“Pinheiro Grande: uma das mais antigas aldeias do Ribatejo”, por António Matias Coelho

Pinheiro Grande | Foto: António Matias Coelho

Quem hoje circula de automóvel na estrada nacional 118, da Chamusca para Abrantes, passando o acesso às Areolas e depois à Quinta dos Arneiros, cruza sem dar por isso o ribeiro do Casal Velho e tem uma reta longa até à rotunda já para lá do Pinheiro Grande. Vai certamente depressa, atento à cor dos semáforos, ao trânsito que vem de frente, a quem, mais apressado ainda, procura ultrapassar. O Pinheiro fica ao lado, mas só o vê quem parar porque a terra se estende vale adiante e pela colina acima, prolongando-se nas Cabeças, de cujo miradouro se alcança uma vista magnífica sobre o campo, o Tejo, as terras da outra margem e a Serra d’Aire, ao longe, nos confins do Ribatejo.

Nos anos 30 a estrada não era, como agora, uma longa reta. Ficava ao rés da terra, não tendo sido ainda alteada, precavendo das cheias, como hoje está. Nesse tempo não se andava tão depressa porque eram outros os ritmos da vida e os meios que se usavam para os cumprir. Passava-se o ribeiro do Vale do Casal Velho por uma ponte de pedra, por sinal bonita, que ainda lá está, agora sem serventia, depois de a correção do traçado da estrada, feita no final dos anos 60, ter levado à construção da ponte atual, mais larga, mais fácil de passar, mas ponte apenas. E ficou um resto da estrada antiga, em longa curva, ladeando as árvores do atual Parque de Merendas até morrer na estrada nova.

É terra antiga o Pinheiro. Uma lenda, contada num painel de azulejos, na margem do ribeiro ao pé das pontes, diz que a povoação terá nascido noutro lugar, chamado Igreja Velha que ninguém sabe onde fosse, mas que tinha nome adequado. Uma vez o ribeiro veio bravo, como continua a vir em certos invernos e, correndo como queria, levou na frente a aldeia, apenas deixando para trás terra de semeadura. O povo lavrou o campo, preparando-o para o cultivo, mas teimavam os bois em ajoelhar sempre no mesmo sítio, por teimosia ou qualquer pressentimento, que não sabem os animais mais do que isso. Os lavradores revolveram a terra, a ver o que teria ela em si. E acharam uma imagem, a de Santa Maria, protetora da aldeia, que o ribeiro do Casal Velho trouxera na enxurrada e ali ficara, sabe lá a gente porquê. Decidiram levá-la para uma capela e aí a guardar, mas a imagem sempre de lá saía para vir aparecer no mesmo sítio, exatamente aquele onde os bois ajoelharam. Então resolveu o povo construir a Igreja de Santa Maria, a paroquial do Pinheiro, e se agradou dela a Senhora que lá ficou até hoje, sossegando e protegendo todos os que ali vivem.

É lenda isto que se conta. As lendas não provam nada, a não ser que não conhecemos o rigor do que falamos e por isso criamos lendas, como quem cria explicações, para tapar o vazio. Esta de Santa Maria, mais do que da aldeia, fala-nos da sua antiguidade. Mas não precisa o Pinheiro de lendas para esse fim, porque tem a antiguidade provada por documentos de arquivo.

"Pinheiro Grande: uma das mais antigas aldeias do Ribatejo", por António Matias Coelho
Brasão de Armas de Pinheiro Grande

Em 1186, sendo Portugal um país jovem, independente havia quarenta e poucos anos, já a aldeia surge nomeada numa confirmação papal, passada por Urbano III à Ordem dos Templários, a que pertencia, com a designação de Pinheira, que quer dizer pinheiro manso, como é sabido. Diz-se que por lá haver uma pinheira de dimensões impressionantes – grande, como se consagra no nome que o Pinheiro tem agora. Media de altura dezanove varas e meia (coisa para mais de vinte metros) e tinha na base vinte e três palmos de grosso (à roda de cinco metros, se fosse medida hoje). Terá subsistido mais de quinhentos anos, até ao século XVIII, quando, por ter secado de velha, o comendador a mandou cortar. Mas estamos na lenda outra vez…

Em 1230, e isto é certo, sendo um lugarejo de não mais de dez fogos, foi elevado a paróquia – freguesia, dizemos nós hoje em termos civis –, passando a englobar, nos finais do século XIII, as comendas da Cardiga, do outro lado do Tejo, e do Pinheiro.

Quando, no século XIV, o papa Clemente V extinguiu a ordem do Templo, as terras do Pinheiro passaram para a jurisdição da Ordem de Cristo, entretanto criada em substituição da anterior. E está explicado o brasão de armas da freguesia do Pinheiro Grande: um grande pinheiro manso ao centro, com a cruz dos Templários à direita e a de Cristo à esquerda. Em baixo, as três faixetas ondeadas de azul que representam o Tejo.

"Pinheiro Grande: uma das mais antigas aldeias do Ribatejo", por António Matias Coelho
Gomes Eanes de Zurara, comendador do Pinheiro, século XV | Foto: Wikipédia

Da antiguidade do Pinheiro nos fala um dos nossos maiores cronistas, Gomes Eanes de Zurara e esse é outro motivo de justificado orgulho para a modesta aldeia. Zurara, que sucedeu a Fernão Lopes no importante cargo de Guarda-Mor da Torre do Tombo, não apenas escreveu crónicas de reconhecido mérito sobre el-rei D. João I e grandes senhores e feitos da História de Portugal, como foi comendador do Pinheiro Grande. E aqui viveu, em meados do século XV, tendo sido no Pinheiro que acabou de escrever, em 1463, a Crónica do Conde D. Duarte de Meneses.

Estas são grandezas que enobrecem a mais antiga povoação do concelho da Chamusca e uma das mais antigas do Ribatejo. Sendo pequena, é a aldeia grande. Grande no nome por que se conhece. E nos pergaminhos de que justamente se orgulha[1].

[1] Este texto, no qual foram agora introduzidas ligeiras alterações, foi originalmente publicado no livro do autor Os Abrigos da Memória, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012, p. 43-46.

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