Paulo Constantino | O defensor do Tejo que brincava aos transvases em criança

Paulo Constantino, fundador do proTEJO, movimento que assinala 10 anos em atividade este mês de setembro. Foto: mediotejo.net

O nome de Paulo Constantino está associado à defesa do Tejo, o rio com que tem uma relação de “amigo de infância”, desde os tempos em que os avós eram caseiros da Quinta da Cardiga e ele se entretinha a fechar e a abrir as comportas que irrigavam os campos. O mesmo rio que passou a “companheiro de viagem” no trajeto diário que faz de comboio há 19 anos entre o concelho onde nasceu, o Entroncamento, e Lisboa. Conversámos com o fundador do ProTEJO – Movimento pelo Tejo durante um por-do-sol no parque ribeirinho de Vila Nova da Barquinha e percebemos como os transvases das brincadeiras de criança se tornaram prenúncio da causa na vida adulta: salvar o rio, que nunca encarou como mero cenário.

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O local e a hora marcada para a entrevista a Paulo Constantino coincidem com o momento que considera ser um dos pontos altos do seu-dia-dia, partilhado entre a vila ribeirinha e a capital. Conversámos com o fundador do ProTEJO, movimento de cidadania criado em prol da defesa do rio Tejo que celebra 10 anos este mês de setembro, no Parque de Escultura Contemporânea Almourol, durante um por-do-sol refletido no rio Tejo, que bem conhece e defende contra quem for necessário.

É aqui que gosta de beber o seu café e usufruir da tranquilidade do campo de que os colegas da Inspeção Geral de Finanças falam quando vão de fim-de-semana. É aqui que se encontra com as pessoas de quem decidiu voltar a ser vizinho em 2000, com o regresso ao “meio natural” depois de ter morado 12 anos em Lisboa, dando início às viagens diárias para a capital.

O início da vida surgiu a escassos quilómetros do rio que se transformou numa causa, no hospital da Santa Casa da Misericórdia do Entroncamento, a 1 de agosto de 1970. Os pais trouxeram-no para mais perto, a casa por cima dos Correios dos quais a mãe era chefe.

O pai, “serralheiro de formação” acabaria por se tornar no principal responsável pela Comissão de Trabalhadores da fábrica metalúrgica em que trabalhava e ficou em autogestão depois do 25 de Abril, quando o patrão tentou “levar as máquinas e não pagar os salários”. O negócio acabaria por ser devolvido com escudos e funcionários multiplicados, mas a recompensa do pai foi ser colocado “na prateleira” e optou por seguir carreira noutra empresa da área.

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As ligações ao concelho de Vila Nova da Barquinha já vinham da família paterna. Os avós eram caseiros da Quinta da Cardiga, a avó tomava conta do portão pequeno e o avô era guarda florestal. Dessa altura, recorda que o avô era conhecido pelo “olho azul” pela cor e porque “tinha olho de lince” que lhe assegurava o trabalho bem feito montado no seu cavalo branco.

De toda a quinta destaca a casa dos avós, hoje em ruínas, e da “grande horta” irrigada pela água do rio Tejo através de um sistema de condutas, cujas comportas se entretinha a abrir e a fechar. Uma revelação para nós e motivo de riso para Paulo Constantino quando lhe perguntamos se “brincava aos transvases”.

A entrevista foi feita no parque ribeirinho de Vila Nova da Barquinha. Foto: mediotejo.net
A entrevista decorreu no parque ribeirinho de Vila Nova da Barquinha. Foto: mediotejo.net

Uma coisa é certa, o rio Tejo esteve sempre presente entre os anos que separam as brincadeiras infantis da fundação do ProTEJO em 2009. Acompanhou-o enquanto estudou em Vila Nova da Barquinha – com a particularidade de ter sido um dos alunos que estreou o terceiro ciclo as antigas instalações da atual Escola Secundária D. Maria II -, desviou-se um pouco durante o secundário no Entroncamento e voltou a marcar presença quando partiu para Lisboa, em 1988, para fazer o curso de Economia do Desenvolvimento no Instituto de Economia e Gestão por estar “ligada à economia de países subdesenvolvidos”.

