Harry Truman
“O que eu mais temo é Poder com impunidade. Eu temo o abuso do Poder e o poder de abusar.” – Isabel Allende
“Porque havemos de temer o futuro? Nós já sobrevivemos ao mais difícil!” – Winston Churchill
“Não temam a morte, rapazes. Desafiem-na e ela passará para o lado do inimigo.” – Napoleão Bonaparte

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