“Por este rio acima”, por Berta Silva Lopes

Há meia dúzia de anos viajei pela linha histórica do Douro entre a cidade da Régua e a estação de Pinhão, percurso inesquecível, de incomparável beleza e fascínio, como não conheço outro neste país. Cumpriram-se então todas as expectativas e a viagem ficou desde logo inscrita no mapa dos sítios a voltar uma e outra vez.

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Porém, essa não foi a viagem de comboio mais incrível que fiz até hoje. A mais surpreendente de todas, já lá vão mais de 20 anos, começou na estação de Alvega-Ortiga, na linha da Beira Baixa, e terminou em Castelo Branco, umas dezenas de quilómetros acima, grande parte deles à beira rio. 

Seguimos vagarosamente, em certos troços mesmo muito devagar, respeitando as características do itinerário e a vetusta idade da locomotiva, minutos preciosos para olhar além do retângulo da janela. De um lado as primeiras serranias da Beira Baixa, espetaculares e agrestes, e do outro o rio, imenso e maravilhoso Tejo.

Não sei se é de mim ou da nostalgia, ou esta é efetivamente uma das viagens mais fascinantes que se podem fazer de comboio no nosso país. Ainda que comparável ao percurso da linha do Douro, a zona das Portas de Rodão é bem capaz de superar aquela em beleza natural, imponência e magnitude. 

Ia escrever que a recomendo sem reservas, que vale bem a pena e que pode ser um bom programa para fazer em família, mas temo poder estar iludida. Temo que o Tejo já não precise encolher-se para galgar a estreiteza de granito em Vila Velha, não tenha a força de outrora e não seja tão-pouco capaz de se meter janela adentro, como outrora, moribundo que está no seu leito. 

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A situação é catastrófica, dizem os entendidos, e a verdade é que as imagens que nos chegam todos os dias têm qualquer coisa de apocalíptico. Não é para menos: o Tejo está, literalmente, por um fio. Pouco mais é do que uma ribeira, em agonia crescente desde há vários anos, primeiro por causa da poluição, agora devido à falta de água. 

Já muito se disse e escreveu sobre isso e eu nada tenho a acrescentar. Não sei nada sobre caudais mínimos, planos de execução ou programas de cooperação, mas estou preocupada, tal como estão tantos portugueses, com as notícias que nos chegam diariamente. 

Oxalá as copiosas chuvadas dos últimos dias tragam com elas uma torrente de ideias e ações capazes de mudar o curso do rio e dos seus afluentes, lhes devolvam alento e a beleza, picaretos e caras de espanto e encanto a sorrir de dentro de um comboio com paragem em Almourol, Abrantes, Belver, Vila Velha de Ródão ou Fratel. 

Talvez então faça mais sentido escrever sobre isto, não deixar naufragar estas memórias nem o convite, e talvez só então esta crónica vire bilhete de embarque no comboio que abraça o rio e segue feliz, linha fora. 

Pelo Tejo vai-se para o mundo, escreveu Alberto Caeiro. Para o mundo. 

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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