Ponte de Sor assinala um século de aviação no concelho

Foto não datada, retratando uma das várias aterragens que ocorreram no Campo de Aviação de Ponte de Sor, entre 1919 e o início de 1930. Em primeiro plano, a aeronave e o respetivo piloto, acompanhado por diversos indivíduos, entre os quais, possivelmente, representantes das autoridades locais de Ponte de Sor. Ao fundo, a multidão que acorreu ao Campo para testemunhar o acontecimento. Créditos: AHMPS, coleção fotográfica

Contam-se mais de 100 anos desde a primeira vez que uma aeronave levantou voo em solo português. Também se conta, de acordo com os números da aviação portuguesa, que em menos de dois anos se assinalará um século sobre a primeira travessia área do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. E em Ponte de Sor, precisamente há 100 anos, três anos após o voo inicial da Escola Militar de Aeronáutica, a primeira do género em Portugal, foi inaugurado, no verão de 1919, o Campo de Aviação ou Campo de Aterragem. O mediotejo.net conta-lhe um pouco desta história.

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A cinco de junho de 1919 os trabalhos do Campo de Aterrissagem, como então se designava (do francês atterrissage), estão concluídos e no mês seguinte apresenta-se pronto para receber aterragens. É então pedido à Direção de Aeronáutica Militar para que alguns aeroplanos viessem inaugurar o Campo de Aviação, no dia 31 de agosto, no âmbito dos festejos em homenagem aos combatentes pontessorenses da I Guerra Mundial.

A iniciativa da obra partira do Exército português que, a 10 de março de 1919, pedira à Câmara Municipal de Ponte de Sor, que informasse se poderia conseguir um terreno para ser cedido ou vendido ao Estado com o propósito de nele instalar um centro de aviação, com algumas características específicas.

“Área de 31 hectares conforme, quando possível quadrada; condições de salubridade para habitação do pessoal das esquadrilhas, com água, vias de comunicação e próximo da linha férrea; sensivelmente plano e sem grandes valas ou árvores”, dá conta a compilação histórica levada a cabo pelo Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, no âmbito na iniciativa municipal “A Aeronáutica em Ponte de Sor – 100 anos de História”.

Aeródromo Municipal de Ponte de Sor. Créditos: DR

A centralidade geográfica de Ponte de Sor situada entre o norte e o sul, mas também entre o litoral e o interior português, o acesso ao caminho-de-ferro e a orografia suave do território foram as principais razões para esta escolha do Exército português.

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Iniciou-se então uma estreita ligação entre Ponte de Sor, os pontessorenses e a aviação portuguesa, que se prolongará por quase duas décadas. O jornal local “A Mocidade” descrevia assim o “dia de festas” que foi a inauguração do Campo: “No Campo de Aterragem estava um mar de gente. E, quando os aparelhos, após algumas evoluções, deslizaram sobre a pista, estalaram festivamente foguetes e morteiros (…). Em volta dos aparelhos era um formigar de gente curiosa. E todos olhavam com respeito, eivado de um certo tremor, aquelas estranhas máquinas que escalavam as alturas e se precipitavam de mergulho, ou revolteavam sobre si próprias”.

No mesmo ano, a 15 de setembro, o Capitão António Batista de Carvalho recebeu um voto de louvor pelos esforços empregues no estabelecimento do Campo de Aviação. Era então António Cândido Gouveia Castilho Nobre, tenente-coronel do Corpo de Estado Maior e observador aeronáutico, nomeado Diretor Geral de Aeronáutica em 1919, o responsável máximo pelo setor na altura da inauguração do Campo de Aviação de Ponte de Sor.

Acabou por falecer em 1921 no Campo de Regueira Pontes (Leiria), devido a um acidente, como muitos outros dos primeiros aviadores.

Avião comercial Farman-Titan. Créditos: DR

A ordem para que aviões militares aterrem no campo por ocasião das festas de 29 de junho, surge nesse mês de 1920. Essa festa contou com a presença da Brigada Cinematográfica do Exército no Campo de Aviação, acompanhando os aviadores.

Durante toda a década de 1920 era comum a aterragem de aviões em Ponte de Sor e, embora com menor frequência, realizavam-se diversos espetáculos aeronáuticos.

Destaque, por exemplo, para a vinda do Grupo de Esquadrilhas de Aviação “República”, a primeira unidade operacional aérea das Forças Armadas Portuguesas, em junho de 1920, ou ainda a participação de 4 aparelhos Avro da esquadrilha de Tancos, num exercício onde foram executados “arriscados exercícios de acrobacia” em abril de 1929.

Em 1922, a Direção de Aeronáutica Militar incentiva a Câmara Municipal de Ponte de Sor a criar um campo de aterragem capaz de receber aviões de transporte de passageiros, e solicita, nesse mesmo ano, que a Câmara Municipal garanta condições de segurança do campo, cortando árvores e mudando a linha telegráfica.

Esquadrilha Republica. Créditos: DR

Segundo fontes da época, o entusiasmo da população pela corrida aos céus de Ponte de Sor terá sido abundante, assinalando multidões que acorriam ao campo de aviação em “constante romaria”. Na realidade, muitos locais tiveram então oportunidade de realizar o seu batismo de voo, como foi o caso aquando da vinda do avião comercial Farman-Titan, na véspera da romaria, à Ermida de Nossa Senhora dos Prazeres, em agosto de 1929.