As “poucas saídas profissionais” acabaram por resultar num mestrado em Economia Monetária e Financeira.

A primeira experiência profissional foi como estagiário numa empresa “ligada à construção civil”, depois candidatou-se a diversas entidades ao nível da consultoria e auditoria e à banca, acabando por optar pela Inspeção Geral das Finanças, instituição onde continua a trabalhar no controlo e gestão de contas nacionais e comunitárias. Morou em Lisboa até sentir o apelo da terra da família e aí construir casa, passando a partilhar o início e final de dia com os viajantes do transporte ferroviário.

Hoje, passados 19 anos, admite que a rotina não é fácil pelo cansaço que se acumula, mas a qualidade de vida que procurou junto ao Tejo “continua a compensar” sempre que chega ao Médio Tejo, perto das 19h00.

A partir dessa altura, o trabalho é relegado para segundo plano e assume a função de pai, conjugada com a de deputado municipal desde 1997 e a defesa do rio desde 2009. No entanto, a vida política foi iniciada muito mais cedo, aos 19 anos, ao lado de Miguel Pombeiro, antigo presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e atual Secretário Executivo da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo.

Paulo Constantino refere que nessa altura se depararam com um partido socialista “fechado” e sem “atividade partidária” ao qual decidiram “dar novo fôlego” e desde então ficou ligado à Juventude Socialista a nível local e distrital.

A ida para Lisboa acabou por lhe condicionar a “vivência” com a terra e as pessoas e decidiu que a atividade autárquica nunca seria feita “antes de poder estar na Barquinha de forma permanente” e dedicar-se à política local “que é mais verdadeira e mais virtuosa” por se “fazerem coisas para as pessoas do concelho”.

O Tejo faz parte das memórias de infância passadas com os avós na Quinta da Cardiga. Foto: mediotejo.net
O Tejo faz parte das memórias de infância passadas com os avós na Quinta da Cardiga. Foto: mediotejo.net

A entrega às causas locais acabou por dar lugar a uma outra com dimensões ibéricas e cujo elemento principal, o rio Tejo, o “acompanha” no percurso que faz todos os dias entre Vila Nova da Barquinha e a capital. À pergunta de quando o rio passou de cenário de viagem a causa de vida responde que “o Tejo nunca foi cenário porque quem é barquinhense viveu sempre o Tejo, seja a pescar ou a tomar banho”.

A questão traz-lhe as memórias de quando “os mais corajosos” corriam pelo “pontão ao pé da hidráulica e mergulhavam no rio” e de quando se brincava nos caminhos entre as canas da maracha.

As cheias são outra recordação e destaca as mais marcantes, em 1979, quando as enguias ficavam nos “charcos do largo das festas” e eram apanhadas à mão “por um senhor com um balde”. Muita água que três décadas depois, em 2009, não conseguia ser bombeada do Tejo para o canal que percorre o parque ribeirinho e termina na cascata.

O problema não eram as bombas instaladas em 2007, era da pouca quantidade de água no rio.

Interessou-se pela questão e em conversa com Carlos Matias, ex-vereador da Câmara Municipal do Entroncamento e deputado da Assembleia da República, tomou conhecimento da sessão que tinha decorrido no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha com a presença do Duque de Bragança, o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, diversas associações ambientalistas e um grupo de Talavera de la Reina (Toledo, Espanha).

Os transvases para o sul de Espanha foram tema da apresentação do grupo espanhol e quando lhe teve acesso decidiu que não se limitaria a defender a causa do rio Tejo através de palavras.

A situação era grave, “aquilo não podia ser assim”, e exigia ações concretas numa luta que começou por se materializar em junho desse ano com a deslocação a Talavera de la Reina para participar numa manifestação.

Interrompeu as férias no Algarve e juntou-se ao grupo de barquinhenses que foram representar Portugal com o apoio do município, conseguido através da moção apresentada na assembleia municipal.

