“Qualidade e inovação nas festas populares”, por José Rafael Nascimento

Um dos principais motivos de interesse das terras interiores, tanto para os seus habitantes como para os que emigraram e voltam anualmente em gozo de férias, e ainda para outros que vivem nas cidades e apreciam o mundo campestre e as belezas do Portugal profundo, são as festas populares nas aldeias. No concelho de Abrantes, estas festas realizam-se em praticamente todas as pequenas povoações, pelo menos uma vez por ano e em datas mais ou menos certas, com especial incidência no Verão. Elas são o equivalente, no meio rural, às festas de bairro nas cidades e têm uma característica comum: quase todas adoptam o mesmo modelo de oferta e organização, e raramente inovam. Assim, o escanchado frango no churrasco costuma ser o “Rei da Festa”, por vezes complementado por sardinha assada, porco no espeto ou febras na brasa. Os animadores musicais são quase sempre os mesmos, contratados rotativamente no mercado local. Uma ou outra banca de artesanato e utilidades domésticas (vendidas ou rifadas), uma ou outra rulote de farturas, pipocas e churros, um ou outro carrinho de gelados e waffles, compõem e esgotam geralmente a oferta habitual. É assim há muitos anos e funciona razoavelmente, mais por rotineira tradição do que por curiosa descoberta. As pessoas comem, bebem, conversam e dão um passo de dança, e pouco ou nada de novo acontece neste ritual de consumo sagrado com muito de peregrinação.

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À semelhança das festas de bairro nas cidades, as festas das aldeias são um ‘must’ do interior e da ruralidade. | Foto: DR

É comum dizer-se que “em equipa que ganha, não se mexe”. Contudo, também se usa dizer – pois os ditados populares servem para tudo, incluindo o seu contrário – que “é preciso mudar, para que tudo fique na mesma”. Ora, se é verdade que o que é bom e apreciado deve ser mantido e preservado, também é verdade que o mundo e a vida são feitos de renovação, transformação e progresso. Não há contradição entre estas duas verdades, ambas são válidas e úteis, dando simultaneamente estabilidade e fulgor à vida. O que é necessário é combiná-las inteligentemente, com bom senso e sentido de equilíbrio, aceitando e desejando testar novas experiências e correr riscos controlados, sem descaracterizar o conceito fundamental. Por outras palavras, trata-se de preparar o passo seguinte enquanto se dá o passo actual, pois só este movimento permite o caminhar. É preciso, pois, aprimorar e inovar, isto é, melhorar a qualidade e introduzir mudança no que se faz, sendo estes dois objectivos válidos para qualquer realidade, incluindo as festas populares. Qualidade e inovação a) nos produtos e serviços oferecidos à população, b) nos processos de produção e de trabalho, e c) na comunicação e marketing destes eventos tão relevantes para as comunidades locais e os forasteiros que as demandam.

Para melhorar a qualidade e incentivar a inovação nas festas populares que têm lugar no concelho de Abrantes, organizadas por perseverantes colectividades e operacionalizadas por generosos/as e esforçados/as voluntários/as, seria útil realizar anualmente acções prévias de actualização e sensibilização para a melhoria 1) da organização e métodos de trabalho, 2) do aprovisionamento e confecção dos produtos, 3) do atendimento e serviço ao cliente, e 4) da divulgação e promoção dos eventos. Estas acções deviam estar previstas nos contratos-programa de financiamento firmados entre a autarquia e as colectividades, os quais fixariam padrões de qualidade e compromissos de inovação a garantir por quem assume a responsabilidade de organizar as festas populares do concelho. Os padrões de qualidade derivam, como se sabe, das normas legais e das boas práticas de gestão que as comissões organizadoras e os voluntários devem respeitar e seguir nas dimensões acima referidas, enquanto as inovações passariam por melhorar e variar o que já se faz, fazendo algo de novo, desde a adopção e adaptação de experiências alheias que pareçam interessantes e valorizem a oferta actual, até à genuína invenção de novos conceitos e soluções, testando previamente a sua viabilidade prática e grau de aceitação pelos potenciais públicos consumidores.

A festa rústica e simples da Esteveira, junto aos estábulos e aprestos agrícolas, é o arraial dos arraiais.