Os documentos revelam ainda outros entusiasmos, nomeadamente por parte do Administrador do Concelho que sugere, em 1926, que a Pista Internacional seja deslocada para o campo de Ponte de Sor. No ano seguinte a Inspeção da Arma de Aeronáutica solicita novamente à Câmara Municipal de Ponte de Sor alterações ao campo, condições da sua funcionalidade, solicitações que a Câmara aceita. E, embora uma deliberação da mesma o tenho previsto em setembro de 1927, os dados sugerem que tais melhorias não se confirmaram.

Outros projetos existiram, nomeadamente para instalação de uma escola de aviação, bem como para a criação de um ponto de escala numa futura ligação aérea comercial entre Lisboa e Madrid. A primeira referência à ideia de fazer uma escola de aviação no Campo surgiu em setembro de 1928, curiosamente no mesmo ano em que é feita a primeira referência à realização de um jogo de futebol nesse mesmo Campo de Aviação.

(1912-1912) – Avro 500 República. Créditos: DR

Isto porque, o Campo de Aviação de Ponte de Sor tornara-se demasiado limitado para satisfazer as novas exigências técnicas dos aviões, entretanto, construídos. Os documentos comprovam que não faltaram pedidos dirigidos à Câmara Municipal, por parte das autoridades militares e até de uma corrente de opinião local, publicada em diversos artigos jornalisticos, para que a pista fosse ampliada até à extensão de 1000 metros livres de quaisquer obstáculos, atingindo o estatuto de Aeródromo Nacional ou Pista Internacional. Tal não aconteceu.

Em fevereiro de 1931 o Campo de Aviação mereceu ainda uma visita do diretor do Serviço de Obras Públicas Militares, para estudar a sua possível conversão em aeródromo nacional. Mas como consequência da falta de ampliação do Campo, o número de aeronaves começou a diminuir, datando de 1935 o último registo de aterragem de uma aeronave no Campo de Aterrissagem de Ponte de Sor.

Em outubro de 1937, sobrevoaram a região vários aparelhos envolvidos em manobras militares no Alto Alentejo, com base em Sousel, mas nenhum aterra no Campo de Aviação. Em abril de 1938 a exiguidade do Campo impossibilita a aterragem prevista de aparelhos do Grupo de Bombardeamento.

Abandonada a função para a qual fora construído, o espaço passou a ser usado como campo de futebol, uma atividade desportiva que alternava com o porto de aviões.

(1924-1937) – Avro 548A. Créditos: DR

O concelho de Ponte de Sor apresenta-se como um vasto território (cerca de 840 km2), essencialmente florestal, com uma densidade populacional reduzida (19h/km2), tendo as principais atividades económicas ligadas ao setor primário. Destacou-se sobretudo na exploração florestal, na indústria da transformação da cortiça, e, durante cerca de trinta anos até 2009, na fabricação de peças para o setor automóvel.

Contudo, o setor aeronáutico, após um interregno, volta a ganhar uma posição significativa e afirma-se atualmente como um dos principais pilares da economia do concelho, compilando uma história com 100 anos. Décadas mais tarde daquela que foi a última aterragem no Campo de Aterrissagem, o Aeródromo Municipal de Ponte de Sor traz a aviação de volta ao Alto Alentejo, tendo inclusivamente concretizado a quase secular aspiração da fundação de uma escola de aviação.

O surgimento desta atividade aconteceu no inicio dos anos 2000, quando se instalaram em Ponte de Sor duas empresas de fabricação de pequenas aeronaves ligeiras, atraídas pelas medidas de incentivo criadas na época com a expansão da Zona Industrial. A presença destas empresas levou a que a Câmara Municipal iniciasse a construção de um pequeno aeródromo entre Montargil e Mora.

Aeródromo Municipal de Ponte de Sor. Créditos: DR

Em 2006, o Estado Português lançou um concurso nacional para constituição da sede nacional dos meios aéreos da proteção civil. O caderno de encargos deste concurso obrigava à construção de uma pista de dimensões maiores, entre outras valências.

Este foi o momento em que Ponte de Sor passou a ter um dos maiores aeródromos de Portugal, oferecendo uma pista com 1800 metros de extensão. A partir daí e sobretudo desde 2013, com a instalação da maior escola de pilotos nacional, a potenciação daquela infraestrutura acelerou. Hoje tem sedeadas várias empresas e emprega cerca de trezentas pessoas.

O Aeródromo Municipal de Ponte de Sor apresenta-se como uma infraestrutura de utilização pública, certificada pela Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) em classe II, Código 3C e Categoria 2, no âmbito do Salvamento e Luta Contra Incêndios, certificado n.º 43. Desde 2017 é palco da maior cimeira de aeronáutica da Europa, o Portugal Air Summit.

A posição geográfica do aeródromo, a sua centralidade no território nacional, o seu espaço aéreo livre de obstáculos e a inexistência de restrição à atividade aeronáutica, constitui uma mais-valia à realização de voos.

As condições de operação da pista (voos diurnos e noturnos com aproximação visual, VFR e por instrumentos, IFR em condições VMC), Serviço de Informação de Voo de Aeródromo (AFIS), as infraestruturas técnicas existentes (Hangares), bem como a disponibilidade de terreno para futuras construções, potenciam a continuidade de investimentos na área aeronáutica fortalecendo o cluster aeronáutico em Portugal, um século após o Exército ter instalado em Ponte de Sor um centro de aviação.

A Aeronáutica em Ponte de Sor – 100 anos de História

Para assinalar os 100 anos de aviação em Ponte de Sor, no âmbito na iniciativa “A Aeronáutica em Ponte de Sor – 100 anos de História”, o Município criou uma coleção de selos comemorativos que podem ser adquiridos no Posto de Turismo da cidade.

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