“Que destino para o edifício do antigo mercado municipal?”, por Vasco Damas

Edifício do antigo mercado municipal de Abrantes. Foto: mediotejo.net

Tenho acompanhado com interesse mas com algum distanciamento todas as decisões e principalmente as indecisões relativamente ao destino a dar ao edifício do antigo Mercado Municipal de Abrantes.

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Quando me refiro ao meu distanciamento assumo a falta de profundidade de conhecimento sobre o tema e se há papel em que não me sinto confortável é precisamente a emitir opinião sobre aquilo que desconheço ou que não tenho informação suficiente.

O facto de assumir esta falta de conhecimento ou até mesmo de visão estratégica para aquilo que é, ou possa vir a ser prioritário para o futuro do concelho, não me inibe de analisar este tema, deixando claro que não pretendo fazer juízos de valor que provoquem ruído que não interessa a ninguém mas fazendo uma abordagem com algumas perguntas que ao ser respondidas me permitam aumentar o conhecimento e o esclarecimento sobre o tema.

Se não estou enganado, em 2009 uma das prioridades de quem geria os destinos do nosso Concelho era a preservação do património municipal. O que mudou entretanto para que em 2015 se considerasse que o edifício do antigo Mercado Municipal não tinha grande valor histórico ou arquitetónico? Acreditando na justiça desta avaliação questiono se também devemos ignorar o património afetivo que contribuiu para construir as memórias que fazem parte da história da cidade e dos seus habitantes na segunda metade do século passado?

Não me quero dispersar nem quero comentar opções que deram origem à construção de um novo edifício com traça baseada numa suposta “linguagem contemporânea” até porque gerir é optar e a opção dá sempre azo à crítica dos defensores de outras alternativas. Mesmo que gostos não se discutam e que a estética até possa ser preterida em favor da funcionalidade o que parece também não ter sido o caso, pretendo manter o foco nas soluções ou sugestões para reabilitar o edifício do antigo Mercado Municipal.

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Partindo do princípio que é disso que se trata e que a opção demolição tem vindo a perder força na mesma razão do ganho no número de “amigos do edifício do antigo Mercado Municipal”.

Outra das questões que fará sentido colocar neste momento é quais as motivações que estarão subjacentes à reabilitação de mercados municipais por parte de um cada vez maior número de Câmaras Municipais de norte a sul do nosso país. Estarão todas essas Câmaras erradas no desenvolvimento de planos estratégicos para o futuro dos seus concelhos? Bem sei que podemos e devemos ser criativos e que não temos que andar a copiar modelos alheios, mas se o fazemos no pior porque não o replicamos também para o melhor?

Aproveitando a boleia do argumento oficial, se o que falta são projetos para reabilitar e redinamizar aquele espaço então que se criem as condições para que esses projetos apareçam até porque acredito que essa será a parte mais fácil.

Parece-me claro que a prioridade neste momento é impedir que a demolição do edifício avance até porque esse cenário tornaria impossível outras opções.

A força popular não se mostra apenas no momento do voto também se manifesta com a execução de ações simbólicas. Tenho conhecimento que está em andamento uma iniciativa que pretende encher com flores as “portas” daquele edifício, tendo o seu mentor referido que iniciará este movimento no próximo dia 1 de julho, deixando o convite a todos aqueles que se queiram associar a si e à sua ideia.

Apetece-me afirmar que maior simbolismo poderia ter o argumento na defesa de um edifício que está em risco de ser demolido do que a utilização de flores numa cidade que outrora chegou a ter a assinatura de “cidade florida”?

Para memória futura vale a pena olhar hoje para este exemplo do passado relembrando que, para o bem e para o mal, os impossíveis só o são até acontecerem. Não nos esqueçamos que o futuro ganha-se ou perde-se no presente. Com ação ou omissão. Fica o alerta, deixando que a consciência de cada um fale por si.

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