“Quanto vale um professor?”, por Hália Santos

Na década de 80 diziam aos jovens que, se queriam ser alguém, tinham que ter um canudo. As famílias de classe média não hesitaram. As classes sociais mais baixas fizeram um esforço porque acreditaram nessa mensagem. O Estado ajudou, e bem, muitos jovens a terem condições para tirar um curso.

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Eram tantos os jovens a querer ir para o ensino superior – motivados pela mensagem do canudo – que não havia vagas para todos. Lembram-se das universidades privadas que nasceram como cogumelos e dos turbo-professores que davam aulas em várias instituições porque não havia docentes universitários suficientes?

Pois bem… foram milhares de jovens a entrar no ensino superior. Muitos foram os primeiros licenciados nas suas famílias. Sendo bons alunos no secundário, até podiam tirar os seus cursos de sonho. Os cursos das áreas da Saúde, das Engenharias e das Economias ofereciam carreiras quase certas. Mas os jovens escolheram o que mais gostavam, mesmo que não houvesse saída profissional à vista. Licenciaram-se em Línguas, em Matemática, em Física, em Filosofia, em Sociologia, em História, em Geografia, em Belas Artes, em Educação Física.

Quando acabaram os cursos perceberam que não iam ser artistas nem filósofos, nem historiadores ou geógrafos. Não seriam físicos nem matemáticos, nem sociólogos nem desportistas. ‘Não faz mal!’– diziam-lhes. ‘Podes ser professor ou professora!’ Não era bem o concretizar do sonho, mas a cenoura da Função Pública era irresistível. Porque o sistema precisava deles como professores, para além de todos os outros, aqueles que sempre sentiram a verdadeira vocação para ensinar.

Havia muitas crianças e jovens para ensinar e as Escolas Superiores de Educação não formavam professores suficientes. Havia tanta falta de professores que até havia muitos sem habilitação para a docência. Por isso, quem abraçava a profissão tinha uma carreira com condições justas de salários e de progressão.

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O cenário fez com que muitos passassem a escolher os cursos de que gostavam, mas já com a intenção de serem professores. Os jovens licenciados nas mais variadas áreas que decidiram abraçar a docência deram origem a um verdadeiro batalhão de professores e de professoras. Perceberam que era uma carreira aliciante, mas também exigente e, muitas vezes, desgastante. O que tem que ter um preço.

Muitos tiveram que ir fazer o estágio pedagógico para poderem estar na carreira. Outros foram fazendo mestrados e doutoramentos porque o conhecimento fazia parte do seu ADN. Multiplicaram-se ações de formação (muitas de qualidade muito duvidosa, é certo) porque se dizia que os professores tinham que as fazer.

De repente, tanto os que tinham a verdadeira vocação como os que entraram na carreira pelo facto de terem um canudo constituíam um conjunto muito valioso de profissionais. Foram gerações de gente nova. Surgiram projetos inovadores, as escolas encheram-se de clubes, de atividades, de torneios, de concursos e de exposições. Nas escolas respirava-se vivacidade. Havia problemas, claro, mas raramente havia tempo para lamentações. E a carreira era apelativa. As progressões prometidas aconteciam.

Se recuássemos 20 anos e perguntássemos a esses professores se achariam possível o Estado não cumprir com o que lhes prometeu, quando foram fundamentais para ensinar, preparar, motivar, inquietar e apoiar, cada um deles, centenas de crianças e jovens, o que diriam? Que foram enganados.

Sabemos que há ciclos. Sabemos que há 20 ou 30 anos havia muitas crianças e jovens e que havia condições para suportar a carreira dos professores, conforme foi criada. Aliás, sempre houve gente a contestar as ‘regalias’ da carreira docente. Mas a verdade é que foram eles que garantiram que várias gerações tivessem um ensino com qualidade e democratizado.

Não é justo que se diga a estes profissionais que a opção que fizeram e que o serviço que prestaram a todos nós, afinal, agora tem um valor diferente do que tinham quando começaram.

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