A dificuldade em bombear a água do rio Tejo para o canal do parque ribeirinho foi o ponto de partida do ProTEJO. Foto: mediotejo.net
A dificuldade em bombear a água do rio Tejo para o canal do parque ribeirinho foi o ponto de partida do ProTEJO. Foto: mediotejo.net

Pouco tempo depois realizou-se a consulta pública sobre as “Questões Significativas da Água”, primeira etapa para a elaboração dos Planos de Gestão de Região Hidrográfica, e lá encontrou responsáveis da Quercus, da COAGRET (Coordenadora de Afetados pelas Grandes Barragens e Transvases) e da LPN (Liga para a Proteção da Natureza).

O resultado imediato e indireto dessa apresentação não foi a entrada em vigor do Plano de Gestão da Região Hidrográfica do Tejo para o período 2009-15, atrasada pela burocracia, mas sim o surgimento do PROTejo – Movimento pelo Tejo.

O movimento de cidadania sem personalidade jurídica surgiu a 5 de setembro de 2009 com a adesão de 20 entidades, entre “associações, instituições e autarquias locais”, e, poucos anos depois, conseguiu afirmar-se como um elemento importante na luta pelo rio.

O número de membros oficiais subiu para “38 organizações e 73 cidadãos que preencheram o ato de adesão” e a estes juntam-se as cerca de 2000 pessoas que seguem o ProTEJO no facebook. Os números são, segundo Paulo Constantino, consequência da atenção captada para a importância da quantidade e qualidade da água do rio Tejo e da colocação da palavra “transvase” na ordem do dia.

Se, em 2009, considerava o impacto dos transvases como o principal problema do rio no lado português, hoje está convencido de que os seus efeitos negativos são maiores no país vizinho. O problema deste lado da fronteira, salienta, tem origem nas barragens da Estremadura espanhola pois a água que ali é gerada representa “2/3 da que chega a Portugal, ou seja, mais do que suficiente para eles nos fornecerem” o bem líquido.

Para Paulo Constantino, a decisão de “abrir ou não a torneira” é condicionada pela necessidade de produção de energia hidroelétrica. Uma razão que o leva a defender a garantia de fornecimento de caudais “anuais, trimestrais, semanais e diários” pela Convenção de Albufeira (Convenção sobre Cooperação para a Proteção e o Aproveitamento Sustentável das Águas das Bacias Hidrográficas Luso-Espanholas) de modo a assegurar um rio com condições ecológicas sustentáveis e a valorização dos equipamentos turísticos.

Algo que diz não acontecer atualmente devido à influência dos “utilizadores da água do rio sobre o poder político”.

Paulo Constantino defende que o rio deve ser encarado "como um todo" e sem fronteiras. Foto: mediotejo.net
Paulo Constantino defende que o rio deve ser encarado “como um todo” e sem fronteiras. Foto: mediotejo.net

Além das sequelas do “lobby energético”, o ProTEJO também denuncia a poluição que transforma o azul da água em “castanho” através de inúmeras iniciativas, como as descidas do rio em canoa realizadas sob o mote ‘Vogar contra a indiferença’ e na qual participam mais habitualmente cerca de uma centena de pessoas de nacionalidade portuguesa e espanhola.

A colaboração entre ambientalistas ibéricos tem sido constante e a questão do impacto negativo dos transvases em terras espanholas também constituiu uma prioridade na luta pelo rio que “deve ser visto como um todo”.

Dos números associados aos litros de água no Tejo, aos euros no trabalho e aos quilómetros das deslocações diárias restam-lhe os das horas que divide entre o tempo passado no computador de casa ao final do dia a “construir e atualizar” o conhecimento público sobre a causa que defende e o parapente, a canoagem e as viagens.

O parapente foi perdendo terreno, a canoagem continua e destaca a forma como conheceu África em trabalho e a França numa roadtrip.

Quando lhe pedimos para projetar o futuro não nos fala de outras viagens. Assume o instinto protetor que sente pelo rio, que associa à palavra “vida”. É hoje “uma força viva da natureza aprisionada em barragens e estrangulada pelas utilizações que o Homem lhe dá”.

Para o libertar, conclui, é fundamental “uma maior participação dos cidadãos na defesa dos recursos naturais, neste caso o rio Tejo, e a agregação dos interesses próprios em torno de algo que é coletivo, que nos diz respeito a todos”.

*Entrevista publicada em setembro de 2016, atualizada e republicada em setembro de 2019

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