“Portos do Tejo e Barcos d’Água Acima”, por António Matias Coelho

Painel de azulejos em abrigo de autocarro, Chamusca | Foto: António Matias Coelho

Os mais velhos como eu ainda se lembram de, a meio do século passado, sendo crianças ou jovens, verem passar umas enormes velas brancas, Tejo abaixo, Tejo arriba. Eram os barcos de água acima, ou barcos do Ribatejo, que ligavam estas ricas terras do centro do país a Lisboa, levando para a capital e trazendo de lá toda a sorte de mercadorias.

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Foi assim por vários séculos, durante um tempo muito longo em que os rios eram as estradas por onde quase tudo circulava e o Tejo a principal via de comunicação do país. Mas o mundo foi mudando, chegaram o comboio primeiro, as camionetas depois, os camiões a seguir. Tudo meios mais rápidos e mais baratos de transportar as cargas de um lugar para outro. E os velhos barcos d’água acima, em pouco tempo, um a um, foram amainando a vela, acostando, desistindo. Tinha passado o tempo deles.

Barco d’água acima em Constância, 1.ª metade do século XX | Foto: Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Constância

O Ribatejo, como é sabido, é, do ponto de vista agrícola, a região mais rica e mais produtiva do país. Aqui quase tudo se produz, falando de bens da terra, nos campos da Borda d’Água. Por isso, é daqui que sempre foi a maior parte do que Lisboa precisa, fora o muito que ainda vai para outras partes de Portugal e para o estrangeiro. Além disso, sendo terra de penetração fácil, por ser plana e ter o Tejo a correr-lhe pelo meio, sempre o Ribatejo foi uma linha de encontro de tudo, de gente e de bens, que aqui se juntam, chegando e partindo num movimento sem fim.

Ao longo do grande rio, numa margem e na outra, foram-se desenvolvendo pontos de mais intensa confluência onde nasceram e cresceram os portos, esses lugares de atração onde afluíam as mercadorias que os barcos vinham buscar e onde se descarregavam as que eles traziam e o povo precisava para viver. Alguns desses portos atingiram uma significativa dimensão: só aqui na nossa zona, o Rossio de Abrantes, Punhete (que agora se chama Constância), Tancos, a Barquinha mais tarde, o Pinheiro, a Chamusca, Santarém, Valada, Muge, Salvaterra e outros mais.

Nas proximidades da vila da Chamusca, por exemplo, floresceram vários portos. Alguns eram mais antigos, como o de Arraiolos, já citado por Fernão Lopes no século XV, e os portos dos Frades, do século XVI, que eram dois, situados nas imediações do Convento de Santo António, de onde o nome lhes veio. Outros terão surgido depois, como o porto da Cortiça e o porto do Carvão – cujas designações deixam bem claro o que neles mais se carregava – ou o porto das Mulheres, mesmo em frente da vila.

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Em meados do século XVI havia no Tejo, incluindo o estuário, entre as fainas do transporte e da pesca, 1490 barcos. Só Abrantes tinha 180, Constância 120, Tancos 100. A Chamusca, que na contagem da época nos surge junta com outros portos de menor dimensão, como a Golegã e a Azinhaga, tinha, com eles, 50 embarcações[i].

Por estes números se pode imaginar a vida que então o Tejo tinha e o volume das riquezas que por ele circulavam, num tempo em que um barco de média dimensão poderia ir por ele arriba até Vila Velha ou mais além. O rei Filipe II de Espanha, quando governou Portugal, tentou tornar o rio navegável pelo menos até Toledo e chegaram a ser tomadas algumas iniciativas bem-sucedidas nesse sentido. Era o tempo do Tejo sem barragens, com água muito mais abundante que corria livremente e sem o assoreamento que lhe tomaria depois conta do leito.

No meio do século XIX, os portos da Chamusca atingiram uma dimensão significativa e registaram um movimento importante de mercadorias. Em 1854, por exemplo, passaram por eles cerca de 5.500 toneladas, entre as mercadorias que saíam, e que eram obviamente mais, e as que chegavam[ii].

Os barcos d’água acima, que o painel de azulejos acima reproduzido tão bem evoca, eram embarcações de médio porte, com uns 15 a 20 metros de comprimento e 5 ou 6 metros de boca, que calavam muito pouco, mesmo carregando 30 ou 40 toneladas. Um a dois metros de água eram bastantes para seguir viagem, mesmo no pino do estio. Possuíam um mastro alto, muito inclinado à ré, que armava uma grande vela triangular, chamada bastardo, e uma pequena vela de proa. A bordo seguiam o arrais, que podia ser o dono e era quem mandava e ia ao leme, os camaradas, homens experientes na profissão de marítimo, e os moços, gente nova que andava ali para aprender e garantir o futuro da navegação.

Estes barcos d’água acima eram assim chamados porque, pelas suas caraterísticas tão adaptadas às águas geralmente calmas do Tejo, só estavam autorizados a navegar água acima e não no mar, para lá da barra.

Numa viagem que, com bom tempo e vento de feição, nunca demorava menos de dois dias até Lisboa, tudo se transportava, mas em especial o vinho, a cortiça, o carvão, os cereais, o azeite, a palha, a lenha, a fruta. Na viagem de regresso traziam-se o sal, os artigos manufaturados, os adubos para a agricultura mais recentemente. E as notícias do país e do mundo que, antes dos jornais, da rádio, da televisão e de outras novidades mais modernas, chegavam primeiro a Lisboa e subiam depois o Tejo na boca dos embarcados[iii].

Varino, agora utilizado para passeios no Tejo | Foto: Página do Turismo de Lisboa

[i] Quadro «Barcos e batéis dos portos do Tejo em 1552», publicado em Os portos do Tejo em Abrantes, in Navegando no Tejo, CCRLVT, Lisboa, 1995, p. 49.

[ii] Estatísticas extraídas dos Boletins do Ministério das Obras Públicas, citadas por Álvaro Fernandes do Amaral Netto, «Os primitivos portos do médio Tejo e a importância do seu comércio fluvial», publicado no Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1940, p. 124.

[iii] Este texto, ao qual foram agora introduzidas ligeiras alterações, foi publicado no meu livro Os Abrigos da Memória, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012, p. 75-79.

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