Em matéria de inovação, o limite à criatividade é a imaginação, inclusive para conseguir financiar as novas iniciativas. Estou a pensar na obtenção de patrocínios e doações (de dinheiro ou bens), rifas e concursos de aptidões, jantares e espectáculos de angariação de fundos, e outras fontes de receitas. A inovação de produtos e serviços deve alcançar os 20 a 30% de novidade no sortido, dando especial atenção ao público infantil – jogos e diversões, literatura e histórias, desafios e competições, experiências e tecnologia, máscaras e guloseimas, etc. – e ao público sénior – costumes e tradições, dança e gastronomia, conversas e memórias, artes e ofícios, saúde e mobilidade, etc. Os processos de produção e de trabalho (i.e., a melhor maneira de fazer as coisas) também podem e devem ser inovados, com vista a diminuir o consumo ou desgaste de recursos humanos, financeiros e materiais, e a melhorar a eficiência do processo produtivo e de atendimento e serviço ao cliente, aumentando a sua satisfação e fidelização. Finalmente, importa inovar no marketing – definição da estratégia e do plano operacional – e na comunicação com os públicos-alvo, seja directamente através de meios físicos – placas, cartazes, folhetos, etc. – e das redes sociais, seja indirectamente através da comunicação social e dos parceiros convidados para a organização e para a apresentação pública dos eventos, sobretudo daqueles que podem credibilizar as iniciativas e mobilizar audiências ou participações significativas.

Do ponto de vista do marketing, deve ser definido o posicionamento do evento – o conceito e a imagem que se pretende que o público perceba e memorize – e os segmentos-alvo a alcançar com as mensagens a publicar ou enviar, entre outras decisões estratégicas e operacionais. No que respeita à comunicação, que se quer eficaz e persuasiva (ela constitui frequentemente o “Calcanhar de Aquiles” dos eventos), interessa elaborar boas mensagens e escolher criteriosamente os canais a utilizar. As mensagens devem ser simples e claras, não excluindo a introdução de algum pormenor de sofisticação que fique a bailar na cabeça da audiência. Assim, uma mensagem deve ser capaz de (sequencialmente) chamar a Atenção, despertar o Interesse, criar o Desejo e levar à Acção, formando as iniciais destas quatro dimensões o famoso acrónimo AIDA. Os elementos que chamam a Atenção são geralmente os contrastantes e inusitados, enquanto os que despertam o Interesse prendem-se com motivações básicas e preferências conhecidas dos seres humanos (em geral e por segmentos). Relativamente ao Desejo (de experimentar, usufruir, satisfazer), ele é criado conduzindo a imaginação do consumidor para as situações futuras de utilização ou consumo, sendo a Acção estimulada por elementos facilitadores e incentivadores proporcionados ao público-alvo.

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O intercâmbio cultural entre colectividades ajuda a manter vivas as tradições locais.

É preciso introduzir novidade nos eventos que se repetem todos os anos. À mente dos frequentadores habituais, caso não estejam já informados, deve ocorrer a pergunta “O que é que lá vai haver de novo?” ou “Quem é que vai lá estar este ano?”. Um dos elementos de novidade – ou de habitual atractivo – com poder de sedução suficiente para movimentar um número elevado de visitantes, é designado por “killer factor” e identifica-se usando de empatia, ou seja, da capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros (a perspectiva do público), tendo em conta as suas características, os seus gostos e os seus desejos. Podem ser grandes e custosas ideias e empreendimentos, como também podem ser simples e irrisórias iniciativas (que tocam nas emoções das pessoas). Como se disse atrás, o limite é a imaginação, sendo útil reunir grupos de discussão (focus group) ou lançar concursos de ideias para gerar sugestões e conhecer as preferências dos visitantes. A qualidade e inovação nas festas populares deve, pois, subir um patamar na inquietação e no empenho dos seus denodados promotores e organizadores. A qualidade, como uma condição necessária abaixo da qual o evento é depreciado e rejeitado, e a inovação, como uma condição suficiente acima da qual o evento é preferido (existindo escolha) e apreciado. Enquanto as festas populares forem todas mais ou menos idênticas, o grau de atracção e sucesso tenderá a manter-se razoável ou satisfatório mas, quando algumas começarem a sofisticar-se e a diferenciar-se – sem perder a identidade e a tradição –, não restará às demais outra alternativa senão dar ao pedal e enveredar pelos paradigmas da qualidade e da inovação.

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